O abraço de Milão em Martini

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03 Setembro 2012

O casal gay, o imigrante, a irmã: 60 mil pessoas na catedral para a despedida.

A reportagem é de Paolo Berizzi, publicada no jornal La Repubblica, 02-09-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

É aqui a Terra Santa de Carlo Maria Martini, é esta praça cercada que se contrai aos soluços, que aspira a pessoas de todas as idades e origens, dezenas de milhares de pessoas: um fluxo humano jamais rompido, até tarde da noite. Um sinal. Um dos tantos a serem captados dentro da longa jornada de memória coletiva.

Fabio e Vincenzo são um casal de Brindisi. Camisetas sem logotipo, comoção. Dizem que "se a Igreja está dois séculos atrás, Martini estava 300 anos à frente". Eles o chamam, com um pouco de ênfase, de "o herói revolucionário", mas, "acima de tudo, era um verdadeiro homem de Deus. Porque um arcebispo que não demoniza o preservativo, que aceita o amor homossexual, faz o que todo bom pastor deveria fazer. Unir, irmanar, derrubar o muro dos preconceitos e das hipocrisias".

O olhar de Fabio e de Vincenzo não se afasta um momento do caixão. Entram na catedral quatro vezes, o que significa quatro filas de meia hora. Quatro momentos de recolhimento lá na frente, sob a nave central onde ele está. Estendido parece ainda mais alto. A veste branca, o nariz adunco e afiado, o báculo apoiado ao longo do lado esquerdo. Parecem dois juncos, impossíveis de quebrar. Até o Parkinson, de fato, teve que se empenhar.

Quantas pessoas queriam bem ao cardeal Martini. Quanto o admiravam. E quanto têm a lhe restituir agora que estão aqui para saudá-lo na "sua" catedral, para lhe oferecer de presente o coração de Milão para tornar-lhe mais leve a passagem. Fazem-no entrar na catedral em grupos de 30, 20, 10 de cada vez. Fotografam-no com os celulares, a fila cheia e ordenada que se alonga para além do centro da praça, atrás do monumento equestre de Vittorio Emanuele II.

Cada um desenha com os pensamentos a própria recordação. O "link" pessoal com o cardeal que sabia falar para todos. Evelyn Endaia, doméstica filipina, 45 anos, está há 10 anos em Milão. "Foi um grande, uma pessoa extraordinária que todo o mundo deveria agradecer". Ela se lembra bem de Martini em 2002. Para ele, era o último ano de episcopado, para ela, o primeiro de trabalho em um apartamento de Corso Magenta, a dois passos daqui. "Eu recém havia me mudado de Roma. Martini me chamou a atenção imediatamente, tinha a paz nos olhos. A sua bravura foi a de construir pontes entre as religiões, entre os crentes e não crentes. E depois ele se preocupava com os países pobres. Dizia que se Deus nos fez todos iguais na Terra, então é preciso equilíbrio entre as nações ricas e as menos afortunadas".

Ao ex-arcebispo de Milão, teria agradado muito essa peregrinação ao seu funeral. É um rito doce, profundo. Participado por uma multidão de fiéis e não fiéis. Às dez horas da noite, os dados oficiais da diocese falavam de 60 mil visitantes. Todos muito fidelizados. Martinianos na alma, no coração, ou simplesmente no pensamento.

Quando chega o caixão, é meio-dia, Elena já está na praça que espera. Três horas mais tarde, está sob o altar principal para rezar por "Carlo Maria". Ela o olha e chora, segurando a irmã menor pelo braço. Chama-o pelo nome, Martini. Ela conta: "Em 1990, eu tinha 18 anos, participei do Grupo Samuele (um caminho de discernimento vocacional promovido pela Pastoral da Juventude da Diocese de Milão). Esse caminho havia sido uma ideia sua, uma das muitas intuições brilhantes. Para mim, o papa sempre foi ele. O ponto é que, na prática, ele nunca se tornaria papa: dava incomodações demais, era incômodo. À frente demais para a Igreja de hoje, moderno demais e justo demais. Autônomo demais quando se tratava de dizer o que ele pensava sobre certos temas".

Talvez Elena tenha razão. Porque, além de como foi o Conclave de 2005, sem falar da dignidade de Martini quando renunciou à candidatura para o pontificado por estar curvado pelas condições de saúde, o homem que sabia falar com os ateus é saudado como um papa. "Ele nos deixou sozinhos – afirma Vittorio Mafioletti, na fila com a mulher catequista e dois filhos em um carrinho de criança –, um homem assim, com uma personalidade assim, a Igreja dá a luz a cada mil anos. Ele me agradou, o próximo eu acho que não".

Às 16h45, chega Bersani. Ele entra na catedral pela entrada lateral. Um quarto de hora de recolhimento diante do corpo, uma saudação ao padre Virginio Colmegna, da Casa da Caridade. "O que Martini deixa? Uma mensagem de cultura, de abertura, sério, civil entre posições diversas até para quem não é crente".

Antes dele, havia passado a ministra do Interior, Annamaria Cancellieri. Neste domingo, às 17h, Mario Monti prestou homenagem ao cardeal "que deixou um vazio que não pode ser preenchido". A ministra pede para ficar sozinha: sinal da cruz, uma lágrima de comoção. O cardeal está exposto na frente do altar.

Quatro coroas de rosas brancas, um púlpito revestido de veludo bordô, uma vela branca. Ele será sepultado – explica Dom Luigi Manganini, arcipreste da catedral – sob o crucifixo de São Carlos Borromeu. "Posso tirar uma foto com o meu celular?". Graziella, peruana, é enfermeira no Niguarda. "Eu vejo pacientes morrerem todos os dias entre sofrimentos atrozes. As palavras de Martini sobre a morte doce e o modo que ele mesmo escolheu ir embora são um exemplo que todos deveriam seguir".

O agente faz vista grossa. O celular faz clique. Fotografa-se também durante o terço: o serviço de segurança está atento, mas é conciliador. Há senhoras idosas que demoram na frente do corpo. Tina De Tullio veio especialmente de Pescara. Ela reza, depois levanta a cabeça: "Parece que dorme...".

Todos os bancos da catedral estão ocupados. Nas oito fileiras laterais, à esquerda e à direita do corpo, sentam-se a irmã de Martini, Maris, com os dois filhos, Giulia e Giovanni, e os coirmãos mais próximos. Na vigília estão as irmãs salesianas, as do Beato Angelico, as auxiliares diocesanas, as marcelinas. É noite. As pessoas continuam entrando na igreja e fazendo fila lá fora, na Terra Santa do cardeal.

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