O que Maria Madalena e a samaritana ensinam à Igreja

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28 Julho 2012

A mulher samaritana é a primeira a reconhecer Jesus como o Messias. Maria Madalena é a primeira a reconhecer o Cristo ressuscitado. Isso não é pouca coisa.

O comentário é de Jamie L. Manson, mestre em teologia católica e ética sexual pela Yale Divinity School, em artigo publicado no sítio do jornal National Catholic Reporter, 24-07-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Comunidades em todos os Estados Unidos ofereceram liturgias especiais no último fim de semana para homenagear Maria Madalena, cuja festa foi no domingo. Uma comunidade em San Diego me convidou para pregar em sua celebração à "Apóstola dos Apóstolos". Em vez de escolher uma narrativa do Evangelho sobre Maria Madalena, eles optaram pela história da mulher samaritana do capítulo 4 do Evangelho de João.

Olhando para esse texto e comparando-o à história de Maria Madalena, eu fiquei impressionada com os paralelos que eu encontrei entre essas mulheres. Aqueles que já ouviram falar de Maria Madalena e da mulher samaritana, ou "da mulher no poço", como ela também é conhecida, com toda a probabilidade já tiveram a impressão de que essas duas mulheres foram resgatadas por Jesus de suas vidas sexualmente imorais.

Na verdade, alguns dos melhores biblistas, muitos deles homens, propuseram que os "cinco maridos" da mulher samaritana e "o homem que ela tem agora" podem ser apenas um símbolo dos seis deuses (além de Javé), que os samaritanos eram acusados de adorar. O grande estudioso Raymond Brown indica que a palavra hebraica para "marido" também era usada para divindades pagãs naqueles dias. No tempo de Jesus, os samaritanos eram considerados impuros, tanto que apenas o fato de entrar na Samaria era considerado contaminador. Que Jesus não só fosse para aquela terra, mas também falasse com uma mulher de lá era impensável.

Alguns estudiosos acreditam que João, o evangelista, um dos grandes simbologistas das escrituras, pode estar usando o personagem da mulher samaritana como um símbolo para os samaritanos. Essa interpretação faz sentido, porque Jesus nunca julga a mulher samaritana ou lhe diz explicitamente para se afastar do pecado, nem a perdoa por qualquer comportamento ilícito. Tudo o que ele faz é revelar a ela a sua verdadeira natureza, sabendo que no fim ela irá reconhecê-lo.

Maria Madalena é outra mulher do Evangelho de João que é famosa por reconhecer Jesus. Tem sido difícil, no entanto, compreender a sua história verdadeira, já que todos, desde o Papa Gregório, no século VI, até Tim Rice e Andrew Lloyd Webber nos anos 1970 fizeram com que acreditássemos que ela era uma adúltera e uma pecadora arrependida.

Maria de Magdala é talvez a figura mais deturpada de toda a tradição cristã. Desde o século IV, as histórias, os vitrais e as pinturas têm a retratado como uma prostituta e pecadora pública, que, depois de encontrar Jesus, passou o resto de sua vida em oração e penitência privadas. Essa interpretação não tem fundamentos nas Escrituras. João a descreve como a principal testemunha dos eventos mais centrais da fé cristã. Ela é a primeira a descobrir o túmulo vazio. O Cristo ressuscitado a escolhe para anunciar a boa notícia da sua ressurreição aos outros discípulos, o que levou alguns Padres da Igreja primitiva a declará-la "a Apóstola dos Apóstolos".

O fato de a mensagem da ressurreição ter sido confiada em primeiro lugar a mulheres é uma forte prova de que a ressurreição realmente aconteceu. Se os relatos da ressurreição de Jesus fossem mentiras ou fabricações, uma mulher nunca teria sido escolhida como testemunha, já que a lei judaica não reconhecia o testemunho das mulheres.

A mulher samaritana é a primeira a reconhecer Jesus como o Messias. Maria Madalena é a primeira a reconhecer o Cristo ressuscitado. Isso não é pouca coisa no Evangelho de João, em que há três tipos de pessoas. Há aqueles que se agitam em torno da história do Evangelho sabendo que Jesus é especial, mas que não têm bem certeza por quê. Os discípulos homens seria um exemplo perfeito. Depois, há aqueles que sabem que Jesus é o Messias e estão dispostos a matá-lo por causa disso. E, por último, há um pequeno grupo de discípulos que, depois de um profundo envolvimento com Jesus, reconhecem-no como o Messias e confessam isso publicamente.

A mulher samaritana é a primeira discípula a reconhecer Jesus como o Messias prometido, e o seu testemunho lhe traz muitos seguidores na Samaria. Maria Madalena é a primeira discípula a testemunhar Jesus ressuscitado e a proclamar a ressurreição aos discípulos homens. Elas não foram simplesmente as primeiras mulheres a reconhecer Jesus. Elas foram as primeiras “discípulas” a reconhecê-lo. Não é preciso ler o Evangelho de João através de uma lente feminista para ver exatamente como essas histórias devem ter sido escandalosas para uma audiência do século I.

É irônico e trágico que a proeminência de Maria Madalena e da mulher samaritana na história de Jesus tenha forçado os homens "fazedores de tradição" a transformá-las, cada uma, em tipo diferente de mulher escandalosa. Ao invés de honrar seu discipulado modelo, elas foram sexualizadas e transformadas mulheres fracas e pecadoras, necessitadas de redenção.

Mas me chama a atenção que muitas pessoas da Igreja institucional continuam fazendo o mesmo hoje com as mulheres e as pessoas LGBT. Ao invés de celebrar os dons extraordinários que as mulheres trouxeram para a Igreja ao longo dos tempos, nos é dito que a anatomia feminina cria um obstáculo intransponível que impede que Deus chame uma mulher ao sacerdócio.

Muitos santos, padres, religiosas, teólogos, ativistas da justiça social e ministros LGBT trouxeram e continuam trazendo inúmeras bênçãos para a Igreja. A maioria deles, no entanto, optaram por permanecer no armário, porque a hierarquia tem insistido que os desejos dos seus corpos, emoções e espíritos são intrinsecamente desordenados. Se eles saíssem, a Igreja institucional deixaria de celebrar os dons que eles oferecem à Igreja.

Ao invés de olhar honestamente para as inúmeras formas pelas quais as mulheres e as pessoas LGBT trazem a vida de Deus de forma mais plena à nossa Igreja e ao nosso mundo, a Igreja institucional nos reduz à nossa sexualidade e depois torna a nossa sexualidade a razão pela qual não podemos ser o "povo escolhido".

Em um momento em que a hierarquia católica romana está fixada sobre a definição de quem são as pessoas privilegiadas na Igreja (como os homens celibatários e os casais heterossexuais) e quem não tem o direito de compartilhar sacramentos como a ordenação e o casamento, as narrativas do Evangelho oferecem um crucial corretivo. Na história da mulher samaritana, por exemplo, Jesus desafia abertamente e escancara duas fronteiras: a fronteira entre o "povo escolhido" e o "povo rejeitado", e a fronteira entre masculino e feminino.

Ao ouvir as histórias do Evangelho, a Igreja primitiva entendeu o quão subversivas eram as palavras de Jesus e o quão escandalosa era a sua obra. Eles ouviam em narrativas após narrativas do Evangelho sobre discípulos improváveis, pessoas como Maria Madalena e a mulher samaritana, que viviam às margens da sociedade e que se tornaram modelos de fé.

A Igreja institucional parece estar trabalhando em hora extra para colocar barreiras para impedir que o povo de Deus participe da Igreja. As margens da Igreja parecem estar se estendendo a cada dia. É fácil se desesperar com toda essa exclusão. Nesses momentos, é útil lembrar as histórias dos Evangelhos. Jesus constantemente enfrentou rígidos líderes religiosos que estavam tão preocupados em manter a pureza e a ortodoxia que ou não podiam ver ou se recusavam a ver a encarnação de Deus bem no meio deles.

Enquanto os 12 discípulos permaneciam confusos sobre a identidade de Jesus e os líderes religiosos estavam ocupados tentando combatê-lo, foram os marginalizados que o reconheceram e ajudaram a trazer a vida de Deus mais plenamente para o mundo. Maria Madalena e a mulher samaritana são dois dos melhores exemplos desse paradoxo evangélico.

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