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Por: Jonas | 06 Setembro 2012

“Os relatórios de agências e organismos internacionais apenas nos revelam os riscos iminentes e os limites que cruzam a civilização capitalista, sem reparar nas implicações que isto tem para a vida humana”. Essa é a opinião de Andrés Mora Ramírez, da Associação pela Unidade de Nossa América (AUNA), em artigo publicado no sítio Rebelión, 05-09-2012. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Um recente relatório apresentado pelo Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat) caracteriza a América Latina como a região mais urbanizada do mundo e, ao mesmo tempo, a mais desigual. Com quase 80% de sua população (cerca de 468 milhões de pessoas) vivendo em áreas urbanas, esta expansão – por suas dimensões e intensidade nas últimas décadas – tem consequências diretas na formação de bairros marginais e cinturões de miséria na periferia das grandes metrópoles. Isso traz um aumento da pobreza e desigualdade, violência e insegurança; e evidentemente, impacta o meio ambiente pela colonização de espaços para moradias (inclusive, em áreas de risco) e empreendimentos imobiliários, além de maior demanda por meios de transporte, com sua consequente contaminação. Em 2008, calculava-se que 20% da população latino-americana adulta possuía um veículo motorizado (BBC Mundo, 22-08-2012).

Este panorama descrito pela ONU-Habitat possui estreita relação com os resultados do relatório GEO-ALC 3 (2010), do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, que adverte sobre as pressões que exercem as modalidades de desenvolvimento predominantes (que em geral, salvo exceções, definem-se por sua vocação extrativista, de venda de serviços, no marco de um capitalismo periférico e tardio) sobre o meio natural e social latino-americano.

Tal relatório constata que com o aumento de 51% da população regional, nos últimos 40 anos, “a cobertura de serviços de infraestrutura básica não alcança o total da população, existindo importantes assimetrias entre e dentro dos países”. Nesse cenário, por exemplo, a demanda por água aumentou em 76%, em 15 anos, “como resultado do crescimento demográfico (em especial o urbano), a expansão da atividade industrial e a elevada demanda por irrigação, fatores que incidem na diminuição da qualidade do recurso hídrico, causada pela contaminação e baixa porcentagem de tratamento que as geradas águas residuais recebem”.

Além disso, em 35 anos, a demanda por energia elétrica se quadruplicou, passando de 427 para 1688 quilowatts hora por habitante. Desta energia produzida pela região, para abastecer os crescentes níveis de consumo, 53% provém de projetos hidrelétricos, o que confirma o caráter vital e estratégico da água – e seu eventual esgotamento – para pensar o futuro da América Latina.

Estas problemáticas não são exclusivas das grandes cidades, pelo contrário, manifestam-se com sinais alarmantes, inclusive, em países pequenos e com menores níveis de industrialização e urbanização, como Costa Rica. Aqui, o estatal Instituto Costarriquense de Água e Esgoto (AyA) anunciou, na semana anterior, sua preocupação, pois em razão do desenvolvimento imobiliário nos cerros do oeste da capital São José (uma área exclusiva de negócios e moradia para setores de altos rendimentos econômicos), e do polo turístico de Guanacaste, na costa do Pacífico, a demanda de água já superou a capacidade de oferta pelo Aya. Este é um fato que esta área enfrenta, em específico, e o país, em geral, por problemas de abastecimento de água potável, rejeição nas solicitações de ligação de serviços e busca de novas fontes de recursos hídricos (La Prensa Libre, 23-08-2012).

Talvez sem querer, o anúncio do Aya questiona o modelo de desenvolvimento costarriquense, que na última década encontrou seu eixo mais dinâmico no “boom” imobiliário e no turismo, porém com consequências e contradições que apenas recentemente começaram a se tornar visíveis para a opinião pública. Ainda estão na lembrança as mobilizações dos anos 2007 e 2008, em Sardinal, na província de Guanacaste, quando os habitantes foram para as ruas protestar contra a construção de um aqueduto privado, que tinha por objetivo irrigar os campos de golfe de um complexo hoteleiro de luxo, que colocava em risco o fornecimento de água para a comunidade. Os manifestantes ganharam a disputa nos Tribunais de Justiça, mas a ideia dominante de desenvolvimento – que sustentava ideologicamente o projeto e o modelo de megaconstruções – não mudou nenhum pouco.

Como pode ser visto então, não se trata somente de um assunto de economia, de planejamento urbano ou de ecologia. No fundo, o fenômeno da urbanização da América Latina e os altos níveis de consumo dos recursos naturais para abastecer as demandas das cidades e do “desenvolvimento”, expressam toda uma visão cultural: a da cidade como depositária dos saberes e práticas legítimas; como aspiração ou ideal de progresso que os povos e repúblicas “atrasadas” deviam alcançar. Estes que segundo os iluministas da época, no século XIX, chegavam tarde à carreira frenética da modernização. O que em definitivo fez do dilema entre civilização ou barbárie o paradigma das relações entre sociedade e natureza, durante dois séculos de vida independente. Uma tese que José Martí rejeitou com absoluta clareza, quando disse, em seu ensaio “Nossa América” (1891), que na realidade “não há duelo entre civilização e barbárie, mas entre a falsa erudição e a natureza”.

Hoje, no entanto, as noções dominantes de progresso e desenvolvimento, que condicionam nossas relações com o meio natural, encontram-se numa profunda crise. Os relatórios de agências e organismos internacionais apenas nos revelam os riscos iminentes e os limites que cruzam a civilização capitalista, sem reparar nas implicações que isto tem para a vida humana.

Pensando na Cidade do México, sua cidade imensa, essa “acumulação de almas, de recursos naturais, corpos à deriva, edificações, instituições, ruas sobrepovoadas”, Carlos Monsiváis, em seu livro “Apocalipstick” (2009), questionou-se: “A metrópole conseguirá olhar-se num espelho?”

Com o mestre mexicano, nós também poderíamos nos perguntar se algum dia seremos capazes de olhar no espelho, e em seu reflexo descobrir o rosto disforme, desigual e contraditório do desenvolvimento anormal que nos consome.