''No diálogo com o Islã, é preciso partir do Concílio''

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03 Agosto 2012

O 50º aniversário do Vaticano II também é "a oportunidade para relançar as relações inter-religiosas", destaca um dos maiores especialistas nas relações entre cristãos e muçulmanos, Khaled Fouad Allam.

A reportagem é de Giacomo Galeazzi, publicada no sítio Vatican Insider, 31-07-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Professor, o Concílio foi uma escola de ecumenismo?


O Vaticano II também estabeleceu as bases para um diálogo com o mundo muçulmano. Certamente, nos anos 1960, o período era mais ou menos eufórico, porque grande parte do mundo muçulmano havia iniciado a sua fase de descolonização, de libertação, e, portanto, à libertação política, obviamente também devia se seguir uma liberação das incompreensões entre os mundo cristão e o muçulmano. Há toda uma geração de estudiosos do Islã e de muçulmanos que contribuíram para a elaboração desse maior conhecimento do Islã, em uma dupla direção, seja na do mundo cristão, seja na dos muçulmanos, em uma época em que a taxa de analfabetismo nos países muçulmanos era extremamente alta. Eu poderia citar o islamólogo Muhammed Arkoun, falecido há dois anos, de origem argelina, o islamólogo octogenário Muhammed Talbi, que há alguns anos recebeu o Prêmio Agnelli.

Nós temos o dever de contribuir dentro do que é possível para uma memória compartilhada, mas, por enquanto, como ressaltei várias vezes, continuamos mantendo quase intacta uma espécie de divórcio entre história e memória. O Islã é história para os orientalistas e os cultos, mas não é memória compartilhada, permanece distante, apesar da proximidade das distâncias geográficas. Gosto de repetir que Palermo está a uma hora de avião de Túnis. Mas por enquanto não conseguimos. Atenção: isso é recíproco. O mundo muçulmano também deve ser capaz de sair dessa visão do Ocidente como origem de todos os seus males e deve fazer um trabalho em profundidade. Deve ser capaz de recuperar coisas que também fazem parte da sua memória, memória cultural, sobre a qual, no entanto, o Islã, como civilização, reelaborou alguns dados. Não se pode negar a contribuição greco-romana, cristã, judaica e até no Islã da Ásia, com as diversas conexões entre o próprio Islã e o budismo. Um grande islamólogo japonês, Toshihiko Izutsu, foi o primeiro há mais de 50 anos a repassar essas conexões. Mas, no Islã, mesmo lá não conseguimos. Volta à mente a imagem catastrófica da destruição dos Budas no Afeganistão.

O choque de civilizações é inevitável?

Nos períodos de crise como a que vivemos atualmente, que eu acredito que não é apenas uma crise exclusivamente econômica, mas também uma crise em realidades de civilização, isto é, de como se faz sociedade e de como funcionarão as sociedades nos próximos 30 anos, o pior risco da incomunicabilidade entre cristãos e muçulmanos é o de encontrar em um ou em outro um bode expiatório. Os recentes atentados contra os cristãos no Egito são maus sinais. O atentado de Tolouse perpetrado por franco-argelinos membros da Al Qaeda, matando um rabino e jovens de uma escola judaica, mais alguns soldados franceses de origem mahgrebina, em uma fase como esta, corre o risco de aumentar o medo e o estereótipo da percepção do outro. O estereótipo, quando se torna ingovernável, pode levar à catástrofe. Vem à mente o que aconteceu não muito longe de Trieste, a guerra da ex-Iugoslávia. O risco é sempre a passagem da culpabilidade individual para a culpa coletiva. As guerras nascem justamente sobre essa base.

Existe um Islã moderado?

O que se destaca no mundo muçulmano é o empobrecimento cultural das novas gerações, mesmo entre aqueles que pertencem a partidos religiosos. Esquecemo-nos do primeiro relatório do PNUD (órgão das Nações Unidas) publicado em 2001 sobre a democracia no mundo árabe, em que os especialistas de origem árabe ou não enfatizavam a regressão desse mundo no plano social e cultural. Em 2001, ele foi traduzido em todo o mundo árabe, menos na Coreia do Norte. Precisamos refundar uma espécie de pacto intelectual, isto é, a necessidade de produzir edições críticas, dar livre curso à liberdade de expressão.

Na madrugada desta Primavera Árabe, parece-me evidente enfatizar que uma democracia sem liberdade de expressão é exatamente como um vaso de flores sem água, que pouco a pouco morrerá. Nisso também o papel do intelectual é importante. Mas há uma diferença com o Ocidente, pois aqui vejo os intelectuais cada vez mais resignados em todos os campos. Quando eu volto para o mundo árabe, o ar que se respira é diferente. O intelectual tem a consciência de ser copartícipe do destino não apenas da sua própria história, mas também da sua nação, enquanto, infelizmente, e eu lamento isso, eu vejo muitas vezes os intelectuais no Ocidente passivos, desencantados.

Qual a incidência da globalização nisso?

A própria globalização, apesar de tudo, vai nos obrigar a um conhecimento recíproco, porque a globalização implicará o fato de viver juntos e, portanto, de tentar se comunicar. Eu também leciono para estudantes norte-americanos em Stanford e todos os anos eu lhes pergunto as suas origens: em 90% dos casos, são todos nascidos de casamentos mistos, de que tem a mãe de origem iraniana e o pai de origem irlandesa, de quem tem a mãe italiana e o pai de origem latino-americana etc. Essa não é apenas uma questão de casamentos mistos, mas também envolve uma busca e uma reformulação das origens e um conhecimento. A complexidade do nosso viver hoje é também esse, mas ainda não temos a consciência disso.

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