Teólogos se reúnem para refletir sobre as questões morais da Índia

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12 Setembro 2012

Trinta estudiosos indianos e convidados refletiram sobre o estado da teologia moral na Índia em um seminário em julho. O workshop abordou uma série de questões: corrupção, saúde, pobreza, política, diálogo inter-religioso, internet, gênero e sexualidade, e economia.

O relato é do padre jesuíta James F. Keenan, professor fundador do curso de Teologia no Boston College e fundador e copresidente do Catholic Theological Ethics in the World Church, publicada no sítio do jornal National Catholic Reporter, 04-09-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O padre carmelita de Maria Imaculada Shaji George Kochuthara apresentou o workshop, que se intitulou Teologia Moral na Índia de hoje, realizado de 12 a 15 de julho.

Além dos principais moralistas da Índia, outros quatro estudiosos reconhecidos nacionalmente foram convidados: um economista, um líder em saúde pública, um teólogo e um filósofo. Todos tinham o mesmo interesse comum: discutir as preocupações e os desafios morais e éticos enfrentados na Índia hoje.

O padre redentorista Clemente Campos, presidente da Associação de Teólogos Morais da Índia, abriu a conferência convidando os participantes a se perguntarem se o seu trabalho tem assistido suficientemente as necessidades da Índia de todos os dias. Suas palavras ecoaram durante a conferência.

A saúde foi um tema recorrente durante os quatro dias. O padre jesuíta Estanislau Alla apresentou um trabalho sobre a história dos cuidados com a saúde na Índia, começando com as iniciativas de mosteiros budistas 23 séculos atrás e depois com os hindus, muçulmanos e cristãos, integrando os cuidados com a saúde em seus serviços religiosos.

O Dr. Mario Vaz e o padre carmelita de Maria Imaculada Lucose Chamakala, apresentaram os enormes desafios que a saúde indiana enfrenta hoje: uma falta de supervisão ética padrão universal, crescentes filas de médicos à procura de posições mais atrativas economicamente em serviços altamente especializados e a assustadora necessidade da emergente população geriátrica.

Esses trabalhos foram seguidos por um ainda mais grave, sobre feticídio feminino, apresentado pelo padre jesuíta John Karuvelil. Embora os testes pré-natais que determinam o sexo do bebê sejam proibidos na Índia, existem mais de 40 mil clínicas de ultrassom. Estima-se que 557 mil fetos femininos são abortados por ano. Karuvelil explicou que os abortos evidenciam como as mulheres são mal tratadas na Índia, que ocupa o 113º lugar num total de 130 em paridade de gênero, de acordo com o Fórum Econômico Mundial. Depois de observar que a Índia proibiu a prática do dote, com a aprovação de leis em 1961, 1983 e 1985, ele explicou como o dote ainda é uma prática comum, que só agrava o status da mulher.

O trabalho de Karuvelil confirmou as afirmações de um estudo anterior da irmã Vimala Chenginimattam, da Congregação da Mãe do Carmelo. Pedindo uma "Igreja sensível ao gênero", ela falou sobre os desafios que as mulheres enfrentam para trazer essa sensibilidade. Embora observando que algumas "chamadas representantes femininas das paróquias ou dioceses não têm consciência de gênero e são como marionetes nas mãos das autoridades", aquelas que se pronunciam publicamente "são rotuladas como anti-Igreja e frequentemente marginalizadas ou silenciadas". Ela concluiu: "A igualdade de gênero só pode ser alcançada quando os homens pensam que a desigualdade de gênero é a sua crise também".

Outros trabalhos sobre gênero e sexualidade também foram discutidos na conferência. Kochuthara apresentou uma variedade de relatórios sobre a Índia contemporânea, que manifestam "um indiano urbano mais sexualmente carnívoro disposto a quebrar tabus e fronteiras". Um participante contrapôs que isso não era mais do que uma influência dos "valores ocidentais", mas Kochuthara insistiu que não se trata de ocidentais se revoltando contra as normas sexuais, mas sim indianos. Ele concluiu defendendo uma ética sexual para as "experiências reais vividas pelos povos indianos".

Contra as disparidades de riqueza e de classe, os participantes levantaram preocupações pelo bem comum e pela sociedade civil indiana. O secretário do escritório de Justiça, Paz e Desenvolvimento da Conferência dos Bispos Católicos da Índia, padre Charles Irudayam, e padre da diocese de Sivagangai, Tamil Nadu, falaram de forma eloquente sobre como a compreensão católica de justiça fornece uma "visão substancial" do bem que a sociedade necessita para garantir o tipo de igualdade defendida pela constituição indiana.

Sem dúvida, o trabalho mais significativo foi apresentado pelo padre jesuíta George Kodithottam, que propôs um conceito de Gandhi de sociedade civil, que fez campanha para ultrapassar o déficit de representação da democracia indiana. Kodithottam descreveu a sociedade civil como um espaço independente, onde as necessidades, visão e objetivos de um povo são articulados e perseguidos. Ele concluiu: "Uma sociedade civil inclusiva baseada na justiça é necessária para garantir a ética na política".

Em uma validação genuína dessas afirmações, o padre jesuíta John Chathanatt apresentou o livro que ele editou, Silent Waves: The Contribution of the Catholic Church to Nation Building [Ondas Silenciosas: A Contribuição da Igreja Católica para a Construção das Nações] (Claretian Publications, 2012). Ele explicou que a Conferência dos Bispos Indianos solicitou que a Cáritas Índia fizesse esse estudo dos serviços institucionais católicos no país.

Os 17 milhões de católicos indianos constituem menos de 1,5% da população da Índia de mais de 1,2 bilhão de pessoas. Mas o Silent Waves demonstra que a saúde católica, com mais de 5.500 unidades, muitas em áreas rurais, claramente desbanca quaisquer outros serviços de saúde religiosos. O trabalho das mulheres religiosas, que contam com mais de 600 médicas entre suas irmãs, destaca-se ao longo do estudo. Ao colaborar com o governo, as suas instalações conseguiram erradicar a malária em sete estados e tuberculose em 18 estados.

Sobre a educação, o relatório mostrou que as escolas católicas educam mais meninas do que meninos; que um em cada cinco estudantes é de tribos étnicas ou dalits, antigamente conhecidos como "intocáveis"; que, ao contrário de hospitais, apenas 10% das escolas são financiadas pelo Estado; e que metade de todas as escolas católicas estão em áreas rurais.

Além de tratar de ética aplicada, social, médica e sexual, os participantes também apresentaram trabalhos que falaram sobre os conceitos básicos de ética. Houve um trabalho muito bom sobre imaginação e ética, de Mathew Illathuparampil, professor do Seminário Pontifício São José, em Kerala, e a irmã Kochuthresia Puliappallil, das irmãs do Espírito Santo, falou sobre ética das virtudes e dos seus recursos para a vida litúrgica da Igreja.

O padre Scaria Kanniyakonil, secretário da Associação de Teólogos Morais da Índia, proferiu uma esperançosa palavra final. Ele destacou como a virtude ética gerou uma maior consciência na Índia para responder aos desafios sociais e como essas discussões levaram à articulação de leis mais executórias e promotoras do bem comum.

O seminário foi realizado em Dharmaram Vidya Kshetram, o Ateneu Pontifício de Filosofia, Teologia e Direito Canônico, onde cerca de 750 estudantes fazem sua graduação. A escola é gerida pelos carmelitas de Maria Imaculada, que fazem parte do rito siro-malabar. No campus de Bangalore estão mais de 300 membros da ordem, que também compõem a equipe da Universidade Cristã de Bangalore, com seus 13 mil alunos.

Anfitrião da conferência, Kochuthara tornou-se um importante ator da teologia contemporânea indiana. Membro do comitê regional asiático do Catholic Theological Ethics in the World Church, ele é o editor da revista trimestral Asian Horizons.

Dharmaram irá sediar uma conferência internacional em janeiro, comemorando o 50º aniversário do Concílio Vaticano II.

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