Robert Kurz devolve o debate sobre a crítica do valor

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Por: André | 18 Setembro 2012

O falecimento de Robert Kurz, mentor do grupo e da revista Krisis, devolve o debate sobre a crítica do valor e as outras leituras de Marx.

A reportagem é de Federico Corriente e publicada no jornal quinzenal Diagonal, 13-09-2012. A tradução é do Cepat.

Robert Kurz (1943-2012) foi o principal representante da escola da “crítica do valor”, elaborada pelo grupo e revista Krisis, ao qual também pertenceram teóricos como Ernst Lohoff, Anselm Jappe ou Norbert Trenckle. Uma das suas teses centrais é que a etapa culminante do desenvolvimento capitalista, a “modernização” (em sua forma privada ou de Estado), tocou o teto faz tempo, e que a sociedade da mercadoria é tão incapaz de seguir crescendo, assim como de integrar a crescente porção da humanidade convertida em “população excedente”.

Em outras palavras, a “crítica do valor” é uma teoria da crise final e irreversível do capitalismo. E é verdade: há mais de 30 anos que o capitalismo prolonga artificialmente sua existência simulando um falso estado de saúde na produção “real” mediante uma imensa massa de “capital fictício” gerado por um endividamento sem precedentes e pela expansão inaudita das chamadas bolhas financeiras.

Nos anos 1960, a Internacional Situacionista e outros grupos críticos ao marxismo ortodoxo se inspiraram fundamentalmente na obra do jovem Marx. Sua assimilação do conceito de fetichismo da mercadoria, por exemplo, não foi fruto de uma apropriação minuciosa de O Capital: foi mediada através do Lukács de História e consciência de classe (1923). Nem a teoria do valor nem a crítica marxiana madura da economia política desempenharam papel algum nas análises da Internacional Situacionista e grupos afins, mas isso não impediu que se encontrassem a vanguarda teórica de seu tempo. Cabe duvidar, no entanto, do fato de que a crítica concreta e radical do capitalismo contemporâneo possa “marchar ao passo da realidade”, omitindo qualquer referência à teoria marxiana do valor e dissimulando esta carência com maldições rituais contra a “lógica da mercadoria”.

Por mais paradoxal que possa parecer, enquanto a “ultraesquerda” francesa e italiana da década de 1960 tentou manter viva uma teoria crítica radical fincando pé na autonomia da classe operária frente às instituições do movimento operário oficial, a Escola de Frankfurt tratou de fazer o mesmo dando as costas à luta de classes imediata. Daí que na Alemanha a reapropriação radical de Marx se caracterizasse tanto pela continuidade como pela ruptura com o legado frankfurtiano.

A “nova leitura de O Capital” começou a se animar de verdade a partir de 1968. Apesar de seu caráter abstrato e às vezes acadêmico, suscitou debates que captaram em toda a sua radicalidade a compreensão do valor como uma forma totalizadora de mediação social. Tais debates também permitiram deduzir, por exemplo, que além de superar algo que está “fora de nós”, a negação revolucionária do capitalismo exige a nossa própria superação enquanto sujeitos constituídos por relações de valor.

Daí a concluir que o “marxismo” e o movimento operário clássico (assim como a reivindicação de uma “economia socialista” estatizada ou autogestionada pelos próprios trabalhadores) foram movimentos internos à modernização capitalista não havia mais que um passo, pois a prática efetiva do movimento operário oferece escassos indícios de ter apontado alguma vez a negação radical do valor, das classes e do Estado, e muitas provas palpáveis do modo como contribuiu para consolidá-los.

No final dos anos 1970, pois, começou a se distinguir entre um “Marx esotérico”, teórico da crítica radical do valor, e um “Marx exotérico”, que sintonizou com um movimento operário que aspirava melhorar a situação da classe operária na sociedade burguesa ou a estabelecer (fosse pela via reformista ou “revolucionária”) um “socialismo” baseado em categorias fundamentalmente capitalistas.

Adeus ao proletariado?

Nesse período também se considerou que a noção marxiana do capital como “sujeito automático” havia refutado a concepção do proletariado como sujeito da história e que a luta de classes era “imanente ao sistema” e se movia no interior de suas categorias, razão pela qual não podia desembocar em sua abolição (Moishe Postone, que desenvolveu suas ideias em Frankfurt no começo da década de 1970, defende ideias muito afins). Pois bem, se se rechaça o proletariado como sujeito revolucionário e se nega à luta de classes a possibilidade de se elevar a dignidade da práxis revolucionária, como conceber a abolição do capitalismo?

Os debates alemãs não deram uma resposta satisfatória a esta pergunta, mas a tentação de postulá-la como uma questão de “consciência correta” (às vezes parece ser esse o caso) remete a essa separação entre educador e educando que Marx quis resolver com a terceira tese sobre Feuerbach).

Contudo, embora a maioria dos representantes da “nova leitura de O Capital” rechacem a noção de uma missão histórica do proletariado, isso não significa que todos eles (e menos ainda todas as pessoas situadas no âmbito geral do marxismo inspirado na crítica da forma-valor) façam sua a redução da luta de classes a mero “motor interno” do desenvolvimento capitalista.

Em última instância, no entanto, e por mais crítico que seja preciso ser em relação à concepção “marxista tradicional” das classes, não se pode negar que a produção capitalista de valor é simplesmente o “outro lado” da reprodução de uma relação social de dependência mútua. Há quem atribua o ceticismo dos partidários da “crítica do valor” diante da luta de classes à experiência traumática do nazismo, e é de se agradecer que estes provenham contra a denúncia demagógica das “finanças parasitárias” como uma prática limítrofe com o antissemitismo.

Não obstante, e embora toda a precaução seja pouca, parece excessivo excluir que a abolição do valor tenha um ponto de apoio fundamental na resistência da classe que se vê obrigada a produzi-lo, sobretudo quando, como consequência desta produção, setores cada vez mais amplos da mesma se vejam condenados à superfluidade. E uma teoria radical que extremasse a prudência até o ponto de evitar qualquer valoração do “movimento real que transforma as condições existentes”, sob o pretexto de que este ainda pode ser “recuperado” ou dar passagem à barbárie, correria, por sua vez, o perigo de abstrair-se em excesso da realidade.

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