O mal, hoje. Entrevista com Enzo Bianchi

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06 Agosto 2012

O pai, funileiro, prometeu à mãe que nunca levaria consigo, sobre os telhados, o único filho para ajustar calhas. Mas estava escrito que Enzo Bianchi subiria às alturas, em plena humildade, e arriscasse a si próprio pelos outros e ascendesse para depois descer, com as mãos sujas de algo bom.

A reportagem é de Stefania Berbenni, publicada na revista italiana Panorama, 02-08-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

É o que vem à mente quando nos encontramos diante dele, com a voz que já diz quem é o homem: quente, profunda, com autoridade, com uma rouquidão no fundo, constante. Enzo Bianchi é um gigante com rosto de elfo. E, quando o elfo fala, o silêncio em toda a parte agradece, porque esse doutor em misericórdia, com o diploma de economia no bolso e Deus na alma, é um intelectual finíssimo, um religioso puro, prior da Comunidade Monástica de Bose (Biella) por ele fundada em 1965, aberta a homens, mulheres, protestantes, ortodoxos, católicos: algo revolucionário em tempos de integralismos religiosos e de nacionalismos antirraciais. Ele escreve livros, opiniões; raramente se apresenta em festivais e televisões; quase nunca para entrevistas.

Entre as palavras mais caras a ele está a "parrésia", do grego, a coragem de falar, a liberdade de dizer. Bianchi admite fadigas ("A cela, no início, é uma prisão, com a sua solidão"), recorda feridas abertas ("Meu pai era anticlerical, se sentiu traída pela minha escolha. Minha mãe, que morreu quando eu tinha oito anos, era muito fiel, ao invés"), se confronta com a dúvida ("Fazem-se perguntas a Deus e, quando jovem, se ouviam logo as respostas"), e sem medo, olha de frente os rostos do mal.

"O problema do mal continua sendo um mistério para os seres humanos e os cristãos: de onde ele vem? A própria Bíblia não dá uma explicação, senão estas específicas: o mal é algo que Deus não quis; segundo, o mal estava presente desde o início da história, provocado tanto pela natureza quanto pelo ser humano. É o ser humano que percebe o mal. A partir disso, o Judaísmo e, por extensão, a Igreja Católica deram como explicação um Opositor (Satanás, em hebraico), um Divisor (o diabo), um Demônio, isto é, uma força. Nem mesmo a Igreja Católica explica de onde ele vem; diz apenas que Deus é mais forte".

"Deus é um pai amoroso, mas que distribui males em toda a parte. Muitas pessoas de fé entram em crise justamente porque não sabem como conciliar a ideia do grande amor divino com o grande horror terreno. É preciso dar um salto na compreensão de Deus que, talvez, permite essas coisas com boas intenções. Quando eu era criança, no interior, quando morria uma criança pequena, se dizia: 'Deus o levou consigo porque não queria ficar sem ele'. Deus não pode vencer a morte senão no além, para a vida eterna. A onipotência de Deus respeita o ser humano na sua autonomia e na sua liberdade até parecer impotência."

Eis a entrevista.

Desculpe-me, mas parece um pouco blasfemo.

Deus é onipotente no amor, mas não tem onipotência diante do ser humano. O homem pode blasfemá-lo, ignorá-lo, dizer-lhe que não e ter uma vida feliz. Deus fez tudo com amor e liberdade. E nós devemos fazer o o mesmo.

Quando quis, no entanto, Deus derrotou o mal terreno: os milagres.

Jesus não curou todos os cegos, os deficientes, os mudos. Os milagres são como flechas: entendemos o que haverá no além.

Deus, Buda, Alá, Javé...

Para nós, cristãos, Deus é o que foi narrado por Jesus. Os outros certamente são chamados de Deus, mas o nosso Deus é o dos judeus, o pai de Jesus.

Mas o mal não é sempre o mesmo?

Entre os massacres da antiguidade e a bomba atômica, muda apenas o meio. O mal na história se manifesta com três rostos. Ter tudo e já. Acumular riquezas. Ter poder. São as três epifanias do mal, as três tentações de Jesus no deserto: o diabo diz 'Eu te dou o pão, te dou todas as riquezas, joga-te do pináculo, tu podes fazer tudo'. São as três libidos de Sigmund Freud, a libido erótica (comer o outro), a possidendi e a dominandi.

O papa indicou nas finanças e nos meios de comunicação os novos rostos do mal.

Na Idade Média também havia as "finanças": chamavam-se usura.

Os mercadores do templo estão de terno e gravata diante do computador: é isso que o senhor está dizendo?

Sentimos mais o poder das finanças. No século XIX, o inimigo era o capital; no fim do século XVIII, os proprietários-patrões.

E o que o senhor pensa sobre os meios de comunicação?

No Império Romano, havia os pregoeiros nas praças que brigavam com o inimigo e incitavam à guerra, às torturas... Mas, ao contrário, por que ninguém chamou de guerra a intervenção humanitária na Líbia? Essa sim é uma responsabilidade.

Quais são, então, os novos rostos do mal?

Somos uma sociedade falsa. Nos últimos 20 anos, houve um crescimento generalizado: diz-se uma coisa e se pensa outra, mente-se ao Estado na declaração de renda, profere-se falso testemunho no tribunal. É o mal dominante, a mentira até a calúnia.

Calúnia?

A calúnia e a mentira tornaram-se método, mesmo entre os cristãos.

Você pensa nos corvos e nos mordomos dos últimos escândalos vaticanos?

Não só no Vaticano, na vida comum, cotidiana.

Padre, um outro mal do ano 2012?

Chame-me Enzo... Há uma espécie de indiferença que nos agarrou. Uma indiferença ao mal. Não nos escandalizamos, não temos indignação dentro de nós.

Porém, a sociedade civil está se mexendo. Os indignados e também os intelectuais, depois de anos de retirada, "deram as caras".

Sim, no último ano, houve sinais de um redespertar nas pessoas que fazem perguntas, mas continua havendo uma atitude de fundo.

Qual?

Sigam em frente, contanto que não toquem no meu mundo. Uma espécie de não proximidade. Estamos dispostos a dar 50 euros para as vítimas do terremoto, mas não a convidá-los para jantar em nossa casa gastando 10 euros. Porque a proximidade nos dá medo.

Sociólogos e psicanalistas falam de um crescimento do narcisismo: o que o senhor acha?

É um mal banal, expressão do indivíduo. Outra coisa é o individualismo desenfreado dos nossos tempos, que é o verdadeiro mal.

Ajude-nos a compreender.

A subjetividade dos anos 1960, preciosa descoberta, pouco a pouco se corrompeu em subjetivismo e em individualismo. Agora há um individualismo desesperado e feroz segundo o qual os desejos se transformam em direitos. E se quer que os outros os satisfaçam. É uma regressão. Pura barbárie.

Como se sai disso?

É um problema educacional e cultural. A escola, os pais devem dizer novamente: "Eu tenho que fazer com que uma pessoa venha ao mundo. E fazer com que ela cresça com capacidade de humanização".

Isso significa...?

Que eu me torno mais homem, que eu penso no significado e nas consequências das minhas ações. Quando jovem, eu arrancava a grama, assim, de brincadeira. Por quê? Falta uma gramática humana.

Qual a sintaxe?

Respeitar animais, natureza, seres humanos. Ensinar a pluralidade. Tornar-se especialista em diferenças e em complexidades.

A TV dos primórdios tinha uma função educativa. E agora?

Nós não temos TV na comunidade. Mas quando estou em viagem e em hotéis, ligo a TV e não encontro um programa que ajude as pessoas a crescer em humanidade. Eu vou pouco ao cinema, no máximo duas vezes por ano. E quem vai mais não é mais escutado.

Mas existe uma classificação do mal?

O oitavo vício capital é a soberba: alguém pensa a si mesmo como um deus e os outros como uma coisa, um instrumento Não os olha. Ditadores (Stalin, Hitler, Gadaffi), tomados pela vertigem do orgulho, exerceram a tirania, com a sexualidade brutal, a arrogância violenta...

E então?

Eu penso assim: nós, seres humanos, todos, podemos cair e fazer o mal, até mesmo um homicídio, que é a coisa mais terrível (espero que se entenda o que eu quero dizer), por sermos transportados pelo ímpeto. Mas também podemos escolher. É grave a hipocrisia dos políticos que defendem a família e depois levam uma vida sistematicamente contra os valores da família. Quem invoca a justiça transparente e depois provoca escândalo.

As notícias são impiedosas: são muitos os cristãos que não brilham. Eles não deveriam dar o exemplo?

Não temos apenas a consciência. Temos também o Evangelho que nos diz para não roubar, não mentir, não corromper, não desejar a mulher do próximo...

É difícil para um fiel aceitar a onda obscura dos escândalos vaticanos.

Eu não fiquei muito perturbado com esses episódios: eu temo que houve exageros; são problemas que surgem em qualquer instituição. Eu acho que conheço bem a Igreja: o papa e os seus colaboradores são pessoas transparentes. Seria preciso uma maior capacidade de explicar o que aconteceu.

E o problema da pedofilia?

Estamos entrando em uma cultura de tipo anglo-saxônico: já não se escondem mais as coisas, sente-se a necessidade de denunciá-las. A pedofilia é um crime horrível, porque a criança não tem capacidade de subjetividade. Foi uma chaga nos anos 1960 com os colégios; agora é menos, mas há mais consciência, mais estímulo a trazer a verdade à tona. Não nos esqueçamos de que estamos falando de pessoas doentes.

Sempre a sua misericórdia... E nas crianças, o senhor não pensa?

Por cautela, deve ser imediatamente afastado e tornado inócuo quem possa causar danos. Depois, ajudado.

"Sede sóbrios" é o mantra dos últimos meses, certo?

Há anos, estamos desfrutando bens com facilidade e sem consciência, explorando os países pobres.

E o seu mantra qual é?

Não desperdiçar. Devemos voltar à regra de São Bento da medida. Pense nas geladeiras cheias... Os pobres não só batem à porta, mas entram por todas as partes. Não jogar fora: uma autoeducação.

O senhor não veste a cruz.

Sou um monge.

Essa também é uma escolha? Lançadas pelos estilistas, pelas estrelas de rock, esvaziada de significado...

A cruz é o símbolo mais real que existe; indica a vida de Jesus dada aos outros, sofrendo. E como ela é usada? Aconteceu o mesmo com as palavras.

Em que sentido?

Gostaria de pegar uma palavra nas mãos tentando torná-la novamente eloquente, falante, partindo da verdade pela qual o ser humano a fez nascer. Sim, gostaria de refundar toda palavra abusada, dar-lhe significado novamente.

Em quais palavras o senhor pensa?

"Sacrifício". Banida completamente. Ao invés, sem sacrifício não teríamos a liberdade. E depois: "perseverança". É preciso insistir, não fazer as coisas por emoção, mas tentar fazê-las se tornar história. Também "esforço": na nossa vida há muito esforço; esforçamo-nos para viver juntos, mesmo nas histórias de amor.

E se eu disser "morte assistida"? O senhor interveio no caso Englaro.

Absolutamente não se deve dar lugar à eutanásia, mesmo que o doente o tenha dito. Mas é preciso remover toda oportunidade de obstinação terapêutica. Vejo nos hospitais italianos uma escandalosa ausência da cultura da dor.

A palavra "morte", ao invés?

Ouvimo-la como uma injustiça, porque põe fim a tudo o que temos de belo. Afetos, amores... O medo da morte é a maior causa de alienação. Pense na Carta aos Hebreus, em Freud. Sentimos a necessidade de nos munir para a velhice: novamente, o egoísmo, o pensar em si mesmo, o individualismo.

Fácil de dizer; somos todos humanos.

E se o impulso fosse o conhecimento da vida, se pensássemos em um manifesto de humanização? O que você diz? Não seria melhor?

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