A linha apolítica do Papa Bento XVI em relação ao Oriente Médio e a crise síria

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30 Julho 2012

O Papa Bento XVI irá viajar para o Líbano nos dias 14 a 16 de setembro, marcando a sua primeira visita ao Oriente Médio desde a Primavera Árabe e a sua quarta viagem em geral para a região (depois da Turquia em 2006, da Terra Santa em 2009 e do Chipre em 2010). Também será o mais perto ao que ele provavelmente irá chegar do atual caos na Síria.

A análise é de John L. Allen Jr., publicada no jornal National Catholic Reporter, 27-07-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O objetivo oficial é apresentar as conclusões do Sínodo do Vaticano sobre o Oriente Médio em outubro de 2010. O Líbano é um óbvio trampolim, já que os cristãos representam cerca de 40% da população total do país de quatro milhões, a maior pegada cristã em termos percentuais no Oriente Médio. E, é claro, também é um dos poucos lugares da região onde a segurança do papa pode ser razoavelmente assegurada.

Embora os eventos atuais formem o subtexto para a viagem, qualquer um que espere um elevado drama político provavelmente deverá se preparar para a decepção.

Se as coisas mantiverem a forma atual, Bento XVI parece pouco provável a delinear uma nova visão ousada para o mundo árabe, e também não irá lançar uma posição duramente definida com relação à Síria, mesmo que a atual carnificina de alguma forma ainda esteja em desenvolvimento. Ao invés disso, a viagem se configura como um experimento para verificar se a visão basicamente "apolítica" de Bento XVI sobre o futuro cristã no Oriente Médio tem fundamento.

Sob essa luz, Bento XVI em 2012 deve apresentar um nítido contraste com João Paulo II em 1997, a última vez em que um papa viajou para o Líbano. O país estava então sob a ocupação síria, e os cristãos eram vistos como o baluarte da resistência. Durante uma massiva missa ao ar livre em Beirute, o chefe da Igreja Maronita do Líbano na época, o lendário patriarca Nasrallah Sfeir, comparou a situação com a dos católicos da Polônia sob os soviéticos, invocando a heroica rebeldia do cardeal Stefan Wyszynski ao regime comunista. João Paulo II encorajou a analogia, acolhendo líderes da oposição aos seus eventos e endossando explicitamente as aspirações dos jovens libaneses à "liberdade, soberania e independência".

A indicação para os cristãos libaneses era de que João Paulo II queria que eles desempenhassem um papel central nos assuntos de Estado, e eles começaram a fazer exatamente isso.

Quinze anos depois, Bento XVI provavelmente irá entregar uma mensagem diferente. Seu conselho, embora expressado majoritariamente pelo exemplo em vez de instruções explícitas, provavelmente será para evitar a política partidária, focando-se em um papel humanitário como reconciliadores, pacifistas e dispensadores de caridade ao longo de todas as divisões sectárias e ideológicas.

Em parte, essa postura apolítica é ditada pelo fato de que simplesmente não há uma linha cristã coerente sobre as questões que a região enfrenta, e o Líbano oferece um caso clássico em questão. Quando João Paulo II chegou, os cristãos libaneses estavam unidos contra uma ocupação estrangeira, já que uma faixa ao sul do Líbano também estava sob controle israelense. Hoje, os cristãos do país estão estilhaçados. Alguns, incluindo o ex-general e político Michel Aoun, estão aliados com o Hezbollah e são simpatizantes de Bashar al-Assad, o presidente da Síria. Outros, especialmente a "Aliança 14 de Março", são fortemente antissírios e anti-iranianos. A maioria simplesmente vive com medo de tudo o que poderá se seguir ao colapso do regime de Assad e dos seus potenciais efeitos transbordantes sobre o Líbano.

O líder maronita de hoje, o patriarca Béchara Boutros Raï, também é uma figura diferente de Sfeir, hoje com 92 anos e aposentado. Raï enfrentou uma polêmica no ano passado por se opor à mudança de regime na Síria e por também parecer aceitar a relutância do Hezbollah a se desarmar. Posteriormente, Raï recuou, tentando tomar um curso mais neutro.

Dada a confusão de vozes cristãs concorrentes, seria difícil para Bento XVI oferecer ordens de marcha políticas, mesmo se ele quisesse.

Parece claro, no entanto, que ele não tem esse desejo. Até hoje, nem o papa nem o aparato diplomático do Vaticano assumiram uma posição forte sobre qualquer dos países tomados pela efervescência da Primavera Árabe, incluindo a Síria. Há um mês, o porta-voz do Vaticano, o padre jesuíta Federico Lombardi, citou o embaixador do papa dizendo que o país está experimentando uma "lenta descida ao Inferno", mas também chamou a perspectiva de uma intervenção internacional armada de "muito preocupante" – levantando a questão de qual outra solução o Vaticano poderia encontrar.

(Um jesuíta italiano que viveu na Síria durante 30 anos até ser expulso por apoiar o levante anti-Assad, Pe. Paolo Dall'Oglio, recentemente cutucou essa ambivalência. Se você não acredita que tropas estrangeiras às vezes têm um papel legítimo a desempenhar para manter a paz, disse ele à Rádio do Vaticano, o que os Guardas Suíços estão fazendo na Praça de São Pedro?)

Ao inspecionar o Oriente Médio, Bento XVI sabe que este é um momento precário para a minoria cristã, já dizimada por décadas de emigração, de estagnação política e econômica, e de crescente radicalismo islâmico. Ele tem observado como a Igreja no Iraque implodiu e sabe que muitos cristãos temem que a mesma coisa esteja prestes a acontecer no Egito, na Síria e em outros lugares.

A melhor estratégia de sobrevivência – ele parece sentir – é que os cristãos, o máximo possível, fiquem de fora da disputa política. No mínimo, ele obviamente sente que não é útil para ele assumir qualquer coisa que não seja uma postura humanitária neutra.

Na verdade, há um bom argumento para ser feito ao longo destas linhas. Geralmente é uma má ideia fazer uma aposta quando você não sabe nem mesmo as chances, e exatamente agora é impossível prever como será a nova arquitetura política da região. João Paulo II arriscou e ganhou na Europa Oriental, alinhando-se com a resistência antissoviética, mas será que alguém está preparado para assegurar que Bento XVI ou outros líderes cristãos ganhariam uma aposta semelhante no Oriente Médio hoje se abraçassem abertamente, por exemplo, o movimento anti-Assad na Síria, ou as forças pró-democracia em outras sociedades do Oriente Médio?

O que resta saber é se os cristãos que agora se preparam para receber o papa finalmente irão comprar uma posição apolítica que pode lhes manter a salvo. Alguns devem ser perdoados por pensar que ficar de fora da disputa é uma fantasia – porque, mais cedo ou mais tarde, a disputa irá encontrá-los.

* * *

À distância, é difícil que estrangeiros preocupados com os cristãos na Síria saibam onde repousar suas simpatias.

Relatos persistentes dão credibilidade ao medo de que qualquer coisa que possa se seguir a Assad poderia ser pior do que o status quo. O Vale de Beqaa, no leste do Líbano, é hoje o lar de uma crescente comunidade de exilados sírios cristãos, muitos dos quais dizem que estão fugindo de ameaças específicas contra os cristãos por parte de facções dentro da oposição do Exército Sírio Livre, influenciados por jihadistas estrangeiros.

Os refugiados da cidade de Quşayr recentemente disseram à revista alemã Spiegel que fugiram de uma campanha direta contra os cristãos que se levantou no verão passado.

"Eles pregavam às sextas-feiras nas mesquitas que era um dever sagrado nos afugentar", disse uma mulher. "Os cristãos tiveram que pagar propinas para os jihadistas diversas vezes a fim de evitar serem mortos".

Sem dúvida, é difícil saber se essa hostilidade está enraizada em preconceito religioso ou em percepções políticas de que os cristãos tendem a ser mais pró-Assad. Enfrentando ameaças à vida e à integridade física, no entanto, essa provavelmente é uma distinção sem diferença para um número crescente de pessoas.

Mansour Saad, o prefeito cristão de uma cidade do leste libanês que agora oferece abrigo temporário para muitos exilados sírios, diz que ainda acredita que Assad é a melhor aposta para manter os cristãos a salvo.

"Os rebeldes não conseguiram me convencer de que eles estão lutando por mais democracia", disse Saad. "Nós conhecemos os tipos de muçulmanos que surgiram à frente da rebelião: aqueles que gostariam de levar as pessoas de volta à Idade da Pedra".

Dall'Oglio, o jesuíta que apoia a oposição síria, tem uma perspectiva diferente: insistir na ideia de que Assad é um baluarte contra o radicalismo islâmico nada mais é do que uma propaganda fabricada pelo regime.

Dall'Oglio criticou as lideranças da Igreja de todas as faixas da Síria e do exterior – em particular a Igreja Ortodoxa Russa, que tem dado cobertura espiritual à política externa pró-Síria da Rússia – por reciclarem o que Dall'Oglio descreve como a "mentira" de que Assad protege as minorias contra a maioria de muçulmanos sunitas. Se Assad é realmente tão amigável com relação aos cristãos, pergunta Dall'Oglio, por que cristãos sírios têm ido embora do país durante os últimos 40 anos?

Dall'Oglio compara as lideranças da Igreja na Síria às suas contrapartes no Iraque, que assumiram uma linha suave com relação ao regime de Saddam Hussein, e no Egito, onde o sistema dominante copta apoiou Mubarak em grande parte. Em cada um dos casos, insiste ele, as lideranças estão no lado errado da história.

Falando sobre a psicologia cristã na Síria, Dall'Oglio diz: "Eles estão em um estado de islamofobia. Desde os anos 1980, tudo o que eles ouviram repetidamente, uma e outra vez, é que, sem o Estado de Assad, a Síria seria um inferno islâmico".

De fato, adverte Dall'Oglio, quanto mais o fim do jogo na Síria se arrasta, mais espaço é criado para que forças jihadistas suplantem o movimento pró-democracia. Em outras palavras, ao manter a viabilidade de Assad por um pouco mais de tempo, os cristãos podem estar precisamente abrindo o caminho para o pesadelo que eles mais temem.

* * *

Enquanto o Vaticano pode estar mantendo uma ação diplomática mais tímida, outros atores católicos estão tentando desempenhar um papel mais protagônico. Esta semana, a Comunidade de Santo Egídio organizou um debate transversal sobre a oposição democrática da Síria durante vários dias de encontros, culminando na última quinta-feira com a apresentação de um Apelo pela Síria.

O apelo foi assinado pelos líderes de 10 grupos de oposição sírios que se encontraram na sede da Santo Egídio, no bairro romano de Trastevere.

Os signatários declaram que "não somos neutros", mas sim "parte do povo sírio que sofre pela opressão da ditadura e da sua corrupção". No entanto, eles rejeitam uma solução militar para a crise, insistindo que o recurso à violência "está mantendo o povo sírio como refém".

Embora reconhecendo "o direito dos cidadãos à legítima defesa", o apelo convida os membros do Exército Sírio Livre a participar em lutas políticas não violentas. Ele pede que a comunidade internacional apoie uma saída política, começando com "a imposição do cessar-fogo, a retirada dos aparatos militares, a libertação dos detidos e dos sequestrados, o retorno dos refugiados, as ajudas de emergência às vítimas, uma verdadeira negociação global".

"Somos firmemente contrários a qualquer discriminação com base confessional ou étnica, de qualquer parte que venha", diz o apelo. "Somos a favor de uma Síria de iguais na cidadania. Queremos que a Síria, no futuro, seja uma pátria para todos, capaz de respeitar a vida e a dignidade humana na justiça".

A ideia básica é que a escolha perante a Síria não é exclusivamente entre a ditadura e a teocracia. Ainda há uma chance de forjar uma sociedade "livre e democrática", nas palavras de Fayez Sara, um escritor de Damasco e líder da oposição que participou do evento da Sant'Egidio.

Independentemente da opinião sobre a perspectiva de Sara, ele certamente conquistou o direito de expressá-la. O ativista de 61 anos foi preso três vezes pelo regime de Assad desde os anos 1970, passando um total de cinco anos atrás das grades pelo crime de "perturbar a pureza nacional". Em Roma, ele estava acompanhado por colegas líderes pró-democracia como Abdul Aziz al-Khayyar, que passou 14 anos na prisão e agora ajuda a liderar uma União Democrática Nacional na Síria.

Ao explicar por que eles optaram por lançar a iniciativa, porta-vozes da Sant'Egidio salientaram dois pontos.

- Se há algum lugar no Oriente Médio com a infraestrutura social e o capital humano para fazer com que a coexistência funcione, sem dúvida é a Síria. Embora os sunitas representem três quartos da população total de 22 milhões, o país também inclui uma incrível variedade de denominações cristãs, de outras seitas islâmicas, de uma minoria considerável de drusos e de outras tradições religiosas e étnicas. Esse pluralismo sempre foi uma fonte de orgulho nacional (dentre outras coisas, a Síria é um laboratório para o ecumenismo concreto entre católicos e ortodoxos, que muitas vezes se movem facilmente entre as liturgias e as comunidades uns dos outros, às vezes estando apenas vagamente conscientes de que eles realmente pertencem a confissões rivais);

- A Síria não é atrasada, mas sim um país com altos níveis de conquistas econômicas e educacionais, e com uma secular tradição cultural de orgulho, tudo o que criou uma robusta sociedade civil. Mario Marazziti, um dos líderes da Sant'Egidio que convocou os encontros de Roma, descreveu o propósito da iniciativa como uma escuta do que ele chamou de "a verdadeira voz da Síria", em oposição àqueles que atualmente pegam o megafone pela força das armas.

Marazziti insistiu na última quinta-feira que a ideia de uma solução política não é uma "ilusão ingênua". A Sant'Egidio prometeu continuar trabalhando nessa direção, e eles certamente produziram milagres diplomáticos improváveis antes, de forma mais proeminente a intermediação para o fim à guerra civil de Moçambique em 1992. Sem dúvida, as minorias sírias, começando com os dois milhões de cristãos do país, serão as primeiras a celebrar se a Sant'Egidio tiver outra carta em sua manga desta vez.

No entanto, também é justo perguntar quantos desses cristãos provavelmente pretendem ficar para descobrir isso.

O texto integral do Apelo pela Síria pode ser lido aqui, em italiano.

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