Roncalli e o ''seu'' Concílio. Artigo de Alberto Melloni

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03 Novembro 2012

Um cristão que tem a possibilidade de convocar um Concílio e o "convoca", que sente a tarefa de expressar todas as instâncias da Igreja e as "expressa", que tem o poder de abri-lo e com toda a evidência "abre" um Concílio que se tipifica como novo a partir do seu caráter "pastoral".

A análise é Alberto Melloni, historiador da Igreja italiano, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação João XXIII de Ciências Religiosas de Bolonha. O artigo foi publicado no blog Teologi@Internet, 10-10-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Angelo Giuseppe Roncalli, nascido em 1881, primeiro papa "italiano" em sentido unitário, natural das terras visitadas por São Carlos 300 anos antes, é um produto perfeito do que Trento sonhava como padre e bispo reformado reformador. Com relação àquele segmento de tradição que outros ainda identificam com a tradição, ele não tem nenhum complexo reverencial e nem a inquietação dolorosa que alimenta o percurso intelectual de Congar, de Rahner, de Chenu e dos outros grandes teólogos do Vaticano II.

I – Homo tridentinus?

Para ele, esse percurso se refere a uma cultura que o põe em comunicação com tudo o que, para outros, era impedido justamente por aquela. Por isso, Roncalli gosta de ser padre e gosta de ser bispo: com um rigor anticarreirista e uma limpeza moral absolutos. Para esse padre e esse bispo, realizar o sonho tridentino significa cumpri-lo, concretizando-o de um modo novo, em uma nova forma. Ele faz isso por razões históricas inerentes àquela cúpula, às suas condições, à sua agenda – todas coisas que o padre tridentino sente com absoluta imediaticidade e simplicidade: livre do complexo pelo qual, na luta contra a Modernidade e somente nela, se concretiza o rigor da verdade, Roncalli explora uma radical confiança no humano como ele se dá, porque é o humano como ele se dá que chama a redenção e, nos seus próprios sinais históricos, a expressa já.

É assim que Roncalli ouve a palavra evangélica, a sabedoria do Kempis, a retórica dos pregadores, o alegorismo dos padres, as descrições do cerimonial de consagração: o que a todos pareceria fragmentado e extrínseco, para ele está inserido em um complexo de indicações imperativas às quais é preciso permanecer fiel – apesar do papado, se deveria dizer, já que como papa ele assume as funções de bispo de Roma de modo direto. Mais uma vez sem proclamações de ruptura e sem nem mesmo sentir a ruptura em um estado de consciência expresso; mas no gosto por celebrar com o povo, na visita às paróquias, no diálogo composto com o próprio clero, Roncalli se expressa como um perfeito bispo tridentino que assim embaralha as cartas firmes há séculos de uma hierarcologia que consideraria a definição do papa como bispo de Roma pouco menos do que uma forma de reducionismo ofensivo.

Não só isso: o bispo tridentino Roncalli sabe que a medida do seu empenho não é uma descrição de trabalho abstrato, mas sim o princípio da salus animarum: e se na Bulgária, na Turquia e Grécia, na França e depois explosivamente em Veneza o modo de pregar, precipuus episcoporum munus, é objeto de contínuas atenções, em Roma justamente esse cuidado – que não tem acessos privilegiados nem na exegese moderna, muito menos no pastoralismo à la page – torna-se o instrumento com o qual os fiéis que escutam entendem as suas intenções últimas.

Uma fotografia de 1960 para a estação quaresmal em Santa Sabina retrata perfeitamente o tipo de responsio espontânea que vem do povo romano a esse homem que não desdenha o ministério episcopal: "Viva o bispo de Roma!", diz uma grande faixa com as grandes letras quadradas do torcedor ciclístico ou do protesto sindical. Proposição de um porte eclesiológico muito relevante porque, justamente, pensa que João XXIII gostará dessa definição não como limitação do poder universal, mas como o seu fundamento na relação de paternidade e fraternidade à qual chegará na saudação aos fiéis na noite do 11 de outubro de 1962.

II – O florescer do Concílio

É nessa consciência sem noviciado que João XXIII pode dizer que sentiu "florescer" dos seus lábios "a palavra: concílio" no dia 25 de janeiro de 1959, menos de 100 dias depois da sua eleição à Sé petrina. Padre da geração em que se espera um Concílio a cada passo, Roncalli anuncia o “seu” concílio a sangue frio, tendo adquirido, por respeito a uma ideia da fisiologia da cúria e ao conclave que esperava dele essa escolha, o parecer do secretário de Estado por ele nomeado, Domenico Tardini.

Ele o anuncia juntamente com todos os "mas" que lhe foram oferecidos – o concílio está bem, mas seria preciso reformar o código; o concílio está bem, mas seria preciso um sínodo para Roma – e o anuncia com a sensibilidade de quem sabe que "17 anos depois do fim da Guerra Mundial é hora de curar as cicatrizes" dos dois conflitos que encerraram uma era e abriram uma nova em que o padre tridentino está, sem medos e sem ilusões pessimistas sobre o que espera pelo mundo, como ele dirá, enunciando a doutrina da misericórdia no discurso de abertura do Concílio que eu acredito que simplesmente deveria ser relido pelo espaço que ele dá a uma visão não espiritualista da fé. Um "fora do ar" capturado pelos microfones da Rai documenta a reação de Roncalli aos boatos sobre ele:

"Alguns dizem, eu também ouvi, que o papa é otimista demais, que só vê o bem, que assume as coisas a partir do bem. Mas, sim, eu não sei me separar – naturalmente, a meu modo – do nosso Senhor, que também só infundiu em torno de si o bem, a alegria, a paz, o encorajamento."

Seguir o exemplo de Jesus bendito "a meu modo", como havia entendido desde 1903, nos é confirmado pelo Il Giornale dell'Anima: é o novum muito pouco original que Roncalli leva ao papado como cristão. Um cristão que tem a possibilidade de convocar um Concílio e o "convoca", que sente a tarefa de expressar todas as instâncias da Igreja e as "expressa", que tem o poder de abri-lo e com toda a evidência "abre" um Concílio que se tipifica como novo a partir do seu caráter "pastoral".

III – Gaudet

Certamente, para Roncalli, o Vaticano II é assim – pastoral – e só pode ser assim: ele dirá isso na Gaudet mater ecclesia, a alocução de abertura do Vaticano II no dia 11 de outubro de 1962, que foi incompreensível para quem buscava o programa do Concílio em vez de aproveitar a oportunidade renovadora especifica que o Concílio, como tal, trouxe consigo.

Para Roncalli há uma forma do magistério à qual o Vaticano II deve se adaptar e é a pastoral: aquela que não se ocupa de minúcias paroquialescas, mas do modo de dizer a verdade coerente com a natureza salvífica e misericordiosa da pessoa de Jesus. Um critério de tal forma exigente e simples a ponto de ser impérvio e incompreensível para muitos, à época e depois, com relação ao qual categorizações inventadas com o objetivo de ferver o Vaticano II em uma sopa de insignificâncias e de floreios se desbotam.

O Concílio "doutrinal" que no ranking da teologia escolar estaria no topo da classificação dos concílios era o que, segundo aquele que deve considerado o pai do Vaticano II, não tinha razão de ser hic et nunc. Não havia a necessidade de um concílio para repetir a doutrina já conhecida, na qual os processos teológicos de recepção e os históricos de decantação haviam distinguido o irrenunciável do caduco, o ideológico do necessário, o vivo do inútil, ou, nas palavras de Congar, o sistema da verdade. O ponto em discussão era restituir ao evangelho a sua eloquência: questão de "revestimento", como a definiria na Gaudet mater ecclesia, porque o evangelho tem um revestimento e se desnuda somente depois da sua comunicação e nunca antes, para o homo tridentinus que Roncalli é.

A visão de Roncalli é uma visão da verdade cristã e da sua instância íntima de comunicação que não precisa de grandes renovações de tipo sistemático e de gestos exteriormente devastadores para se expressar. Para si, portanto, Roncalli tem não um resíduo, mas sim o que lhe é próprio: o gosto e a satisfação de ser um cristão que permanece como tal enquanto passam por trás, por dentro, acima dele os bastidores do século XX, sem nunca conseguir arranhar a substancial abertura teologal ao humano.

IV – O humano

É ali, no fim das contas, que o cristianismo de Roncalli aporta, com uma posição decisiva e mais uma vez ainda tão transparente a ponto de se prestar a muitas simplificações brutais. O humano de Roncalli não tem nada para partilhar com a "reviravolta antropológica" da teologia dos anos 1960 e com os seus subprodutos pastorais ou até mesmo politicísticos do fim do século XX. Leitor dos padres gregos em improváveis reuniões de declamação com os embaixadores católicos no Oriente, Roncalli não utiliza nem mesmo as categorias da théōsis, a divinização como destino escatológico do humano, à luz da qual a experiência concreta também ganha luz.

Muito menos compartilha aquela sensibilidade da moral do fim do século XIX, que considera o humano como um cadáver para exercitações de autópsia voltadas a instruir o confessor que (por isso?) acabará no século posterior como desempregado. Nem é roncalliana uma das duas visões que, do Concílio em diante, se enfrentam sem exclusão de golpes e que Joseph Komonchak identificou corretamente como uma das chaves hermenêuticas do Vaticano II e da sua recepção.

Roncalli não pertence à grande e bipartida família cultural dos tomistas: entre eles são possíveis posições muito diversas – das mais ousadamente reformadoras às mais teimosamente conservadoras. João XXIII não sente o efeito do neotomismo leonino, nem da revisitação escolástica em função antimodernista: o seu Tomás se reduz a algumas fórmulas, a pequenas teses, e nunca é matéria de leitura.

Muito menos, no entanto, Roncalli pertence à outra inclinação decisiva ao Vaticano II, a dos agostinianos. São aqueles que, não raramente, iniciam o seu percurso a partir de posições muito radicais ou até subversivas, em nome de uma afirmação do sujeito que é muito mais forte do que aquela com que se afirma a Igreja. Mas é justamente nessa sensibilidade espiritual, antes mesmo de teológica, que nascem os mais fortes repensamentos diante da complexidade do desenvolvimento do Concílio e da sua recepção.

Um pessimismo radical sobre a ferida do pecado, um desprezo pela construção humana em que, ao invés do invisível dedo de Deus, se vê em ação a soberba do indivíduo, o leva a considerar todo esforço de reforma como banal, falimentar, modesto com relação àquele dinamismo interior que só garantiria a autenticidade do progresso e que, justamente por causa da sua inapreensibilidade, deve ser posto entre parênteses e substituído por uma adesão passiva ao status quo. Coisas totalmente alheias ao Papa João XXIII, que, ao contrário, se move em outro plano.

Foi justamente a repetida tragédia bélica que o colocou em contato com o mundo das vítimas de um modo que interage inesperadamente com a sua fé: as centenas de jovens que morrem nas retaguardas onde ele passa o "Guerrone", o rumor da revolução stalinista bem audível da Bulgária da primeira década depois da morte de Lênin, o contato com o Holocausto nas margens do Bósforo, onde os mais dramáticos relatos e documentos sobre o extermínio dos judeus chegam como prévias das mãos dos agentes da Jewish Agency, a assistência ao vivo da ressurreição da democracia francesa e do nascimento dos novos órgãos da diplomacia multilateral fazem com que ele olhe com olhos diferentes para os esforços subsequentes de regulação dos conflitos, de construção da paz e de distensão.

Sobre esses esforços não é raro encontrar expressões roncallianas que se alinham milimetricamente à desconfiança ou até à contrariedade do magistério vigente: mas quando esses esforços se tornam expressões de pessoas concretas, quando sobre elas ele deve exercer uma responsabilidade direta, eis que brota inesperada a abertura de crédito, a concessão de confiança, a solidariedade. Isso pode acontecer com os ortodoxos búlgaros ou com homens do sionismo com sede em Istambul, com os membros do MRP francês [Mouvement Républicain Populaire, partido político de inspiração cristã] ou com os jovens fanfanianos de Veneza, favoráveis à abertura à esquerda (dos quais ele se distancia, mas sobre os quais estende um manto de proteção com relação às durezas que ele sente incumbir sobre estes que são "filhinhos" e são "bons"). Ou ainda pode acontecer através de uma generosidade de trato que o interlocutor entende muito bem e que Roncalli normalmente anota nas agendas com fórmulas evasivas ("entendemo-nos bem"), onde os conteúdos, quase sempre, efetivamente, foram evasivos...

O modo pelo qual Roncalli interpreta essa abertura ao humano como chave da universalidade reivindicada pela função papal não se refere isoladamente à função de pastor da Igreja universal, mas sim à paternidade e ao múnus do bispo que unifica esta àquele chamado. João XXIII se sente, assim, chamado a um esforço de compreensão de todos, do qual a distinção entre erro e errante – citação do Hiponense que permaneceu inerte durante séculos – adquire um dinamismo próprio justamente em vista do Concílio e dentro do Concílio. Porque, justamente como encontro litúrgico com o rosto de Cristo, o Concílio recebe a tarefa de fazer as pazes não com a Modernidade, como temia o Sílabo, mas sim com a humanidade em busca de paz.

V – O início

Perspectiva portadora, como é natural, de conflitos: conflitos desde já vencidos por uma eclesiotipo que o Pe. Giuseppe De Luca evocava diante de alguém que bem os conhecia como Giovanni Battista Montini, recorrendo a uma metáfora eloquente: a do abutre, que se eleva em torno do idoso chefe da Igreja.

"A Roma que tu conheces e da qual fostes exilado não faz referência a mudanças como parecia que deveria ser no fim. O círculo dos velhos abutres, depois do primeiro susto, volta. Lentamente, mas volta. E volta com sede de novos massacres, de novas vinganças. Ao redor do carum caput [Papa João XXIII], esse macabro círculo se aperta. Recompôs-se, certamente."

Justamente porque esse era um destino aparente, o esforço que faz de Roncalli o que hoje é digno de estudo rigoroso, mas não vagamente erudito, é o fato de que essa passagem marca (como Calcedônia, para cujo concílio Karl Rahner cunhara o sintagma) um novo inicio: algo que encerra uma época, segundo uma dinâmica bem conhecida para a pesquisa histórico-crítica. Com Roncalli, acaba uma temporada secular, não porque um projeto histórico tenha encontrado realização, não pelo sucesso de uma paciente desígnio de contrapoder. Esse, aliás, será o tema de uma propaganda denigratória, que considera a eleição de "Nikita Roncalli" o momento de sucesso de sabe-se lá qual maquinação diabólica.

O estudo meticuloso das fontes diz justamente o contrário e mostra como Roncalli vêm daquele mundo do qual ele marca a atualização. Ele viveu a crise antimodernista como seminarista e como padre, é diplomata da diplomacia vaticana de Ratti e Pacelli, torna-se patriarca de Veneza em uma fisiologia da carreira eclesiástica, sobe ao sólio pontifício em um conclave muito normal no qual consenso e vontade são chamadas a se encontrar. O ponto de diferença não está, então, no projeto (que não existe), mas sim em alguns elementos fundamentais da sua espiritualidade e da sua cultura que ele vive de modo preponderante, que ele deixa falar também com relação aos papéis institucionais que ele desempenha.

Roncalli sai eleito do conclave pela fama de homem prudente e pacífico que tem e que merece: mas o contraste não se esgota na escolha de um homem sobre cuja cabeça desponta uma bem merecida coroa de piedade; o contraste vem porque ele considera que deve ser papa dando capacidade e espaços de governo para uma atitude espiritual que o molda, que ele esculpe (eu não acho que se pode dizer menos) através da leitura e da escrita. Existem, em suma, elementos da sua cultura que ele antes assume, depois cultiva e finalmente coloca em ação no seu governo: estes tornam possível um novo posicionamento da Igreja perante a história e o Senhor de uma e de outra.

São esses os nervos vivos daquela que, no seu pontificado "conciliar", assumirá o nome de atualização: mas se quisermos entender com que Roncalli rompeu um equilíbrio institucional e eclesiástico que enjaularia a riqueza do catolicismo em tempos futuros à época, encontra-se diante da contradição entre um padre tridentino nada desconfortável com as formas e com as devoções daquela temporada e, ainda assim, capaz de selecionar e de voltar às fontes da Tradição menos comprometida com o fechamento confessional, com a philautía do antimoderno. Essa escolha, que representa uma ruptura no plano histórico, para Roncalli, é uma obediência.

VI – A vitalidade

E a ascensão dessa obediência ao poder é, para o catolicismo do fim dos anos 1950, uma injeção de vitalidade. Porque o problema do catolicismo de meados do século XX não é a alternativa entre o rigor e o laxismo, entre a defesa da verdade e a liquidação da verdade: essa falsa dicotomia, ao contrário, é aquele que um modelo cultural obsoleto – o do intransigentismo do fim do século e das escolas romanas – pôs em circulação para defender, naturalmente, o apelo ao imobilismo, à submissão que esconde a preguiça. A alternativa é entre a ficção e a substância, entre o sistema e a verdade (como dizia Congar), entre o poder organizacional e a confiança à pobreza vivificante da simplicidade evangélica.

Dentro dessa dimensão de obediência, coloca-se a escolha de João XXIII de ser papa em um plano do magistério pouco frequentado: porque o papado dos séculos XIX-XX preferiu enfatizar a dimensão do magistério, mas também reduzir drasticamente a sua extensão. Como foi mostrado, o termo magistério, que circunscrevia o conjunto do ensino em uma variedade complexa, se reduziu ao longo do século XIX para indicar o ato doutrinal da autoridade eclesiástica e sobretudo o do pontífice, guardião e fonte de um magistério ordinário que deveria até reabsorver o trabalho histórico-teológico e reduzi-lo a conectar por meio de um comentário um ato papal ao outro.

Essa linha de tendência – da qual há notáveis testemunhos sobreviventes –, de fato, tinha um efeito pesado sobre a função episcopal, forçada a uma perpétua e hemorrágica repetição de adesão ao ensinamento papal; assim, de fato – justamente enquanto as grandes encíclicas pacellianas sobre a Escritura, a liturgia, a Igreja concediam ao esforço renovador dos movimentos ao menos o mérito de ter apresentado questões não mais evitáveis – os bispos se forçavam, depois, a imitar esse modelo de autoridade que estendia sobre áreas cada vez maiores as tendas da doutrina (a moral privada, a doutrina social etc.) e deixava cada vez menos espaço para dimensões vitais da vida cristã, como a ruminação escriturística, a espiritualidade, a oração.

João XXIII marcou com o Concílio uma ruptura nesse cenário porque o consenso que se reuniu em torno da sua pessoa não foi inteiramente determinado por esses processos, mas, no entanto, se baseou no reconhecimento de um papel – o de mestre espiritual – no qual os bispos de Roma haviam desaprendido a se reconhecer: e pretendeu dar ao Concílio esse horizonte renovador que era o que havia marcado a substância da profissão cristã e da função de um bispo, que, no entanto, permanecera totalmente um cristão.

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