''Somos uma Igreja de pecadores''. Entrevista com o cardeal Rainer Maria Woelki

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13 Julho 2012

"O problema ainda é a corrupção", afirma o cardeal alemão Rainer Maria Woelki em uma recente conversa com o cardeal sobre o Vatileaks, a revolta dos párocos e a questão dos divorciados.

A reportagem é de Giovanni Di Lorenzo e Patrick Schwarz, publicada na revista Die Zeit, 08-07-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Tendo 55 anos, o senhor é o mais jovem dos cardeais. Quando o senhor esteve pela primeira vez em Roma?

A primeira vez? Eu devia ter uns 16 anos.

Lá também o senhor era muito jovem...

Na realidade, foi uma promessa do nosso capelão. Eu estava em uma escola pública em Colônia-Mülheim, onde ainda havia a missa na escola, mas que estava prestes a ser removida. O nosso professor de religião disse que, se a missa da escola fosse mantida, nós faríamos uma viagem a Roma. Mais tarde, depois dos anos da escola, ocorreram outras viagens a Roma. Em uma dessas ocasiões, eu também encontrei Joseph Ratzinger pela primeira vez.

Como isso aconteceu?

O cardeal frequentemente celebrava a Santa Missa no Campo Santo, onde vivem os estudantes de teologia alemães. O nosso capelão tinha estudado com ele e me apresentou.

Hoje o Papa está sob pressão como raramente aconteceu antes. A propósito dos recentes acontecimentos relacionados à publicação de documentos confidenciais e a somas de dinheiro indevidamente desviados, a dimensão do escândalo o surpreende?

Impressiona-me como o papa diz claramente que aqui é necessário ter conhecimento das coisas. Onde há coisas negativas, ele quer descobri-las e mudá-las. Para mim, é um sinal de força.

Mas não lhe assusta o tamanho do escândalo?

Onde quer que haja pessoas humanas, naturalmente há fraqueza, infelizmente também na Igreja. O que dizemos também devemos tentar viver. É ainda mais lamentável se, no âmbito da Igreja, um banco atua mal ou até mesmo admite a lavagem de dinheiro sujo ou irregularidades financeiras. Isso não deve ter espaço entre nós.

Mas a lavagem de dinheiro sujo é um crime grave.

Certamente, e estou muito feliz porque, em Roma, no último ano, houve uma renovação pedida pelo papa. E, ao contrário, não temos o direito de defender que a história da Igreja é isenta dessas coisas. Infelizmente, isso sempre existiu.

Isso não melhora a situação!

Certamente não, mas também devemos manter o sentido da perspectiva e do conjunto. E a Igreja sempre foi consciente da falibilidade dos seus membros. Daí vem a velha expressão "Igreja de pecadores, Igreja da graça".

O senhor descreve o problema segundo categorias muito humanas. Mas não estamos vivendo uma falha institucional da Cúria, do Vaticano?

Não sei se podemos dizer isso. Naturalmente, uma falta de cooperação ou de relações dissimuladas ou às vezes cruéis são piores quando ocorrem dentro da Igreja, já que nós a representamos. Por outro lado, evidentemente, é fácil que as pessoas se deixem atrair pela ganância de dinheiro, de carreira, de poder...

Um bispo encarregado pelo papa no espaço de um ano mudou um déficit de vários milhões em um ativo, apenas fazendo verificações relativas à aceitação ou à concessão de privilégios nos contratos públicos que são firmados pelo Vaticano.

Não posso julgar esse elemento apenas considerando o efeito final. Eu não faço parte dos órgãos de supervisão financeira da Santa Sé. Aceitação ou concessão de privilégios ou corrupção, sem dúvida, são um problema que também pesa muito sobre nós, na Alemanha.

Mas, na Alemanha, algo assim seria impensável!

Eu não me arrisco a dizer que isso seria impensável na Alemanha. Dentro ou fora da Igreja, há um compromisso pela vigilância profissional, e, mesmo assim, muitas vezes ainda se lamentam comportamentos negativos de indivíduos ou o crime organizado. A corrupção continua sendo um problema. Na Igreja, trabalhamos o melhor que podemos para superá-la.

O senhor tem a impressão de que o Papa Bento XVI tem opositores na Cúria?

Eu não saberia dizer. Não sou cardeal há tempo suficiente.

Na Cúria, diz-se que o papa está propenso a deixar o cargo. O senhor entenderia isso?

Humanamente, eu certamente posso entender, é claro. Meu pai vai completar 84 anos este ano...

Um ano mais novo do que o Papa Bento XVI...

... e a minha mãe, 83 anos. Eu sei quais dificuldades estão ligadas à idade. Admiro ainda mais o papa por aquilo que ele faz e como o faz, e com que força e com que espírito ele é anunciador do evangelho. O fato de ele ter momentos de cansaço eu entendo profundamente. Isso também acontece comigo.

Mas sua carreira está apenas começando!

Sim, mas se eu tivesse compromissos desde a manha, à noite eu estaria exausto. Posso dizer o mesmo ainda mais para um homem de 85 anos.

O senhor se desconcerta perante o turbilhão de escândalos em Roma?

Choca-me mais o fato de a Igreja Católica perder confiança e credibilidade. Mas eu também sei que há iniciativas fantásticas e atividades exemplares em todo o mundo. Também podemos fazer simplesmente o que nós tentamos fazer com relação aos casos de abuso sexual: podemos apenas iniciar um processo de "autopurificação". E, diante dessas situações, devemos reconhecer que há culpa e que há culpados.

Para a sua Igreja, o Vatileaks é tão negativo quanto a crise dos abusos sexuais?

Não, eu considero a crise dos abusos sexuais muito pior. O Vatileaks e as questões financeiras indicam a existência de um problema, sem dúvida. É muito pior se uma criança é submetida a abusos e se, por causa do que lhe foi feito, ele sofre por toda a vida.

A seu ver, existe um bloqueio às reformas na Igreja Católica?

Sempre houve um bloqueio às reformas.

Como?

Uma vez, Mahatma Gandhi foi questionado por dois missionários por que a sua mensagem era passada com tanta dificuldade. E Gandhi disse: vocês não emanam suficientemente o perfume do Sermão da Montanha! Também se poderia dizer: quem se aproxima de vocês sente que vocês são muito diferentes de Jesus Cristo. Esse é o verdadeiro bloqueio às reformas. Mas talvez vocês não queriam me perguntar isso... (risos).

Na verdade, pensávamos mais no Katholikentag [grande encontro dos leigos católicos alemães]. O senhor foi um dos poucos bispos presentes naqueles dias que se declararam favoráveis aos pedidos de reforma da base. Está equivocada a impressão de que há bispos que têm medo dos leigos?

Nada menos do que três cardeais, o núncio papal, e um total de 17 bispos locais: havia muitos bispos no Katholikentag, mesmo em comparação com os Katholikentagen anteriores, pelo que me disseram, porque para mim foi a primeira vez.

Os leigos alemães, em comparação com a Igreja universal, podem ser às vezes muito mais implacáveis.

Eu vejo isso de forma diferente. Mesmo os espíritos críticos são, acima de tudo, para mim, cristãos que amam a sua Igreja e que se preocupam: eles sofrem pela Igreja ou por certas posições, mas estão na Igreja e lutam pela Igreja. Mas não posso negar que, como bispo, pode ser cansativo enfrentar tudo isso.

Do Katholikentag, citou-se uma afirmação sua que lhe provocou muitos problemas. Sobre as uniões homossexuais, o senhor disse: "Eu posso imaginar que, onde pessoas assumem responsabilidades uma pela outra e vivem em uma relação homossexual estável, essa relação deve ser considerada de forma semelhante à das uniões heterossexuais". O senhor confirma essa frase?

"Evitar-se-á, em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta", diz o Catecismo sobre as pessoas de tendência homossexual. Se levo isso a sério, não posso ver as relações homossexuais exclusivamente como "contrários à lei natural", como diz o Catecismo. Eu também tento perceber que essas pessoas assumam estavelmente uma responsabilidade uma pela outra, que elas se prometem fidelidade e que querem cuidar uma da outra, embora eu não possa compartilhar esse projeto de vida. O plano de vida em favor do qual nós nos situamos como Igreja Católica é o matrimônio sacramental entre um homem e uma mulher, que é aberto à transmissão da vida. Foi isso que eu disse no Katholikentag, em Mannheim, imediatamente antes da afirmação citada por você.

Enquanto isso, não há só leigos recalcitrantes, mas também verdadeiras revoltas de párocos, como na Áustria, que escreveram a palavra "desobediência" nas suas bandeiras.

Um apelo à desobediência não leva a lugar nenhum, nem humana, nem espiritualmente. Na ordenação, todo padre fez seu voto de obediência e também aceitou muito claramente anunciar doutrina da Igreja.

Na Alemanha, agora, quase 200 párocos pedem que ao menos se admitam os divorciados à Eucaristia. Você pode simplesmente ignorar o seu próprio povo?

O arcebispo Zollitsch convidou os seus padres friburguenses para o diálogo. A pastoral dos divorciados em segunda união não é um problema importante só para os padres, mas também para os bispos.

Mas a sugestão não seria muito óbvia: os casamentos podem falhar, mesmo com a melhor boa vontade?

O fato de que a vida humana possa falhar é uma coisa. Por outro lado, nisso nos mantivemos ao mandamento de Jesus: que o homem não separe o que Deus uniu. Além disso, vejo, por exemplo, que a Igreja Ortodoxa encontrou um caminho, de certa forma.

Lá, um segundo casamento é permitido.

A Igreja Ortodoxa também defende a indissolubilidade do casamento e lá também só o primeiro casamento é sacramentalmente válido e reconhecido como matrimônio eclesiástico. Uma separação e um segundo casamento, porém, são tolerados. O que permite, em certas condições, a admissão aos sacramentos.

Esse poderia ser um modelo para a sua Igreja?

Devemos falar a respeito. Além disso, para a Igreja Ortodoxa, o problema também não é fácil de resolver. Na Igreja Católica Romana, há a possibilidade da anulação do matrimônio. Para muitas pessoas, essa já é uma possibilidade para um recomeço. Eu esperaria que se tornassem mais claras as possibilidades pastorais que estão nesse procedimento do direito canônico. Devemos encontrar uma forma – sem demolir a doutrina – para que as pessoas possam viver.

Por que a Igreja dificulta tanto?

Talvez seja um problema de que, hoje, na Igreja, tudo deve ocorrer sempre de modo ultracorreto. Também deve ser possível sermos católicos sem sermos sempre examinados nos mínimos detalhes.

A Igreja não pode disciplinar sempre as ovelhas rebeldes. Mas, ao contrário, o fiel deve aceitar que a sua Igreja não lhe dê uma carta branca em tudo?

Sim, trata-se da consciência de poder se pôr como fiel em uma tensão entre proximidade e distância com relação à própria Igreja. Hoje, por parte da Igreja, talvez soframos às vezes de um falso perfeccionismo.

Horst Seehofer [primeiro-ministro do estado da Baviera] voltou a se casar. Quando ele foi se encontrar com o papa pelo seu 85º aniversário com uma delegação da Baviera, o Papa Bento XVI lhe deu a Comunhão.

Esse é um bom exemplo do que eu quis dizer com estas palavras: quem sou eu para avaliar os aspectos "católicos" da vida de Horst Seehofer? Eu não estou informado a respeito, nem mesmo cabe a mim. Eu não sou o seu confessor, nem o advogado competente da Igreja, mas todos esperam de mim um juízo moral e canonicamente impecável. O papa certamente agiu como faria todo pastor que não quer rejeitar ninguém.

Em entrevista à Die Zeit, o presidente da Conferência Episcopal Alemã, Robert Zollitsch, disse acreditar que as coisas irão mudar no modo de tratar os divorciados em segunda união enquanto ele ainda estiver vivo. O senhor compartilha o seu prognóstico?

Às vezes, os divorciados em segunda união conseguiram realizar na sua segunda relação o que, no primeiro casamento, deu errado. Com os seus filhos, formam uma família e tentam viver a fé, até onde as circunstâncias o permitem. Estão comprometidos com as nossas paróquias e fazem muito bem ali. Mas também temos a responsabilidade com relação à palavra de Jesus

Qual?

Justamente no Encontro Mundial das Famílias em Milão, o papa chamou a atenção para o fato de que a exclusão dos divorciados em segunda união dos sacramentos é uma grande dor da Igreja atual. Essas pessoas fazem parte da Igreja, mesmo que não possam receber a Comunhão.

O senhor dá a comunhão aos divorciados em segunda união?

(Hesita) Como bispo, geralmente eu não sei em que situação de vida se encontra o indivíduo que eu tenho diante de mim.

Mas o senhor dá a Comunhão aos divorciados em segunda união?

Como padre, eu tenho que presumir que a pessoa que me pede a Eucaristia o faz com coração puro. Eu não devo perder de vista aqueles que, em reconhecimento da ruptura do seu casamento, se preocupam em viver segundo a doutrina da Igreja e não recebem a Comunhão. Desse modo, eles dão um forte testemunho de fé.

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