17 Outubro 2012
Em seus primeiros comentários públicos sobre o impasse do Vaticano com a Leadership Conference of Women Religious (LCWR) dos Estados Unidos, o novo "czar" doutrinal do Vaticano disse que a pergunta certa não é quem está errado, mas sim "quem respeita a revelação e os seus elementos essenciais".
A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio do jornal National Catholic Reporter, 13-10-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
O arcebispo Gerhard Müller, 64 anos, disse "olhar com simpatia" para grupos como a LCWR, mas, ao mesmo tempo, disse que "nenhum grupo pode se definir como fonte de interpretação autêntica" do ensino da Igreja.
Esse papel, insistiu Müller, pertence "ao papa e aos bispos em comunhão com ele", que espera "fidelidade substancial" do resto da Igreja.
A LCWR é o maior grupo de lideranças de ordens religiosas femininas dos Estados Unidos. No início deste ano, a Congregação para a Doutrina da Fé emitiu uma crítica avaliação doutrinal de 18 páginas sobre o grupo e nomeou três bispos norte-americanos para liderar uma revisão.
Os comentários de Müller foram feitos em uma entrevista com o jornalista Paolo Rodari no jornal italiano Il Foglio. A conversa abrangeu uma ampla gama de tópicos, desde o atual Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização à longa amizade de Müller com Gustavo Gutiérrez, considerado o pai do movimento da teologia da libertação.
Rodari introduz a entrevista observando que a LCWR foi acusado de "feminismo radical", de silêncio sobre o aborto e o casamento gay, e de se recusar a retirar uma declaração de 1977 em favor das sacerdotisas.
O que segue é um trecho da entrevista sobre a LCWR.
Rodari – Quem está errado, você ou elas?
Müller – A revelação de Deus é confiada à Igreja, que a transmite mediante a escritura e a tradição. Ao mesmo tempo, a Igreja ensina que a interpretação definitiva da revelação cabe ao magistério, isto é, ao papa e aos bispos em comunhão com ele. A Igreja espera dos seus membros uma fidelidade substancial ao que foi revelado por Cristo e interpretado por ele. Às vezes, ela corrige aqueles que se equivocam: se não o fizesse, falharia em sua missão de Mater et Magistra.
Eu devo dizer que olho com simpatia para toda assembleia na Igreja: a Igreja vive da responsabilidade dos seus membros que livremente se associam e se alimenta da vida de cada comunidade, das menores até as maiores, compostas por leigos, sacerdotes, consagrados. Ao mesmo tempo, não me parece que nenhuma assembleia pode se autoconstituir como instância de interpretação autêntica da revelação. Dentre outras coisas, os temas mencionados também se referem a elementos dogmáticos. A pergunta correta não é "quem está errado?", mas sim "quem respeita a revelação e os seus elementos essenciais?".