Mulheres indígenas são vítimas de descaso no Canadá

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12 Julho 2012

A Autoestrada 16 no Canadá tornou-se conhecida como "Rodovia das Lágrimas" porque dezenas de mulheres desapareceram ao longo dela. Muitas dessas mulheres foram assassinadas, a maioria delas pertencente aos povos indígenas, que são conhecidos no Canadá como "First Nation" ("Primeira Nação"). A polícia demonstrou pouco interesse em resolver esses crimes.

A reportagem é de Sebastian Moll, publicada no Der Spiegel e reproduzida pelo Portal Uol, 11-07-2012.

A paisagem da nossa van poderia ter saído de um panfleto turístico. Há picos de montanhas cobertos de neve, florestas tingidas de cores outonais, e perto da estrada flui um riacho vindo das montanhas no qual pescadores capturam salmões.

À medida que nós entramos mais nesse cenário idílico, o estado de espírito da nossa motorista, Gladys Radek, fica mais sombrio. Ela toca sem parar a música de Patsy Cline "If I Could See the World (Through the Eyes of a Child)" ("Se Eu Pudesse Ver o Mundo -Através dos Olhos de uma Criança"). A música é uma balada sobre a saudade de uma infância como aquela que Gladys teve.

Gladys nasceu há 56 anos na reserva dos índios Gitxsan, na província de Colúmbia Britânica, mas ela jamais fica com saudade da sua terra natal quando dirige pela Autoestrada 16, a "Rodovia das Lágrimas".

"Há fantasmas demais aqui", diz ela.

Os fantasmas são as mulheres que desapareceram sem deixar nenhum traço ao longo de um trecho de 700 quilômetros de extensão da rodovia. As estatísticas policiais registram um total de 18 mulheres assassinadas, 17 das quais eram índias, ou "First Nation", conforme é denominada grande parte da população indígena do Canadá. Porém, a Anistia Internacional acredita que o número de vítimas seja consideravelmente maior. Nem um só destes casos foi solucionado.

Trancada durante o dia, e vítima de abusos à noite

Isso não surpreende Radek. Esse tipo de coisa diz respeito à experiência pessoal dela. A vida de uma mulher indígena como ela não conta muita aqui no norte do Canadá, a cerca de 200 quilômetros da fronteira com o Alasca. Para ela, está claro o que deve ter acontecido: as mulheres foram capturadas nos trechos entre as reservas, as minas de euro e os acampamentos de madeireiras, e, a seguir, estupradas, mortas e jogadas à beira da estrada.

Nós chegamos em Prince Rupert, onde a Rodovia das Lágrimas alcança o Golfo do Alasca. Índios desempregados podem ser vistos em lanchonetes caindo aos pedaços. Quase todas as indústrias de processamento de pescado que no passado empregavam muita gente na cidade foram fechadas. Simplesmente havia concorrência demais do Japão.

Radek sente-se desconfortável. Ela não gosta deste lugar. Quando ela era pequena, o seu pai adotivo passava o verão pescando no porto. Radek passava o dia trancada sob o convés da embarcação até ele vir em busca dela, quando caía a noite.

Foi aqui, na entrada da cidade, na Autoestrada 16, que a sobrinha dela, Tamara, desapareceu cinco anos atrás. Ela tinha 18 anos de idade. Agora ela é um fantasma.

A mão de Vicky Hill desapareceu em 1978

Vicki Hill, 35, morou a vida inteira em Prince Rupert. Ela traz um álbum com fotografias e recortes de jornal para a nossa reunião no gorduroso restaurante chinês na rua principal da cidade. Os álbuns são tudo o que restou da mãe dela, que desapareceu na autoestrada no dia 26 de março de 1978, quando Vicki Hill tinha apenas seis meses de idade.

A fotografia em um dos artigos mostra uma bela mulher índia usando um vestido de verão bonito. Três dias após tirar a foto, ela desapareceu da cidade, e o seu corpo foi encontrado a 30 quilômetros de distância. O corpo estava despido, jogado em uns arbustos, a algumas centenas de metros da rodovia.

O atestado de óbito diz que a causa da morte foi "pneumonia". Mas a última linha do documento contradiz essa conclusão. Lá a afirmação é de que houve um "homicídio". Mesmo assim, não foi conduzida nenhuma investigação. O corpo foi enterrado no cemitério de Prince Rupert, sem ter sido sequer identificado por uma lápide.

Quem descobriu o corpo? Quem redigiu o atestado de óbito contraditório? Por que ninguém investigou a morte dela? Vicki Hill deseja obter respostas para essas questões. Ela quer livrar-se da sensação de que alguém que caminha pelas ruas de Prince Rupert possa ser o assassino. No entanto, ela está colidindo com uma verdadeira muralha de silêncio.

Cada resultado só geraria questões desconfortáveis

A viagem de Prince Rupert a Vancouver, onde nós nos encontramos com o detetive particular Ray Michalko, dura dois dias. Michalko já foi membro da Real Polícia Montada Canadense. Seis anos atrás, a Polícia Montada criou uma comissão especial para investigar os casos da Autoestrada 16. Eles investiram 11 milhões de dólares canadenses na investigação dos assassinatos, mas não tiveram nenhum sucesso.

Michalko não se surpreende com isso. "Eles colocaram 50 pessoas em frente a telas de computador e ficaram esperando que um assassino em série aparecesse de repente na frente deles", critica o detetive. Dados foram coletados e perfis foram criados. Porém, segundo Michalko, a única coisa que não está sendo feita é um trabalho de investigação real.

Ele diz que não pôde mais ficar parado olhando. É por isso que ele atualmente dirige pela Autoestrada 16, batendo em portas e fazendo perguntas. Michalko duvida que a comissão especial deseje chegar a resultados concretos. Cada resultado só geraria questões desconfortáveis.

Foi isso o que aconteceu durante o julgamento de Robert Pickton, que foi condenado à prisão perpétua em Vancouver, em 2007. Quando os policiais fizeram uma busca por armas ilegais na fazenda de porcos de Pickton nos arredores de Vancouver, eles descobriram os restos mortais de 49 mulheres indígenas.

Pickton fazia filmes pornográficos com as mulheres e a seguir as executava como os porcos da sua fazenda. Mas o julgamento faz também com que surgissem questões relativas à polícia e ao sistema judicial. Como foi possível que os crimes de Pickton pudessem ter ficado tanto tempo sem serem descobertos? Por que ninguém procurou pelas mulheres desaparecidas?

Houve uma investigação pública sobre o caso Pickton, e novos detalhes sobre corrupção envolvendo membros da Polícia Montada e funcionários do judiciário emergiram diariamente. Michalko acredita que a comissão especial tenha sido criada para que o escândalo em torno do caso Pickton não se estendesse aos casos da Autoestrada 16.

Michalko acredita que as situações sejam similares. Para ele, ambos os casos revelam o lado negro da Colúmbia Britânica. "Quem refletir sobre os problemas que ocorrem lá no norte vai ficar escandalizado", diz ele. "É insuportável constatar como o nosso povo é obrigado a viver."

Na rota de Prince Rupert a Prince George nós passamos por Moricetown, a reserva onde Gladys nasceu. A mãe dela ainda mora aqui em uma das casas pré-fabricadas que podem ser obtidas em qualquer loja de material de construção. A reserva está cheia de casas desse tipo. A rua enlameada que conecta as diversas casas está repleta de lixo – televisores, carros velhos e latas de cerveja.
Quando Peggy, a irmã de Gladys, abre a porta, um odor de mofo sai da casa. Gladys explica mais tarde que Peggy passou dois anos na prisão por agredir um homem que tentava estuprá-la. A mãe dela está sentada em silêncio em um sofá esburacado, com um olhar desligado. Os cabelos delas caem em tranças oleosas, e o seu olho cego vasculha sinistramente a sala.

"É insuportável constatar como o nosso povo é obrigado a viver", desabafa Gladys, quando nós retornamos uma hora mais tarde à Autoestrada 16.

É quase um milagre que ela tenha escapado dessa situação de miséria. Os pais dela estavam quase sempre bêbados. Quando o irmão caçula dela morreu de fome, os seus pais se encontravam em um bar. Na época, Gladys tinha cinco anos de idade. Foi então que ela foi retirada da guarda dos pais.
Mas os seus pais adotivos também não lhe deram uma infância agradável. O seu pai adotivo começou a estuprá-la quando ela tinha oito anos de idade. Aos 13 anos, ela teve a coragem para denunciá-lo à polícia da reserva. A resposta dos policiais foi dar de ombros e desconhecer a denúncia. Depois disso, ela fez as malas e fugiu.

Gladys poderia facilmente ter se tornado uma das desaparecidas da Rodovia das Lágrimas. Mas ela sobreviveu, mudou-se para Vancouver e teve cinco filhos. Atualmente ela trabalha como porta-voz da organização "Missing and Murdered Women" ("Mulheres Desaparecidas e Assassinadas"). O grupo dela calcula que haja 500 mulheres desaparecidas e assassinadas no Canadá.

"Alguém precisa conceder uma voz às várias famílias que não sabem o que aconteceu com os seus entes queridos", diz ela. "O pior é a sensação de estarmos sozinhos na nossa dor".

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