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15 Setembro 2012

"A Europa virou um grande supermercado, assim como quase todo o resto do planeta", diz Costa-Gavras, em entrevista publicada no jornal Valor, 14-09-2012, ao comentar o seu novo filme Capital.

Foi Constantin Costa-Gavras, grego radicado na França, que buscou encerrar a polêmica sobre uma suposta visão fascista do diretor José Padilha em seu Tropa de Elite. Em 2008, o brasileiro recebeu o Urso de Ouro do Festival de Berlim justamente das mãos desse cineasta, responsável por filmes como Z (1969), sobre a ditadura na Grécia, Estado de Sítio (1972), sobre a influência dos Estados Unidos nas ditaduras da América Latina, e Missing - Desaparecido (1982), sobre a ditadura de Pinochet no Chile. "Um homem com a minha percepção de mundo jamais poderia ignorar um filme político de tamanha relevância", afirmou o diretor de 79 anos ao Valor, em Toronto.

Costa-Gavras está de passagem pela cidade canadense para participar da 37ª edição do Toronto International Film Festival (Tiff), que termina no domingo. Vencedor do Oscar de melhor roteiro adaptado por "Missing", o diretor apresentou seu mais recente longa-metragem, Capital, que tem a primeira exibição mundial no evento com mais de 300 títulos (sendo 147 "premières"). Com estreia na França em 14 de novembro (ainda sem lançamento previsto no Brasil), "Capital" disseca os abusos no universo das finanças, mostrando como os bancos e seus acionistas continuam dominando o mundo.

"A Europa virou um grande supermercado, assim como quase todo o resto do planeta", diz Costa-Gavras, que escolheu contar a história do ponto de vista de um recém-empossado CEO de uma instituição financeira francesa, a fictícia Phenix. Por ser jovem e menos experiente, Marc Tourneuil (vivido por Gad Elmaleh) é visto como um alvo fácil de manipulação pelos acionistas. Um deles é Dittmar Rigule (Gabriel Byrne), que tenta seduzi-lo com iates, jatinhos particulares e top models para que o CEO faça transações perigosas, mas potencialmente lucrativas. "É patético ver como os ricos continuam insatisfeitos com o que têm e querem sempre mais dinheiro."

Eis a entrevista.

Pela visão que o senhor apresenta em "Capital", o mundo moderno parece estar sugando a humanidade da sociedade. Seja com a ambição desmedida dos bancos ou com a tecnologia, que afasta as pessoas...

É isso mesmo. Foi o sentimento que eu quis transmitir. O problema é que o dinheiro isola totalmente as pessoas. É cada um por si, ninguém se importa com o outro. Incluí a cena das crianças brincando sozinhas, cada uma com o seu smartphone, por eu ainda não me conformar com essa situação. Na minha época, os garotos queriam brincar com os outros garotos. E para piorar, no mundo das finanças, não há mais ética. Todo mundo faz qualquer coisa para ganhar mais dinheiro. Tanto para si próprio quanto para os acionistas, pois são justamente os acionistas que dão a posição social de que os banqueiros desfrutam.

Para ser eleito presidente, Barack Obama disse na campanha eleitoral de 2008 que tentaria regulamentar o mercado financeiro...

Mas ele não fez nada. O problema são os poderosos lobbies dos bancos. São os bancos que dominam o governo e não o contrário. O governo não consegue mudar nada. Recentemente tivemos até de ouvir declarações oficiais absurdas de que, aos olhos do governo americano, o banco de investimento Goldman Sachs não fez nada de errado. A ideia de que é preciso controlar os bancos é antiga, ainda que poucos saibam. O presidente Thomas Jefferson [1743-1826] já dizia isso. Franklin Delano Roosevelt [1882-1945] também. Só que ninguém nunca fez nada.

A crise na Grécia, uma das piores de sua história, influenciou o senhor de alguma forma a filmar "Capital"?

Não. Tive a ideia do filme ao ler o livro Le Capital, de Stephane Osmont, publicado em 2004. Há anos eu queria contar uma história sobre a obsessão por dinheiro, escancarando como os acionistas lideram o show. A tragédia que se passa atualmente na Grécia - não vejo melhor forma de definir do que tragédia - é algo anunciado. Por muitos anos nós tivemos governantes muito incompetentes. Agora o caos simplesmente tomou conta de tudo. Criamos um monstro que está nos comendo vivos. Não sei qual seria a solução para a Grécia, mas sei que sofreremos por muitos anos ainda.

O que levou o senhor a dar o Urso de Ouro de Berlim a "Tropa de Elite"?

Foi o melhor filme da seleção daquele ano [2008], com o tema mais forte e importante. Não só para o Brasil, mas para o mundo. Uma das piores coisas que pode acontecer numa democracia é a polícia não trabalhar para proteger as leis, mas querer fazer as leis. A denúncia de José Padilha ficou evidente para mim, ainda que muitos não tenham entendido o filme, chamando-o de fascista [como "Tropa" foi classificado pela revista americana "Variety", na época].

A decisão de premiar "Tropa de Elite" foi unânime?

Não. Além da polêmica do comentário sobre fascismo, vindo de quem certamente não entendeu o filme, alguns membros do júri não gostaram muito da produção, esteticamente. Mas, como presidente, eu me senti no direito de colocar como critério o conteúdo e não a estética. Em toda a minha carreira, sempre acreditei que o papel do cinema é ir além da estética, algo que os críticos tendem a valorizar demais.

O senhor assistiu à continuação, Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro (2010), que aborda a corrupção entre os políticos?

Não. Mas ouvi dizer que complementa o primeiro. Quero ver, mas ainda não tive oportunidade.

Atualmente, Padilha está em Hollywood, rodando Robocop 3. Depois da sua aclamação internacional, o senhor também teve uma fase atuando no cinema americano [quando rodou Atraiçoados, em 1988, e O Quarto Poder, em 1997, entre outros]. Qual o conselho que daria para Padilha?

Espero que Padilha consiga fazer o filme que ele quer e não o que Hollywood certamente quer que ele faça.

O senhor conseguiu?

Só consegui fazer o que queria porque exigi que a pós-produção dos meus filmes fosse realizada em Paris, onde não havia nenhum executivo me perturbando. Tive mais liberdade finalizando os filmes longe de Hollywood.

É verdade que na juventude o senhor queria ser escritor?

Sim. Mas descobri muito rapidamente que eu tinha energia demais para ficar sentado diante da máquina de escrever, trabalhando sozinho. Por isso, preferi os sets de filmagem, onde sempre procurei colaborar com os roteiristas, satisfazendo um pouco o meu lado de escritor ["Capital" foi escrito por Costa-Gavras, em parceria com Jean Claude Grunberg]. Hoje em dia, conforme vou envelhecendo, já começo a repensar tudo... Talvez meu futuro esteja nos livros. Escrever cansa muito menos que filmar (risos).

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