17 Agosto 2012
A alta hierarquia vaticana e os advogados dos acusados (dois) levantam a voz para dizer que não existe Vatileaks, que o escândalo deve ser redimensionado. Eles destacam, minimizando, que os únicos sobre os quais se está instruindo um processo no Tribunal de Estado da Cidade do Vaticano são o ajudante do quarto do papa, Paolo Gabriele, 46 anos, e o funcionário de informática da Secretaria de Estado, Claudio Sciarpelletti , 48 anos. Gabriele, terminal vaticano do vazamento de notícias, está sob prisão domiciliar há dois meses e meio por roubo agravado depois que, em sua casa, foi encontrado "uma remanescência" de documentos confidenciais, um cheque de 100 mil euros nominal a "Santidad Benedicto XVI", uma pepita de ouro, uma preciosa edição da Eneida, traduzida por Annibal Caro, e depois que ele confessou ter sido o instigador do livro Sua santità, de Gianluigi Nuzzi. Sciarpelletti é acusado apenas de favorecimento.
A reportagem é de Corrado Zunino, publicada no jornal La Repubblica, 15-08-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Portanto, há dois supostos culpados. Chega de especulações. Ao menos oficialmente. Mas é o próprio juiz instrutor Piero Antonio Bonnet que escreveu ao longo das 19 páginas que ilustram o envio a julgamento: "As investigações devem seguir em frente". A investigação está encerrada "apenas parcialmente", porque "ainda não trouxe plena luz sobre todos os fatos articulados e intrincados".
Assim, nessas páginas, as contradições de 75 dias de investigação não se apagam, ao contrário, se exaltam. A partir das três declarações diferentes do técnico em informática Sciarpelletti, que antes diz conhecer Gabriele superficialmente e, no fim, revela ter tirado férias com ele e a família.
Nos interrogatórios de Sciarpelletti – preso no dia 25 de maio e liberado no dia 26 –, assomam-se os três primeiros nomes (obscurecidos por enquanto com as letras X., Y. e W.) de pessoas que haviam deixado ao funcionário da Secretaria de Estado alguns documentos a serem entregues justamente ao camareiro do papa.
"Lembro que eu recebi um envelope com selos especial de W. para entregá-lo a Gabriele...", revelou Sciarpelletti. "Paolo Gabriele me pediu para encontrar W. e, através dele, conhecer Y.", acrescentou. Mais uma vez: "Lembro apenas de ter recebido um envelope semelhante do qual ignoro o conteúdo por parte de X. em dezembro de 2011 ou janeiro de 2012".
Sciarpelletti teria esquecido o primeiro envelope na gaveta durante dois anos; o segundo ele teria entregado. A quem? "Por causa do meu trabalho, às vezes eu tenho que levar a correspondência para o ajudante de quarto e para o secretário do Santo Padre". O técnico em informática teria entregue documentos que entraram na investigação (e, portanto, considerados ilegalmente roubados) também ao padre Georg Gänswein, figura central dentro do Vaticano, considerado por muitos como a antítese do secretário de Estado, Tarcisio Bertone.
É provável, de acordo com o que se lê nas cartas oficiais, que as investigações do procurador vaticano prossigam também com relação ao padre Georg. Quem eram, enfim, X., Y. e W., aqueles que pediram a Sciarpelletti que entregasse envelopes confidenciais ao camareiro infiel? Pessoas com livre acesso à Secretaria de Estado e ao secretário pessoal de Ratzinger.
Na investigação vaticana, há 25 nomes ocultos, marcados por siglas de A. a Y., e só 13 destes são testemunhas. Para outros 12, é lícito pensar que as investigações estão em aberto. Entre os "nomes em sigla" está "B.", a princípio identificado com o reitor da Igreja do Santo Espírito, em Sassia, monsenhor Josep Bart, polonês.
Bart defendeu o homem que ele transformou de faxineiro a camareiro do papa – Paolo Gabriele justamente –, mas agora nega que ele seja o "B." indicado na investigação e nega que ele seja o pai espiritual de Gabriele, ou que destruiu o documentos secretos que ele lhe entregou em uma cópia.
O senhor "E." – descobre-se nas cartas – entregou material diretamente ao jornalista Nuzzi. Por que, então, ele não foi investigado? E isso apesar de ter sido revistado?
Sim, as cartas com as quais o Vaticano enviou Paolo Gabriele e Claudio Sciarpelletti a julgamento parecem apenas o início de uma longa história processual. O promotor de justiça já pensa em crimes bem mais graves do que o furto e o favorecimento: crimes contra o Estado e contra os seus poderes, vilipêndio das instituições, participação de mais pessoas no crime. O processo será público, será realizado no palácio do Tribunal, no Vaticano, depois do dia 20 de setembro até novembro.
O infiel Gabriele, destruído no plano pessoal pelas perícias psiquiátricas ("afetado por ideação paranoica com fundo de perseguição"), suspenso do serviço, mas não do salário, corre o risco de pegar de um a seis anos de prisão. O programador da Secretaria de Estado corre pouco risco e poderia recuperar seu posto de trabalho (ele continua recebendo o salário).