Uma nova eclesiologia inter-religiosa. Da comunhão à harmonia. A proposta de Peter Phan

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05 Outubro 2012

Discutir o diálogo inter-religioso e a diversidade religiosa no século XXI, aponta um desafio à Igreja cristã, diz o teólogo Peter Phan na abertura de sua conferência, intitulada A semântica do Mistério da Igreja no contexto das gramáticas atuais. Uma perspectiva inter-religiosa, ministrada na noite de ontem, no Auditório Central da Unisinos, em ocasião do XIII Simpósio Internacional IHU - Igreja, cultura e sociedade. A semântica do Mistério da Igreja no contexto das novas gramáticas da civilização tecnocientífica. Ele justifica sua afirmação assinalando que "o pluralismo religioso constituiu um problema teológico - o mais controvertido problema teológico -, para a teologia cristã".

A reportagem é de Patricia Fachin.

Cristão de batismo, mas com um "DNA confucionista budista", o teólogo asiático diz que o diálogo inter-religioso "é um signo ou significante da linguística teológica". A primeira parte desta linguística é a semântica, "cuja tarefa é desdobrar os sentidos e desafios da diversidade religiosa para a Igreja". Nesta compreensão, assinala, a diversidade se torna o pluralismo religioso, e esta "ideologia" "desafia a tradição cristã na compreensão de que Jesus é o único, de que a Igreja é a única, a universal, e o sacramento da salvação".

Para Phan, a discussão das novas gramáticas para a Igreja no século XXI necessita a formulação de algumas questões, entre as quais, propõe: "A nova diversidade exige uma nova gramática e uma nova sintaxe, que sejam apropriadas para a nossa época? O que a teologia tem a ver com a fé, e a prática da fé? Essa nova semântica implica uma nova pragmática, uma nova forma de ser Igreja no mundo?"

Antes de responder as questões, o teólogo brincou com seus amigos jesuítas, presentes na platéia: "Não sou jesuíta, graças a Deus, mas convivi com eles tanto tempo que não posso falar sobre qualquer assunto sem expressar três pontos".

O primeiro ponto, portanto, refere-se à semântica do pluralismo religioso, ou seja, ao fato de que o cristianismo sempre existiu em relação com as outras religiões, desde o judaísmo às religiões egípcias. Entretanto, no início esse "encontro inter-religioso era amistoso e benéfico", porque havia muito "empréstimo de outras religiões". A dificuldade de dialogar surgiu posteriormente, "quando o cristianismo quis se diferenciar das outras religiões. Desde então, sua relação com elas passou a ser polêmica", alfineta.

Convivência religiosa

Resgatando a história da Igreja, Phan esclarece que até o século VII, antes da ascensão do islamismo, "o cristianismo não tinha concorrentes sérios", e apesar de "as relações entre as religiões abraâmicas terem sido marcadas pelo ódio e pela violência, houve casos notáveis de tolerância e convivência religiosa". A diferença é que, "após ascenderem ao poder político e econômico, o cristianismo e o islamismo mantiveram a tolerância econômica e política, mas teologicamente, a questão é diferente", critica.

O teólogo refere-se ao que chamou de "atitude majoritária da Igreja com as outras religiões" antes do Concílio Vaticano II, que tinha, "à luz da vontade de Deus, a iniciativa de salvar todas as pessoas da ignorância invencível". Segundo Phan, entre os missionários "havia uma visão hostil diante das outras religiões, com exceção dos jesuítas (por exemplo, Matteo Ricci na China) - que foram grandes e bons missionários tendo uma relação positiva com as outras religiões - mas que também estão convencidos de que para ser salvo, a pessoa tem de se tornar cristã, porque a Igreja é a única arca da salvação".

Ao longo de sua explanação, Peter Phan assinalou a posição da Igreja católica em relação aos não-cristãos, compreendidas pelo Concílio Vaticano II como sendo os "judeus, os muçulmanos, as pessoas que buscam, em sombras e imagens, um Deus desconhecido, os que buscam Deus com um coração sincero, e os que não encontram Deus", reafirmando a possibilidade de as pessoas encontrarem Deus na religião cristã. Para ele, essa "direção é de mão única. A Igreja eleva, sana e aperfeiçoa o que se encontra em outras religiões. Nada é dito na direção contrária". E questiona: "Minha pergunta é: Será que as outras religiões podem purificar, elevar e aperfeiçoar o que é pecaminoso na Igreja cristã para a gloria de Deus? Essa é a questão que quero abordar aqui: A verbalidade dessa afirmação é recíproca?"

Unidade da humanidade

Na avaliação do teólogo, o Concílio Vaticano II vê as religiões não-cristãs "como tentativas humanas". Nesse sentido, pergunta: "Será que podemos ver as religiões não-cristãs como forma divina, e não humanas, como formas divinas de salvar os não-cristãos?" Phan aponta ainda que são três os verbos importantes do Concílio Vaticano II: "reconhecer, preservar e incentivar".

O teólogo assinalou o avanço do Concílio Vaticano II em relação ao diálogo inter-religioso, porque afirma que "os não-cristãos são salvos não apesar das suas religiões, mas por causa delas. Essa é uma grande mudança". Reconhecendo a "abertura da Igreja", Phan chama a atenção para os desafios da Igreja, hoje. "Essas afirmações, por mais pioneiras que tenham parecido, cinquenta anos depois, em 2012, me parecem inadequadas diante do contexto pós-moderno". Na compreensão dele, "a gramática pós-moderna é a alteridade, o respeito ao outro,  e a rejeição de qualquer esforço de essencializar a alteridade sob alguma categoria universal de salvação".

Exclusivismo, inclusivismo e pluralismo

Phan menciona ainda que as compreensões de exclusivismo, inclusivismo e pluralismo religioso são diferentes, mas as três teologias compartilham pressupostos básicos: "todas as religiões apontam para uma realidade única, Deus; pressupõe que o objetivo da religião seja a salvação; e que deve haver um mediador para a salvação, seja um livro, uma pessoa, um comunidade. Quando se examina essas três posições, se vê que não há muitas diferenças entre elas", destaca.

A diferença das religiões monoteístas com outras religiões são mais visíveis, já que o confucionismo e o taoismo, por exemplo, não falam de mediação, "não falam de salvação transcendente e, sim, das relações humanas". O dilema, entretanto, é que "nos três paradigmas apontados, as religiões usam seus critérios de verdade e validade para julgar e avaliar os critérios de verdade e validade das outra religiões", lamenta. Segundo ele,"ao invés de falarmos em salvação abstrata, devemos observar os objetivos concretos de cada religião, e ver como eles são realizados na prática".

Sintaxe do século XXI: a harmonia

Diante da necessidade de uma nova sintaxe para o século XXI, Phan sugere uma "eclesiologia da harmonia" em substituição ao conceito de comunhão. "A eclesiologia da Igreja é restrita e se faz necessária uma nova gramática eclesiológica cujo o centro seja direcionado para fora, dirigido para o outro, num diálogo de humildade com as outras religiões". Além disso, a "harmonia permite a diferença e o conflito, a comunhão passa por cima dessas questões. A  harmonia reconhece a diferença, e na comunhão todo mundo é igual".

As respostas para elaborar a eclesiologia da harmonia, Phan busca nas igrejas asiáticas sua inspiração. Citando longamente os grandes documentos emanados das Conferências Episcpais do continente asiático, ele se referiu a uma eclesiologia que represente um direcionamento da Igreja no sentido de servir ao mundo. "Para ser igreja verdadeiramente, a Igreja precisa esvaziar-se e deixar de existir por sua própria causa, e existir para uma realidade superior: o Reino de Deus. Nessa eclesiologia centrada no Reino de Deus, a Igreja não é mais se considera o centro da vida cristã, ela remove o centro para baixo. O Reino de Deus é o centro em torno do qual tudo na Igreja gira, e para o qual tudo está subordinado. Tanto o que a Igreja é ou faz são definidos pelo Reino de Deus, e não o contrário", argumenta. Para ele, essa mudança se faz necessária porque a Igreja é "missionária por essência", e está comprometida com os valores do Reino de Deus, anunciados por Jesus. Apesar de nem sempre termos clareza sobre o que significam os valores do Reino de Deus, ele é categórico: "O reino de Deus traz o perdão gratuito e a paz universal".

Desta forma, Peter Phan esboçou os traços de uma 'eclesiologia kenótica".

Na tentativa de estabelecer um diálogo com as demais religiões, Phan reitera que a nova sintaxe exige uma nova forma de viver a fé. "Uma nova espiritualidade é necessária através do diálogo intercultural e religioso". O teólogo justifica que sua proposta não supõe "nova era", "gosto pessoal", e tampouco baseia-se na relatividade ou na elaboração de uma "religião global". A nova espiritualidade "é fruto maduro do diálogo intra e inter-religioso, em que a vida religiosa é aprofundada e enriquecida pelo ensinamento e a prática de outras religiões, uma espiritualidade religiosa que nasce do encontro com o outro".

Foto de Thamiris Magalhães

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