Casamentos gays: os EUA não são um modelo. Artigo de Massimo Faggioli

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26 Julho 2012

O impulso à legalização do same sex marriage nos EUA faz parte de uma cultura social e moral que vê no casamento uma parte essencial da pursuit of happiness que está na Constituição norte-americana: privar os cidadãos homossexuais do direito de casar é visto por muitos como uma obliteração do direito à felicidade.

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em Minneapolis-St. Paul, nos EUA. O artigo foi publicado no jornal Europa, 24-07-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O artigo de Cristiana Alicata publicado no jornal Europa no sábado passado delineava um desenvolvimento futuro para o casamento gay na Itália e tinha o mérito de olhar para a questão fora dos métodos táticos. Mas não devemos esquecer que o sacrossanto debate sobre o casamento e os direitos dos casais homossexuais na Itália se refere a uma cultura civil fundamental para o mundo ocidental: muitas vezes, de fato, especialmente por parte da ala mais "secular" do Partido Democrático, referimo-nos à questão tal como ela se desenvolveu nos EUA nos últimos anos, esquecendo, porém, as diferenças entre a Itália e os EUA.

O primeiro dado é que a aceleração e o amadurecimento da questão nos EUA nos últimos anos – não por último a "evolução" sobre a questão da posição pessoal de Barack Obama e do seu governo com relação à de George W. Bush – não é representativo do estado de amadurecimento da opinião pública norte-americana sobre a introdução do same sex marriage no ordenamento jurídico norte-americano.

Nos últimos anos, alguns Estados (Connecticut, Iowa, Massachusetts, New Hampshire, Nova York, Vermont) introduziram o casamento entre homossexuais em seu próprio ordenamento, mas muitos outros Estados começaram os procedimentos para constitucionalizar, mediante um referendo popular, uma definição do casamento como "união entre um homem e uma mulher". Não está claro como irá concluir, diante da Suprema Corte, essa batalha política e jurídica.

O segundo dado é que a cultura norte-americana relativa aos direitos dos gays se torna uma força motriz para a luta pelos direitos civis dos negros e, antes desta, da Guerra Civil norte-americana, o verdadeiro embrião de todas as lutas pelos direitos nos EUA. A proibição do casamento homossexual é combatido hoje em nome da luta do civil rights movement contra a proibição dos casamentos mistos entre brancos e negros. Não por acaso a Carolina do Norte, em maio passado, mudou a sua própria Constituição para vetar os casamentos homossexuais, assim como a emendou ainda em 1875, a fim de "proibir os casamentos entre um branco e um negro, e entre um branco e uma pessoa com descendentes de cor até a terceira geração".

Em outras palavras, nos EUA, os direitos (também matrimoniais) dos gays são vistos como um espelho do status dos direitos dos cidadãos em geral, e o movimento gay há muito deixou de ser visto como um "lobby" em exclusivo favor dos gays.

O terceiro dado é que a luta pelos direitos, também matrimoniais, dos gays nos EUA ganhou importância nos últimos 50 anos também graças à necessidade de se contrapor a uma cultura religiosa e teológica que assume a homossexualidade como "abominação", assim como ela é definida na Bíblia judaica. Não por acaso, nos EUA, um dos videocliples mais populares do YouTube sobre a questão homossexual é o do presidente da série de TV The West Wing, Jed Bartlet, que demole os argumentos teológicos contra a homossexualidade, condenada pelos zelotas dos nossos dias com base no mesmo livro do Antigo Testamento que legisla sobre a venda das próprias filhas como escravas e sobre a pena de morte para quem ousa trabalhar no dia de Sábado.

A hostilidade à homossexualidade e aos homossexuais na Itália nunca se definiu em termos diretamente bíblicos e teológicos, mesmo não fugindo de temas de "defesa da civilização" que se aproximam mais do racismo do que do fundamentalismo religioso.

Outra diferença com relação ao caso italiano é a cultura matrimonial de referência. O impulso à legalização do same sex marriage nos EUA faz parte de uma cultura social e moral que vê no casamento uma parte essencial da pursuit of happiness que está na Constituição norte-americana: privar os cidadãos homossexuais do direito de casar é visto por muitos como uma obliteração do direito à felicidade. O pedido de legalização do casamento homossexual nos EUA faz parte dessa cultura do matrimônio e da família muito forte nos EUA: o movimento gay se matrimonializou abandonando certos traços da cultura de 1968 e libertina, entrando, a seu modo, no sistema moral norte-americano dominante.

Alguns conservadores iluminados, como David Brooks, acolheram essa evolução do movimento gay. Mas será muito mais difícil fazer com que o same sex marriage seja aceito por um país inteiro, nos EUA mas não só.

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