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30 Agosto 2012

Cidade plana e de distâncias curtas, Santos conseguiu montar uma significativa rede de ciclovias porque praticamente todos os prefeitos deram continuidade ao projeto inicial, da década de 1980. Hoje, a bicicleta é usada em 8,1% dos deslocamentos no município. Mas se de um lado, a experiência santista mostra que o transporte em veículo não motorizado pode ser uma boa opção nas cidades, por outro, revela os problemas que surgem quando a demanda começa a crescer.

A reportagem é de Fernanda Pires, publicada pelo jornal Valor, 29-08-2012.

A oferta atual, de 31 quilômetros de extensão, está sendo ampliada em 15%. Mas faltam bicicletários e integração com outros meios de transporte e conscientização da iniciativa privada.

Segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de Santos, 62% dos usuários pedalam diariamente para chegar ao trabalho. Outros 33% são estudantes no trajeto para as aulas e apenas 5% usam a bicicleta para lazer.

Para os usuários, a configuração de algumas ciclovias é equivocada. "A impressão é a de que quem faz o projeto não usa a ciclovia", diz Rafael Rizzato. Para ele, a ciclovia santista é estreita e requer que se circule "em fila indiana". "Já presenciei diversos acidentes na saída do trecho da avenida Ana Costa para a da praia", afirma Rizzato.

Adepta do transporte sustentável, a fisioterapeuta Roberta Amaral Henriques comprou uma bicicleta elétrica com o objetivo de usar nas ciclovias. Mas quase nunca conseguiu circular. "Os próprios ciclistas reclamavam, falavam para eu sair dali com o argumento de que a elétrica é muito rápida. Mas eles próprios pedalavam até mais rápido", diz. Com um vácuo jurídico, a Prefeitura proibiu a circulação dos modelos com propulsão elétrica que se assemelham a motos.

Quem fiscaliza o tráfego nas pistas para ciclistas é a CET e a guarda municipal. "Não temos sentido dificuldade. A lei municipal prevê apreensão e depois pagamento de taxa para retirar", diz o prefeito João Paulo Papa (PMDB). Segundo a CET, 1.670 tiveram seus veículos apreendidos por desrespeitar as principais regras de trânsito, desde 2007. O número é resultado de ações em parceria com a guarda municipal e Polícia Militar. Para reaver o veículo, o ciclista tem duas opções: paga taxa de R$ 25 ou participa de curso gratuito, de duas horas, na CET. Nos últimos cinco anos, 69% optaram por pagar e 31% pelo curso gratuito.

Apesar da adesão local ao transporte em duas rodas, Santos tem uma das maiores frotas de automóveis do país, proporcionalmente ao tamanho da população, com 1,4 habitante por veículo, segundo o levantamento mais recente do Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran), referente a julho. Há um ano, a relação era de 1,6.

"A bicicleta não substituirá o carro, mas é um dos modais complementares com excelente potencial excelente para Santos", afirma o professor na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), João Meyer, que já morou no município. Considerada "capital" da Baixada, Santos atrai uma parcela flutuante de mão de obra das cidades vizinhas. Além dos 287 mil veículos registrados na cidade, estima-se um movimento adicional diário de 130 mil carros dos municípios vizinhos, calcula Meyer.

Papa diz que já foi procurado por empresas privadas interessadas em investir em modelos semelhantes aos que existem no exterior. "Estamos perseguindo o sistema de aluguel de bicicletas públicas", afirma. Ele concorda que a política de incentivo ao uso da bicicleta vai muito além da construção de ciclovias. "Além de ser uma questão cultura, também o empresário tem de oferecer espaço para o trabalhador ter um lugar seguro para guardar a bicicleta. Outra coisa é um vestiário, porque quem usa bicicleta vai precisar eventualmente tomar um banho", destaca.

Pesquisa feita em 2011 pela Associação Brasileira de Ciclistas, a frota da Baixada Santista (são nove cidades) é de 1 milhão de bicicletas. Somente a de Santos fica entre 250 mil e 300 mil, segundo Jesse Felix, presidente da associação. "Diariamente outras 100 mil bicicletas entram em Santos, sendo 60 mil de São Vicente, Mongaguá e Praia Grande, e 40 mil do Guarujá", completa.

O trajeto cicloviário santista é exemplo de obra que seguiu ao longo das administrações municipais. Os investimentos começaram na década de 1980, quando o então prefeito Paulo Gomes Barbosa fez o primeiro trecho na entrada da cidade, depois desativado. A investida seguinte coube ao governo Telma de Souza (PT), que no início dos anos 1990 construiu uma ciclovia na avenida que margeia o porto de Santos para atender, sobretudo, o trabalhador portuário. Esse trecho é muito usado, pois chega nas proximidades da balsa que faz a travessia Santos-Guarujá.

Em 2003, durante a gestão Beto Mansur (PP), começou a ser construído o trecho da orla da praia, que se tornou um cartão postal ao servir também como atrativo turístico. A partir daí a cidade definitivamente apostou no modal. Hoje, a da praia é a maior, com 7,8 km.

Levantamento origem-destino da Secretaria dos Transportes Metropolitanos do Estado, de 2007 (a pesquisa é feita a cada dez anos), mostra que os deslocamentos por bicicleta em Santos respondem por 49,4 mil viagens/dia, o equivalente a 8,1% do total. Se considerada toda a região da Baixada Santista o percentual sobe para 15%. A mesma pesquisa mostra que em toda a região metropolitana paulista a bicicleta é o meio de deslocamento de 0,7% dos moradores.

Os candidatos a prefeito de Santos abraçam a causa. Paulo Alexandre Barbosa (PSDB) propõe a ampliação da rede cicloviária, a instalação de 500 bicicletários em diversos pontos do município e a criação de um serviço de aluguel, além de campanhas educativas nas escolas para o uso correto da bicicleta.

Para Telma de Souza e Beto Mansur, que tentam voltar à prefeitura, falta complementar a malha cicloviária. Telma defende ênfase na zona noroeste de Santos, com acessos ao corredor rodoviário. Ela também promete criar inúmeros bicicletários públicos. Sérgio Aquino (PMDB), candidato da situação, defende a interligação dos trechos ainda não integrados e parceria entre com o setor privado. Para ele, é preciso integrar o sistema cicloviário com outros de mobilidade urbana, com áreas para estacionar esses veículos. Ele cita o projeto do Veículo Leve sobre Trilho (VLT) e o transporte hidroviário.

Fábio Nunes (PSB) sugere a obrigatoriedade de os estacionamentos privados receberem esses veículos de duas rodas e o incentivo na instalação de duchas nos locais de trabalho. O candidato do PSB também defende o chamado "bike-share" - compartilhamento de bicicletas públicas com custo subsidiado.

Mas, enquanto a regulamentação não vem a fisioterapeuta Roberta Amaral Henriques trafega fora da ciclovias, nas ruas. Antevendo que as bicicletas elétricas devem logo mais ser enquadradas no Código de Trânsito Brasileiro, ela já fez o curso para conseguir a habilitação de motociclista. E passou.