No Sínodo dos Bispos, o ''ecumenismo vive!''

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16 Outubro 2012

Antigamente, não havia quase nenhum outro assunto que a Igreja Católica poderia propor e que com muita garantia provocaria temor e tremor nos outros cristãos que a "evangelização", que geralmente tinha sabor de proselitismo, de competição e de um recuo do ecumenismo – em outras palavras, ir pescar na lagoa de outra pessoa.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio do jornal National Catholic Reporter, 13-10-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Do ponto de vista de muitos ortodoxos, protestantes e anglicanos, uma Igreja Católica "evangelizadora" era vista como uma ameaça.

Esse contexto torna especialmente irônico que, sem dúvida, a característica mais distintiva do Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização, entre os dias 7 a 28 outubro, ao menos até agora, seja o seu sabor fortemente ecumênico. No fundo, alguns bispos estão dizendo que o que eles viram e experimentaram lhes deu um novo otimismo ecumênico – especialmente, dizem, em uma época em que o principal desafio evangélico não vem de outros cristãos, mas sim de uma cultura profundamente secular que deixa todas as Igrejas basicamente no mesmo barco.

Em grande medida, as impressões do impulso ecumênico são o resultado da presença simultânea em Roma, nesta semana, do Patriarca Ecumênico Bartolomeu I, de Constantinopla, reconhecido como o "primeiro entre iguais" do mundo ortodoxo, e do arcebispo de Canterbury, Rowan Williams, chefe da Comunhão Anglicana mundial.

Williams falou ao Sínodo na quarta-feira passada, tornando-se a primeira pessoa de fora a se dirigir a esta edição do evento. Na quinta-feira, tanto Bartolomeu quanto Williams se uniram a Bento XVI em uma missa para celebrar o 50º aniversário do Concílio Vaticano II (1962-1965). Durante a liturgia, Williams usava o anel episcopal que o Papa Paulo VI deu ao seu antecessor, Michael Ramsey, em 1966.

No dia seguinte, Bartolomeu e Williams foram os convidados de honra de um almoço que Bento XVI ofereceu para todos os participantes do Sínodo dos Bispos.

Em breves discursos no almoço, Bento XVI chamou a sua presença de "um sinal de que estamos caminhando rumo à unidade" e que, "em nossos corações, estamos fazendo progressos" – expressando a esperança de que esses progressos também possam ser expressos "de maneira externa também".

Em seu discurso no Sínodo, Williams disse que o impulso para a unidade cristã é fundamental para a evangelização, porque "quanto mais nos mantivemos afastados uns dos outros como cristãos de diferentes confissões, menos convincente a mensagem da Igreja será".

Por sua parte, Bartolomeu disse que os ortodoxos "apreciaram o esforço [da Igreja Católica] pela libertação gradual da limitação do rígido escolasticismo para a abertura do encontro ecumênico".

O ethos ecumênico do Sínodo brilhou de formas grandes e pequenas.

Há 14 "delegados fraternos" que participam do Sínodo dos Bispos, representando outras Igrejas cristãs, e de certa forma eles se tornaram um pouco como pequenas celebridades. Embora as regras sinodais tecnicamente proíbem os aplausos após os discursos, as apresentações dos delegados fraternos foram seguidas de longos aplausos. Em outro sinal de deferência, alguns decidiram silenciosamente não ligar o temporizador habitual quando eles falavam, para que pudessem ultrapassar o limite de cinco minutos imposto aos bispos e a outros participantes.

Na sexta-feira, a segunda pessoa de fora a falar no Sínodo subiu ao palco – Werner Arber, um microbiologista que dividiu o Prêmio Nobel de medicina e de fisiologia de 1978 pelo trabalho que ajudou a abrir caminho para a tecnologia do DNA recombinante. Arber também é o presidente da Pontifícia Academia das Ciências e, como protestante suíço, é o primeiro não católico a ocupar o cargo.

O tema de Arber foi a relação entre ciência e fé, mas a sua presença também parecia ser, no contexto, uma espécie de declaração ecumênica.

Durante as sessões de trabalho do Sínodo, vários oradores argumentaram que a "Nova Evangelização", que em parte é dirigida a redespertar um sentido religioso em uma cultura ocidental completamente secularizada, deve ser um empreendimento ecumênico.

O cardeal Peter Erdő, da Hungria, por exemplo, disse que "uma colaboração prática geral entre as Igrejas e as comunidades cristãs da Europa está crescendo", chamando-a de um sinal de esperança para a Nova Evangelização.

"Os encontros com os representantes de todas as Igrejas ortodoxas expressaram um vasto consenso sobre a família e a vida, assim como os critérios da relação entre Estado e Igreja e a crise econômica", disse. "O espírito de fraternidade e de solidariedade está crescendo até mesmo com as comunidades protestantes na Europa".

De outra parte do mundo, o bispo auxiliar Milton Luis Tróccoli Cebedio, do Uruguai, propôs que qualquer catequese que se desenvolva para a Nova Evangelização deve ser expressa "em chave ecumênica".

Dom Petru Gherghel, bispo de Iaşi, na Romênia, disse ao Sínodo que "o fim da perseguição ateísta abriu as portas para uma primavera ecumênica promissora", e pediu que os seus colegas bispos "cultivem o ecumenismo da oração, a fim de que a unidade dos cristãos possa ajudar o mundo a crer em Cristo".

O arcebispo Józef Michalik, de Przemyśl, presidente da Conferência dos Bispos da Polônia, elogiou um recente apelo conjunto pela reconciliação e a esperança dirigida aos povos da Rússia e da Polônia, que foi assinada tanto pelo patriarca ortodoxo de Moscou quanto pelos bispos católicos da Polônia.

"Essa voz comum pela defesa da identidade da fé e da proclamação do Evangelho terá grandes possibilidades de nos tocar mais profundamente, especialmente em nossos corações", disse Michalik.

Na verdade, também houve indicações ao longo do caminho de que nem tudo são flores no fronte ecumênico. Gherghel, por exemplo, também informou que a Igreja ortodoxa na Romênia recentemente proibiu qualquer oração conjunta com os católicos, de modo que, tecnicamente, católicos e ortodoxos não podem nem rezar o Pai Nosso juntos.

Até mesmo no Vaticano, também podem ser encontradas leves sugestões de ambivalência. No fundo, dizem as fontes, havia a esperança de que, quando Bento XVI aparecesse na janela do seu apartamento com vista para a Praça de São Pedro na noite do dia 11 para se dirigir a uma multidão que celebrava o aniversário do Vaticano II, Bartolomeu e Williams poderiam estar ao seu lado, oferecendo assim uma das grandes imagens ecumênicas de todos os tempos. No fim, isso não aconteceu.

No entanto, o efeito cumulativo dos toques ecumênicos da semana, tanto em termos de símbolos quanto de substância, foi impressionante.

Falando nos bastidores, um bispo ocidental comentou desta forma no sábado à tarde: "Quando eu cheguei aqui, eu tinha quase certeza de que estávamos em um grande desânimo. Agora, a única coisa que eu posso pensar é: o ecumenismo vive!".

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