Conversando sobre bioética com Juan Masiá

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Por: Jonas | 08 Outubro 2012

Religión Digital veio à luz pública do mundo editorial pela mão de um autor consagrado, um jesuíta mundialmente conhecido, uma autoridade no mundo da bioética: Juan Masiá, que publicou conosco, em parceria com Herder-RD, o livro “Cuidar la vida, Cuestiones bioéticas”.

A entrevista é de José Manuel Vidal, publicada no sítio Religión Digital, 04-010-2012. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

A apresentação do livro foi um sucesso total.

Senti-me muito satisfeito, rodeado de velhos amigos. O que acontece é que na minha idade lembro-me dos rostos e esqueço-me dos nomes ou me esqueço dos nomes e lembro-me dos rostos.

Traz satisfação se sentir querido, quando algumas vezes na Internet a única coisa que recebe são ataques?

Bem, há pessoas que atacam e pessoas que acolhem, mas acredito que a agressividade de alguns blogs é uma coisa circunstancial. Não se pode entrar na onda e nem se incomodar com isso.

Por que você decidiu publicar um livro sobre bioética com o título “Cuidar la vida”?

O título deste livro é um lema que em muitos outros que publiquei sobre bioética, em algum capítulo ou de alguma maneira, também usei. Porque no tema da bioética, nos últimos 50 anos do século passado, a humanidade avançou muito, sabemos mais da vida e, por conseguinte, podemos manejá-la e manipulá-la mais. Esse é o problema da bioética: Devemos fazer tudo o que podemos fazer? A tarefa de cuidar da vida (das pessoas, dos animais, do planeta...) está no fato de que o futuro da vida está em nossas mãos, de todos. Não apenas de um grupo de especialistas de medicina ou de ética. De todos.

O livro anterior a este, “Tertulias de bioética”, nasceu precisamente de diálogos e de convite, como este (que recolhe assuntos posteriores), para o leitor estendê-los. A ideia principal está num grupo de pessoas que se reúne para conversar sobre o cuidado da vida.

Quer dizer, é uma temática atual e acessível? É mais uma conversa do que uma grande teoria?

Sim. Por vezes ocorre nas mesas redondas em que você é convidado ao lado de um cancerologista, um neurologista, um geneticista... e ao final o colocam porque parece que se não abrem espaço para alguém da ética, ficam mal. Cada um dispõe de 15 minutos para falar, mas logicamente todos os especialistas falam 20, assim quando chega a vez da ética o moderador diz: “Você me perdoa, porém só restaram 5 minutos...”Além do que, todos os expositores disseram previamente que falarão sobre o “seu”, e que a ética deixarão para mim. Desta forma, nestes 5 minutos, preciso dizer que a ética não é de meu monopólio. Eu não tenho autoridade, nem estou qualificado para falar de cirurgia, mas os cirurgiões que estão no público sim. Estão qualificados para falar de ética.

Dessas conversas surgem os temas deste livro. De conversas entre especialistas em congressos e exposições: o embriologista e o pediatra dando o seu ponto de vista sobre o começo da vida, por exemplo. Porém, surge também de outros tipos de conversa, que não são acadêmicas, nem interdisciplinares. São conversas cidadãs, cívicas, de um grupo de pessoas que conta com crentes e não crentes, que pertencem aos dois extremos do colorido político do arco parlamentar... Ou seja, um público plural e diálogo, que pode, deve e quer falar com serenidade sobre estes assuntos, pelos quais buscamos respostas que ainda não foram encontradas, em que é preciso fazer uma busca comum.

São temas que interessam todo mundo por ser fundamentais? Por tratar da vida e da morte?

Sim, atingem a todos. E não no plano individual, como o aborto ou a eutanásia; mas globalmente, porque são questões que afetam o mundo inteiro, como o problema da água. Como alguém ficará discutindo horas e horas sobre aborto e eutanásia, quando existe um continente africano em que metade das pessoas não tem acesso a uma água que não esteja contaminada?

Existe bioética da ecologia?

Sim. A ecoética.

Escreveu um livro de bioética para que todo mundo entenda?

Eu fiz um esforço para colocar estes assuntos, que são difíceis e delicados, na linguagem mais simples possível. Para que possamos falar com diferentes pessoas, de diferentes níveis, diferentes idades, diferentes mentalidades... Por exemplo, o tema do final da vida deveria poder ser conversado falar antes que surja uma enfermidade terminal. Conversar em família, na vizinhança ou entre amigos, quando estamos saudáveis. Porque assim, quando chegar esse momento, as pessoas que lhe são queridas saberão como você gostaria que fosse tratado, respeitando sua dignidade ao morrer.

As pessoas falam, expressam isto?

Eu acredito que carecemos falar quando estamos com saúde, não quando o problema já se apresentou. Eu lembro uma vez, vindo do Japão, quando meus pais estavam bem maduros, eu estava preparando uma conferência sobre o final da vida. Minha mãe me pediu que eu a lesse, e eu lhe disse: “Bem, assim ensaia-se”. E surgiu uma conversa, e meus pais me disseram que oxalá nesse dia eu estivesse ali, e que não lhes colocassem muitos tubos no hospital, e que lhes tirassem a dor se sentissem... Era isso o que fundamentalmente ia dizer em minha conferência, mas minha mãe me disse: “Claro, mas se disser assim não o reconhecerão como intelectual. Deve expô-la como muito difícil, para que não se entenda”.

Ao final, quando chegou o dia da morte de meu pai e de minha mãe, eu não fiquei pensando se deveria dar um tratamento exagerado ou não. Foi com toda a naturalidade, pois quando estavam com saúde, tínhamos conversado, e disseram-me como queriam enfrentar a morte.

O cardeal Martini tomou a decisão, no último momento, de morrer sem obstinação terapêutica. Por que na Itália parece que, em certos setores, isto provoca certa polêmica?

João Paulo II queria tomar esta mesma decisão, no entanto, eles lhe fizeram a traqueotomia e tudo isso.

Por que isto continua sendo um assunto tabu?

Existe um medo do que chamam “ladeira escorregadia”, por onde passa a eutanásia. Quando na Espanha foi apresentado o projeto de lei, que com a mudança de governo não chegou ao Parlamento, não se chamava “morte digna”, mas “divindade no processo de morrer”. No entanto, em seguida a oposição protestou dizendo que era “dissimuladamente” uma lei da eutanásia. E não é assim. O natural é rejeitar tudo o que não seja bom para a sua própria qualidade de vida, acompanhar a pessoa e aliviar a dor.

O cardeal Martini tem um livro em que dialoga com um médico sobre todos estes assuntos de bioética. E ele repete o tradicional da moral teológica, de Vitoria e demais.

Ou seja, o cardeal Martini e você, que são vistos como “discrepantes”, no fundo estão seguindo a tradição da moral teológica?

Veja o caso de Eluana, a menina italiana que estava há anos em estado vegetativo. O pai tomou a decisão de suprimir o prolongamento de vida artificial e deixar que a morte chegasse naturalmente, que era a melhor forma de respeitá-la. Imediatamente, alguma autoridade vaticana de muito peso, como se correspondesse no mundo civil ao Ministério da Saúde, disse que não deveria, de maneira alguma. Curiosamente, um bioeticista que se vangloria muito de fazer “bioética secular” disse o contrário, que ela deveria ser desligada a todo custo porque era um vegetal, sem dignidade nenhuma. Perguntaram-me com qual dos dois eu estava, e eu disse que não estava com nenhum deles porque os dois são exatamente iguais. O cardeal, com bons critérios (respeitar a pessoa), retirou más conclusões (que não se deve desligar); e o outro, com maus critérios (dizer que não é uma pessoa, mas um vegetal), disse o contrário, que deveria ser desligada. Quem tinha a razão era o pai: deveria ser desligada justamente para salvar sua dignidade.

O mesmo acontece com as deficiências. Um bioeticista australiano muito conhecido me disse uma vez que uma pessoa com certo grau de deficiência não tinha valor na vida, e que poderia deixar que morresse. Imediatamente, outro especialista muito religioso disse que como pessoa tinha valor e dignidade e, portanto, não poderia prescindir-se dela. Não era nenhuma coisa e nem outra: a pessoa tem valor e tem dignidade; mas é preciso questionar a respeito de qual é a melhor maneira de respeitá-la. Até que ponto devemos levar os cuidados médicos, para que não deixem de ser oportunos? Caso tenha dores, como as aliviamos? A eutanásia não é matar a pessoa contra a sua vontade.

Dá a sensação de que são temas tão delicados, que um passo acima ou um passo abaixo conjeturam coisas totalmente diferentes.

É preciso pensar muito nesse passo, sim. Vou expô-lo de uma maneira muito vulgar: não é o mesmo comer um bom pescado fresco do que congelado. Parece uma comparação ridícula, mas verdadeiramente há duas éticas, duas morais: uma é a do plastificado, do congelado. Seja apresentado o problema que vier, abrem o plástico e lhe oferecem. E uma vez descongelado, já não se pode fazer nada com isso. A outra ética é a dos processos vivos.

Justamente o Concílio Vaticano II disse que não era necessário dar respostas pré-fabricadas: “Não pensem que a Igreja tem sempre, e em todo momento, as respostas para todos os problemas na Bíblia”. O que é preciso tirar da Palavra de Deus e da teologia são a luz e força para pensar e para buscar juntos as respostas para os novos problemas.

Qual é a razão de fundo pela qual a hierarquia da Igreja (ou ao menos uma parte dela) tem medo do tema da moral sexual e da bioética?

Arrastamos uma história muito longa de estreiteza de olhar no momento de enxergar estes assuntos. Nos tempos de Pio XII, antes do Concílio Vaticano II, perguntavam-lhe pela morte, e Pio XII dizia que a Igreja a única coisa que pedia é para que se uma pessoa não estiver morta, que não digam que esteja morta. Ao contrário, no início da vida dá medo dizer o mesmo. Parece que em relação a tudo o que de alguma forma se liga ao tema da sexualidade, a teologia e a moral têm um capítulo pendente.

Quando o atual Papa era Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, no ano de 1987, puxou um documento, evidentemente com o visto de João Paulo II, em que dava um não sem limites para a fecundação in vitro, mesmo entre casais e sem desprezar embriões. E apresenta a mesma razão para dizer não aos anticonceptivos: a inseparabilidade absoluta e total do aspecto unitivo e do aspecto procriador. É um assunto que tem bloqueado a Igreja, que não se pode tratar com flexibilidade, que é intocável.

Na apresentação do livro você disse que nos assuntos de bioética não existe nada dogmático. As pessoas não acreditam exatamente no contrário disto?

O próprio Paulo VI dizia: não é que o aborto seja errado porque a Igreja disse, não necessitaria que dissesse. A moral é proteção da vida. A Igreja se une ao que diz a moral mais natural, e justifica com o que para o crente são motivações religiosas. Não é que exista um clube com algumas regras.

Contudo, você não se considera um herege por divergir em alguns aspectos destes assuntos?

A heresia é cometida apenas em questões de dogma. Se eu dissesse que Jesus Cristo não é Deus, seria um herege. Um dissidente. Contudo, discordo apenas de certas questões controvertidas, que penso que a Igreja deveria repensar. Exatamente porque são controvertidas, é natural que haja opiniões diferentes.

Por que em alguns setores da atual Igreja é tão difícil aceitar esta discordância?

Não sei se culturalmente estamos menos preparados para o diálogo. Eu gostaria que um psicólogo e um sociólogo me explicassem por que algumas pessoas se apresentam tão encrespadas. Algumas vezes, parece que é proibido pensar ou expressar opiniões diferentes. Um exemplo: imagine um grupo de cinco pessoas discutindo sobre o matrimônio homossexual (se dever ser legal, se é o caso de se chamar de matrimônio...). Penso, no melhor do otimismo, que tanto um crente muito tradicional e muito meticuloso, como outro que é totalmente o contrário de conservador, tem o direito de dizer o que pensa com toda a naturalidade, sem se aborrecer, apresentando razões. Porém, a questão é que, depois de discutir, o grupo deve ser capaz de admitir que são assuntos controvertidos, e que embora nem o senhor A e nem o senhor B vão ceder em seu ponto de vista, podem concordar num ponto: que não possuem o direito de discriminar nenhuma pessoa por razão de sua orientação sexual. Na hora de legislar deveria ser assim: debatendo democraticamente, e sem se opor a conclusões em nome da religião ou da teologia.

O cardeal Martini disse claramente que era partidário da família mais tradicional e de seus valores, porém não se sentia obrigado, por isso, a sair gritando contra algumas pessoas que optam por um modelo de família mais minoritária na sociedade. Se na Espanha, por exemplo, é votada uma determinada lei de reprodução assistida, um parlamentar católico não precisa se sentir obrigado por seu bispo, nem por sua consciência religiosa, a votar contra. É compatível, numa sociedade plural, ter algumas preferências pessoais, mas respeitar o que democraticamente decidiu a maioria.

Caminhamos para essa tolerância, ou para o contrário disto?

Não tenho preconceitos contra o meu país, mas acredito que culturalmente aqui ainda temos uma transição para fazer. Temos uma herança de inquisição, de agressividade, de funcionar com uma moral de respostas prontas, de sim ou não, branco ou preto, permitido ou proibido. Quando tirada todas as cores ao arco-íris, fica um código de barras. Efetivamente, na Espanha há uma moral de código de barras. E o pior é que pegam uma dessas barras para dar uma pancada no da frente, que é o que costuma acontecer entre a “equipe branca” e a “equipe preta” (para não dizer vermelhas e azuis). Um padre, por ser padre, não precisa ser contrário ao aborto. Um progressista, por ser progressista, não tem que ser em favor do aborto.

Partimos sempre de ideias preconcebidas e de anátemas?

Parece que não há meio termo, quando a questão realmente importante é a de como acompanhar, médica e humanamente, o processo de nascer e de morrer.

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