Ex-presidentes de conferência de religiosas dos EUA refletem sobre seu futuro

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09 Agosto 2012

Enquanto as representantes das irmãs católicas de todos os Estados Unidos se reuniram nessa terça-feira para um encontro que deverá formular uma resposta formal à dura crítica do Vaticano, as atuais e ex-presidentes da Leadership Conference of Women Religious (LCWR) se reuniram em uma sessão a portas fechadas para compartilhar experiências e estabelecer uma base para essa resposta.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada no sítio do jornal National Catholic Reporter, 07-08-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O encontro, que contou com a presença de cerca de 20 mulheres e durou pouco mais de duas horas, foi repleto de grande energia e sentimentos de solidariedade, segundo várias das mulheres que compareceram à sessão. Mas elas também expressaram sentimentos de incerteza por causa de questões que ficaram sem resposta.

A opinião geral do grupo foi de que a LCWR não poderia aceitar incondicionalmente o mandato do Vaticano para que a Conferência reforme os seus estatutos e estruturas, mas o grupo também não quer se afastar da estrutura canônica da LCWR.

As lideranças esperam encontrar um "caminho do meio", disseram, mas elas também querem dar ao Vaticano uma firme expressão de como elas entendem a si mesmas como religiosas, sugerindo que as irmãs não precisam "necessariamente" fazer parte das estruturas eclesiásticas formais.

Uma ex-presidente da LCWR disse que algumas pessoas presentes na sala perguntaram sem rodeios: "Por que não caímos fora? Por que não vamos embora?".

"Eu não acho que elas estão dizendo seriamente: 'Vamos cair fora', mas estão sim levantando essas questões", disse a Ir. Theresa Kane, das Irmãs da Misericórdia, que foi presidente da LCWR em 1979.

"Então, essas questões foram levantadas. E elas vão ser levantadas esta semana como alternativas possíveis, sem que ninguém faça um juízo sobre qualquer uma delas", disse ela.

De acordo com Kane, essas questões e sentimentos refletem o que a atual liderança da LCWR ouviu nos encontros regionais do grupo nos meses que se passaram desde a crítica do Vaticano.

A LCWR é composta por 15 regiões em todo o país. Após a crítica vaticana, o grupo organizou encontros com seus membros em cada uma dessas regiões.

O debate sobre essas questões está previsto para começar formalmente nesta quarta-feira, quando a LCWR inicia uma série de "sessões executivas" a portas fechadas, em que os membros do grupo devem se reunir e discutir os assuntos em questão.

“Dissidência corporativa”

A crítica à LCWR, que foi lançada no dia 18 de abril, veio da Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano. Entre as suas críticas, a Congregação identificou uma "prevalência de certos temas feministas radicais incompatíveis com a fé católica" nos programas do grupo e uma "dissidência corporativa" no grupo acerca dos ensinamentos sexuais da Igreja.

Em um comunicado no dia 1º de junho, o conselho nacional da LCWR criticou a medida do Vaticano, dizendo que era "baseada em acusações infundadas e fruto de um processo inválido em que faltou transparência".

De acordo com o mandato do Vaticano, a LCWR deve se colocar sob a autoridade do arcebispo de Seattle, Peter Sartain, que deve atuar como um "arcebispo delegado" para o grupo, devendo ser assistido nesse papel por Dom Leonard Blair, bispo de Toledo, Ohio, e por Dom Thomas Paprocki, bispo de Springfield, Illinois.

Uma parte-chave da sessão de terça-feira entre as atuais e ex-presidentes da LCWR ocorreu quando a irmã beneditina Joan Chittister, que foi presidente da organização em 1976, leu trechos de um documento que ela havia escrito em 1980, refletindo sobre a sua experiência com a LCWR de 1971 a 1980.

Chittister disse que não se lembrava desse documento e só recentemente o redescobriu. O texto tem uma estranha semelhança com as questões diante das quais se encontra a Conferência das lideranças religiosas hoje.

Chittister escreve que ficara sabendo que a Congregação para os Religiosos do Vaticano estava recebendo e analisando relatórios, e às vezes até mesmo fitas, de conversas que ela e outras lideranças femininas haviam mantido.

Em certo ponto, ela escreve: "Eu fiquei sabendo, com um sentimento horrível e opressivo, que estávamos sendo observadas, mas não falavam conosco; estávamos sendo observadas e censuradas, mas não se relacionavam conosco".

"Essa tem sido a experiência com a qual meus anos de LCWR mais me confrontaram, uma sensação de que estou como uma mosca em uma cabeça de alfinete em algum lugar, falando sobre quais são as questões importantes para nós e sendo observada a partir de uma posição superior por alguém que tem um mata-moscas e que não necessariamente valoriza o que eu estou dizendo ou o que eu sou", escreveu Chittister em 1980.

Falando ao NCR na última terça-feira, Chittister disse que o documento era uma reflexão que ela havia feito depois de um retiro que ela havia ministrado, em 1980, para ex-lideranças da LCWR.

Como parte desse retiro, disse Chittister, ela convidou cada uma das ex-lideranças para registrar as suas próprias reflexões. Esses documentos, incluindo o seu próprio, disse Chittister, ficaram depois "depositados sobre uma prateleira, enquanto a vida passava durante anos".

Ela disse que contou à liderança atual da LCWR que ela queria apresentar as suas reflexões agora, dizendo-lhes: "Eu acho que podem ter algo a ver com aquilo sobre o que vocês estão falando".

Nessa reflexão, Chittister expressa o seu desapontamento sobre os encontro entre o Vaticano, as autoridades eclesiais norte-americanas e as religiosas norte-americanas ao longo dos anos 1970.

Em certo ponto, Chittister escreve na reflexão que, até então, ela estava se perguntando se as religiosas deveriam viver fora das estruturas formais da Igreja.

Ela escreve que, depois da Terceira Conferência Interamericana de Religiosos, realizada em Montreal em 1977, ela viu que "não tínhamos muito mais tempo para continuar jogando os jogos oficiais da Igreja; que a função de um religioso era ser religioso".

"Só muito recentemente é que eu cheguei ao ponto em que eu posso dizer que a função de um religioso é ser religioso, e não necessariamente ser canônico", continua.

Chittister se refere a um encontro da LCWR daquela época, em que diz: "Nós estávamos tocando a agenda real: se a mulher era ou não uma pessoa pensante, atuante, agente na Igreja. E nós estávamos tocando a segunda agenda: o que tinha prioridade para nós, a [agenda] deles ou a unidade da própria Conferência?".

“Armadilha de fé”

Chittister também diz que, em conversas à época com bispos, citando especificamente a Congregação para os Religiosos do Vaticano, membros da LCWR se viram em uma "armadilha de fé e lealdade".

"Em outras palavras", escreve Chittister, "eles nos disseram que, embora nós mesmas possamos questionar certas coisas, nunca poderíamos dizê-las em público. Isso era ser desleal para com a Igreja. Isso era um tipo de pecado contra a fé".

Mais adiante no documento, Chittister enquadra essa "armadilha" como um "beco sem saída" acerca de "se podemos ou não ser indivíduos e falar, se estamos na LCWR, ou se a própria LCWR era permitida a falar ou a levantar quaisquer questões que já haviam sido decididas".

Chittisters continua afirmando que, ao escrever a carta, "posso sentir novamente todo o nó no meu estômago – a noção de não ser ninguém da forma mais baixa possível, a sensação de que muita água está caindo sobre uma pedra, mas está gotejando uma gota de cada vez, e o meu estômago não tem certeza de que eu posso esperar todo esse tempo".

Chittister também recorda reuniões de coordenação entre os membros da Conferência dos Bispos dos EUA e a LCWR, em que ela diz que sentiu uma sensação de desânimo diante das esperanças de algum tipo de entendimento entre os dois grupos.

"Nessas reuniões de coordenação, eu me lembro de tentar ir ao encontro", escreve ela. "Eu me lembro de ficar sabendo que, quando havia cinco deles e cinco de nós, ao menos era uma conversa pessoal. Mas eu também me lembro de sentir muito fortemente que iríamos colocar algumas coisas sobre a mesa e depois seríamos ouvidas de forma educada, e todos eles iriam embora, e, no ano seguinte, teríamos um novo grupo lá com a mesma velha agenda. Esta, também, desapareceria sem nenhum avanço em ação sobre as suas preocupações".

Encerrando a sua carta, Chittister apresenta quatro "questões e eventos" que, conforme escreveu ela em 1980, "permanecem para mim".

  1. O que ela chama de uma tensão entre a preocupação pela "unidade na Igreja" e o despertar da "consciência" feminina: "Uma vez que se tem uma consciência da nova ordem da criaturalidade, suprimi-la continuamente em prol da fragilidade institucional ou organizacional é extremamente opressivo".
  2. A questão de saber se o diálogo permanente com os bispos foi útil: "Eu ainda não tenho certeza de que uma autorrevelação anualmente regular e continuada seja produtiva, ou simplesmente isso alerta ainda mais para o efeito sobre nós do uso adverso do poder por parte deles".
  3. O que ela chama de "lidar com a dor que vem de uma personalidade encontrada, mas perdida; de não ser capaz de participar em muitas coisas, exceto na dissidência administrativa que parece ser o ministério das mulheres na Igreja neste momento; a capacidade deles de nos verem, mas sem nos verem, e de fazerem de nós não pessoas".
  4. Que a LCWR deveria ser um "sistema de apoio", que seja, "em certo sentido, uma silenciosa vozinha em seu próprio campo".

"Para onde deveríamos ir? O que realmente é loucura?", conclui Chittister na carta. "Essas podem ser questões que serão respondidas muito mais cedo do que eu mesmo preferiria".

O futuro da vida religiosa

O encontro da LCWR começou oficialmente nessa terça-feira à noite, com uma introdução de do arcebispo de St. Louis, Robert Carlson. Uma peça central do encontro da LCWR deste ano irá ocorrer nesta quarta-feira, em um discurso de Barbara Marx Hubbard, uma autora conhecida pela sua proposta de uma visão de mundo chamada de "evolução consciente".

Também estão na agenda da assembleia da LCWR o editor do NCR, Tom Fox, e a colunista do NCR, Jamie Manson, que irão compartilhar um painel de discussão no dia 9 de agosto com a Ir. Jennifer Gordon, membro das Irmãs da Caridade, de Leavenworth, Kansas, para discutir o tema "Vida religiosa no futuro: Como será?".

Durante a assembleia, a LCWR também irá realizar a sua transição anual das principais líderes do grupo – a sua presidente eleita, presidente e ex-presidente – que governam a LCWR de forma colaborativa com a secretária, a tesoureira e a diretora-executiva do grupo.

Durante uma cerimônia formal programada para a tarde de sexta-feira, a atual chefe do grupo, a irmã franciscana Pat Farrell, irá passar para a posição de ex-presidente, enquanto a irmã franciscana Florence Deacon, atualmente presidente eleita da LCWR, irá se tornar a sua presidente oficial.

Deacon, que também é superiora da congregação das Irmãs de São Francisco de Assis, com sede em St. Francis, Wisconsin, atuou anteriormente nas Nações Unidas como diretora do escritório de Nova York da Franciscans International, organização não-governamental que luta por questões de justiça.

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