Um Concílio para uma Igreja colegial: a profecia de Martini

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08 Setembro 2012

Martini esperava por um concílio visto com aquela confiança típica do cristianismo que confia os problemas urgentes à disciplina, os normais à misericórdia, e os imensos à comunhão.

A opinião é do historiador da Igreja italiano Alberto Melloni, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 02-09-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

"Quando eras jovem, tu te cingias": sabe-se lá quantas vezes Martini releu esses versículos no fim do Evangelho de João, nos quais Jesus desenha a cada discípulo a fraqueza como via da fecundidade espiritual. Que é plena só quando "um Outro te conduzirá aonde não queres".

Sabe-se lá quantas vezes a Igreja voltará a refletir sobre o estilo-Martini, tão embebido daquela força bíblica que é a escuta, com a qual Martini se deixou acompanhar em uma rarefação da presença, que até sexta-feira de tarde foi eloquente, cada vez mais eloquente. Para todos, certamente: mas sobretudo na Igreja.

Martini, de fato, deslocou um dos mais duros e resistentes lugares comuns do e sobre o catolicismo, especialmente na Itália: isto é, a ideia de que um católico, especialmente se jesuíta e bispo, deve ser e não pode deixar de ser arrogante, fechado, mordaz, desdenhoso, impiedoso com os outros, autoindulgente consigo mesmo.

Muitos não crentes acreditam que, salvo raras exceções, ser católico é ser assim; alguns católicos, no entanto, veem aquelas como as virtudes do perfeito intransigente e se enraivecem – Martini também foi um alvo de ataques catolicíssimos por causa disso – com quem é diferente. Martini, o estilo-Martini foi para todos esses um problema, um espinho, uma oportunidade de repensamento.

Ele foi isso como arcebispo de Milão: "o antipapa", dizia a cançãozinha dos tradicionalistas, que, ao invés de ler a tradição como um único e imenso rio de diversidade que começa dentro do Novo Testamento, acreditam que ela é o seu álbum de nostalgias e saudades pessoais. Martini sabia disso. Ele também se deixava chamar de "progressista", pequeno cilício de tantos reformadores: mas também sabia que essa condição, não incomum para o cardeal de Milão, devia ser reportada para dentro daquilo que a doença já havia emudecido, mas não apagado. E do qual hoje todos – do papa ao cristão comum – sentem a ausência, temem a ausência.

Em dois momentos da sua longa vida, o estilo-Martini, marcado por uma escuta assídua da palavra, marcou não só a sua vida de esposo da Igreja de Milão, mas também a da Igreja universal. O de maior clamor foi o conclave de 18 e 19 de abril de 2005.

Martini, no dia seguinte à morte do papa polonês, quando já estava doente da mesma doença, parecia o perfeito candidato de bandeira, útil para tornar visível aquela parte do colégio que considerava escorregadia para a Igreja uma agenda curta, feita de luta contra o relativismo e de concessões aos lefebvrianos. Ele rejeitou obviamente o papel de "fantoche": mas foi um protagonista do conclave. Nas primeiras três votações, enquanto a candidatura de Ratzinger manifestava a sua consistência, o cardeal argentino Bergoglio, jesuíta, viu subir os seus próprios votos, até ultrapassar na terça-feira ao meio-dia a cota de dois terços. Isto é, aquele limite que de norma esbarra a via para um candidato e obriga a maioria a mudar de nome.

Mas, nesse ponto, na pausa do almoço, foi Martini quem trouxe os votos com os quais, no primeiro escrutínio do dia 19 à tarde, Ratzinger superou o quórum e se tornou papa. Na nunca escondida diferença de posições, Martini fez valer a estima intelectual, esperou as "belas surpresas" (como disse em uma entrevista) que não vieram e esbarrou a via às medíocres soluções que ele via se perfilar por trás da desistência de Ratzinger. Uma escolha que decidiu o selo de um catolicismo que, talvez, deve voltar a refletir sobre as expectativas de Martini e sobre o seu estilo.

Mas não foi de menor importância, e será ainda mais em um futuro próximo, o discurso que Martini pronunciou no dia 7 de outubro de 1999, diante do sínodo de bispos: então, ele expressou o "sonho" de um concílio e de uma forma de expressão conciliar da colegialidade na Igreja Católica. Com relação às prerrogativas do pontífice, usou paráfrases: pediu um "debate colegial e de autoridade entre todos os bispos sobre alguns dos temas nodais".

Mas era evidente que o "sonho" era um pulo para a frente, rumo a uma colegialidade franca e rumo a um concílio que não era o Vaticano III de quem queria demolir o Vaticano II: mas sim um concílio visto com aquela confiança (no sentido de pistís) típica do cristianismo que confia os problemas urgentes à disciplina, os normais à misericórdia, e os imensos à comunhão.

O tempo permitiu que Martini visse o valor da sua posição no conclave. Não a aurora da colegialidade que o catolicismo espera pacientemente há quase meio século. E nem de um concílio ao qual se possa confiar a agenda cada vez mais desgastada da Igreja: mas quando o concílio vier, se falará dele como o seu profeta.

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