Igreja Mundial negocia apoio a Russomanno

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06 Setembro 2012

Filiado ao PRB, partido cujas ligações com a Igreja Universal do Reino de Deus são notórias - o que inclusive o faz ser questionado frequentemente sobre a influência que a denominação neopentecostal terá em um eventual governo seu -, o líder nas pesquisas de intenção de voto à Prefeitura de São Paulo, Celso Russomanno, verá nos próximos dias um aliado de longa data desembarcar na cidade. Pelas mãos do pastor Ronaldo Didini, Russomanno poderá angariar o apoio de outro gigante do ramo evangélico, a rival Igreja Mundial do Poder de Deus, capitaneada pelo apóstolo Valdemiro Santiago.

A reportagem é de Vandson Lima e publicada pelo jornal Valor, 06-09-2012.

"O segmento evangélico em São Paulo tem hoje uma bandeira forte que é a isenção de alvará para funcionamento de templos. Conheço Russomanno e Luiz D'Urso [vice da chapa e filiado ao PTB] há anos e sei que são sensíveis à questão", conta Didini, responsável pela gestão internacional de mídia da igreja.

Didini recebeu a reportagem do Valor em seu escritório, em São Paulo, no dia 21 de agosto, data em que Russomanno aparecia pela primeira vez na dianteira de pesquisa do Datafolha. O pastor acabara de chegar de viagem internacional e já se preparava para outra missão, rumo à África - os cultos da Mundial são transmitidos em 42 países da África subsaariana. Ele desembarca na capital paulista na segunda-feira. "Não tenho ingerência nas decisões políticas da Mundial, mas sou amigo do apóstolo Valdemiro e obviamente tentarei aproximá-lo do Russomanno assim que chegar no Brasil", avisa.

A questão do alvará é central para a Igreja Mundial, que só em 2012 teve mais de 80 templos fechados em São Paulo. "Concessão de alvará para igreja no Brasil é instrumento de corrupção e de manipulação política. É sempre usado como instrumento de barganha em época de eleição", diz. Didini argumenta que, no Rio de Janeiro, as igrejas não precisam de alvará para funcionar. Bastam os laudos do Corpo de Bombeiros e do Conselho Regional de Engenharia atestarem que o local é seguro para a realização de eventos. "É diferente de um comércio, onde você está para gerar lucro. As igrejas têm um papel social extremamente relevante. Não se pode pedir alvará de um templo como se pede de um shopping", argumenta.

Há uma semana, a Câmara Municipal paulistana aprovou em primeiro turno projeto do prefeito Gilberto Kassab (PSD) que extingue uma rua engolida pela construção de um templo da Igreja Mundial. A aprovação do projeto, cuja votação definitiva está marcada para a próxima semana, é vista por vereadores que compõem a aliança de José Serra (PSDB) como o argumento definitivo para convencer o apóstolo Valdemiro a anunciar apoio à candidatura do tucano a prefeito. Didini, abertamente contrário a uma aliança com Kassab ou Serra, questiona. "Por que somente agora, época de eleição, há este 'comprometimento' da prefeitura, se tal reivindicação existe há três anos e a igreja cumpriu todos os trâmites legais para a realização das obras no imóvel?"

O tema é tratado com cuidado pelas candidaturas, temerosas em se comprometer. Questionados por meio de suas assessorias durante uma semana, Russomanno preferiu não se manifestar a respeito; Gabriel Chalita (PMDB) sequer respondeu; Fernando Haddad (PT) afirmou vagamente que se eleito "vai trabalhar contra a perseguição e a favor da ajuda para a regularização da situação sempre que for possível". Serra ofereceu uma resposta teórica e sem relação com a pergunta. "A atividade política serve para melhorar a vida de todas as pessoas, independentemente da religião que cada um professa ou deixa de professar".

Para Didini os governos que melhor souberam lidar com a comunidade evangélica foram os de Marta Suplicy (PT) e Paulo Maluf (PP). Sua antipatia por Serra data de 1994, quando ainda era pastor da Igreja Universal. "Apoiávamos Fernando Henrique Cardoso [PSDB] para presidente e Romeu Tuma [então no PL] para senador. FHC foi à minha casa pedir para ajudarmos o Serra [que concorria ao Senado]. Apoiamos, ele foi eleito e esqueceu-se de nós. Você não vê a mão do Serra em um projeto que defenda o segmento evangélico".

A dificuldade de trânsito junto ao poder faz a Mundial, fundada há 14 anos, seguir o mesmo caminho de outras denominações e buscar representação parlamentar. Em São Paulo, é o próprio apóstolo Valdemiro quem tem ido à TV pedir votos para o pastor Edmilson Chaves (PP), em quem a Igreja aposta suas fichas na eleição para vereador na cidade. "A Mundial quer ter seus representantes sim, em todas as esferas. Valdemiro cuida disso pessoalmente. Vamos lançar mais candidatos a deputado em 2014. Teremos êxito, pois estamos fazendo um bom trabalho para os vereadores". Hoje, apenas o deputado José Olímpio (PP-SP) representa a Mundial na Câmara dos Deputados. A Assembleia de Deus, por exemplo, tem 22 parlamentares.

Didini diz que a igreja não entra com recursos na campanha. "A eleição para alguém de igreja é bem mais barata, porque você já tem o seu eleitor ali do lado. Só precisa divulgar a candidatura e arrumar um dinheirinho para se locomover. A igreja é uma comunidade, e como tal, se ajuda. Sempre tem aquele fiel que é dono de uma padaria, tem uma condição melhor, vai lá e faz 10 mil santinhos para o candidato", conta.

No entanto, a cobrança por resultados é certa. "Jesus falou que 'as ovelhas ouvem a voz do seu pastor'. O pastor militante conhece o estado de suas ovelhas. Quando você dá seu testemunho favorável ao candidato, as pessoas seguem". E se o resultado não vier? "A igreja, junto com o candidato, faz essa avaliação ao final da campanha. O candidato vai saber onde foi pouco votado e vai procurar a liderança de lá. Quando isso acontece, geralmente, é porque houve pouco empenho do líder. O pastor que veste a camisa faz explodir de votos", garante.