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15 Setembro 2012

Em 362 páginas saborosas e recheadas de mineirices, o jornalista e escritor J.D. Vital publica, pela editora Civilização Brasileira, um livro-reportagem com instigante tema - Como se Faz um Bispo Segundo o Alto e o Baixo Clero -, pleno de informações preciosas e desconhecidas, até do próprio público católico.

O comentário é de Fernando Altemeyer Junior, professor da PUC-SP, e publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo, 15-09-2012.

O livro é composto de 24 breves capítulos precedidos de um guia de terminologia (as benditas palavras-chave) e de uma breve apresentação do jornalista do Estado José Maria Mayrink, que também revela segredos escondidos em certas nomeações de bispo, encerrando com adequadas referências bibliográficas para uma leitura complementar.

Obra necessária para quem quer compreender como se expressa a estrutura episcopal da Igreja católica no Brasil, sua dinâmica interna, conflitos e expressão humana e hierárquica, Como se Faz um Bispo não peca por excessos nem erros teológicos ou canônicos. Foi escrito na justa medida da questão a que se propôs pesquisar, com a assessoria do eminente teólogo, já falecido, padre Alberto Antoniazzi.

Há capítulos imperdíveis para o leitor comum, tais como Bispo-burro (cap. 1), O núncio, o bacalhau e a capivara (13) e Lágrimas na Basílica (22). O autor apresenta a pesquisa que consumiu dez anos de pesquisas e entrevistas. Dá as razões do por que não há bispo burro; conta como um bispo de Minas Gerais teria sido escolhido por conta de bacalhoada oferecida ao núncio nos idos dos anos 1980; e fala das lágrimas para ver nomeado bispo o padre jesuíta Luciano Mendes de Almeida.

A resposta para a questão central vai sendo respondida aos poucos em uma garimpagem de dados, depoimentos e sensibilidade incomuns mesmo para quem fosse membro do clero. Essa talvez, seja a qualidade central do texto: é escrito por um leigo cristão com a sutileza e a perspicácia de ser jornalista. Morde as questões importantes e não foge das tensões e crises que se lhe apresentam.

A resposta jurídico-canônica está bem delineada com a interpretação ampla do cânon 378 do vigente Código de Direito Canônico da Igreja de rito latino, no qual estão todos os pré-requisitos para um padre ser bispo: fé sólida eminente; piedade; zelo; boa reputação; ao menos 35 anos de idade; sacerdote ao menos há cinco anos; e mestrado ou doutorado em área teológica. É verdade que os cânones de 375 a 380 ampliam esses pré-requisitos, mostrando que se faz necessário que esses escolhidos ajam sempre em comunhão com o bispo de Roma; que se sintam partícipes plenos do colégio universal dos bispos; que não sejam feitos bispos por pressão de qualquer autoridade civil ou estatal, e, sobretudo, vivam como pastores da parcela do povo que lhes foi confiada como testemunhas, apóstolos, mestres, irmãos e, humildes servos da Igreja que irão conduzir, até morrendo por ela.

É claro e lógico que o processo da escolha episcopal, o segredo que ele envolve e as vicissitudes psicológicas e até a inveja mereceram o maior espaço no estudo e pesquisa, mostrando de forma transparente as tensões, a articulação dos bispos na formulação de seus sucessores, a ação da nunciatura apostólica, como agem os colégios de presbíteros de 275 dioceses hoje existentes no Brasil e como se dá a nomeação pontifícia do candidato a bispo. O autor colabora para que se responda como, no conjunto dos atuais 22 mil padres no Brasil, 466 foram feitos bispos, ou seja, como é esse intrincado processo de escolha de 1 entre 47 candidatos. Destaca também o papel centenário do Colégio Pio Brasileiro em Roma como uma "fábrica de bispos" e o papel decisivo da Congregação para os Bispos, organismo da Cúria Romana, considerado o QG que "produz e publica" os nomes daqueles que serão feitos bispos em todo o mundo, localizado na Piazza Pio XII, número 10, no Vaticano.

Lendo atentamente o livro, veremos que entre o ideal de como se faz e a realidade de como é feito um bispo no Brasil há uma enorme distância. Exemplar é a história primordial do primeiro bispo a pisar em terra brasileira: o português nascido em Évora, dom Pedro (Pero) Fernandes Sardinha, que permanecendo na única sede episcopal do País, Salvador da Bahia, de 25/2/1551 até a sua resignação em 2/6/1556, foi vítima de naufrágio, 15 dias depois na costa litorânea de Alagoas e (talvez) devorado em uma cerimônia antropofágica pelos índios caetés. Hoje, passados 500 anos de história cristã no Brasil, e depois de 1.110 bispos terem sido escolhidos, vemos que muita coisa mudou. O padroado acabou (felizmente), os estrangeiros diminuíram muito, bispos profetas surgiram (como dom Helder e dom Luciano Mendes) e a conversão dos bispos se tornou o desafio permanente para ter novamente uma geração de ouro, como aquela das décadas de 1960 e 1970. É simpático que o livro termine com um depoimento emocionado do primeiro bispo nipo-brasileiro dom Júlio Ende Akamine, que se torna leitura obrigatória aos leitores da obra. Sugiro que se comece o livro pelas páginas 355 e 356 (finais). Servem de luz segura para compreender tudo aquilo que as precede. Assim os padres, religiosas e os "leigos eminentes em sabedoria" das 15 dioceses atualmente sem bispo no Brasil (sedes vacantes) poderão se animar para sugerir e opinar na escolha dos futuros pastores de suas dioceses, ampliando a comunhão e a participação, como propôs o Concílio Vaticano II e as conferências latino-americanas de Puebla e Aparecida em seus documentos conclusivos. Assim, a lista tríplice enviada pelo núncio para o Santo Padre decidir com plena liberdade seria enriquecida desses votos qualitativos do povo de Deus, chamado à corresponsabilidade pastoral.

Como teólogo profissional, me ressenti somente da falta de um breve comentário ao modo de como Jesus Cristo fez ele mesmo o chamado ao grupo dos 12 apóstolos, e particularmente ao que seria o primeiro convocado para bispo, André, pescador de fé firme e forte, filho de Jonas e irmão de Pedro. O convite de Jesus foi irresistível: "Venham comigo e eu os farei pescadores de homens" (Mateus, 4,19). A resposta de André foi imediata e radical. Permanecerá como referência para todos os que são feitos bispos hoje: mergulhar no Evangelho e viver por ele.

Um único senão ao texto é a grande frequência com que se volta à questão dos padres casados, algo que destoa do tema principal e certamente mereceria outro livro investigativo.

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