Müller e a Teologia da Libertação

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Por: André | 05 Julho 2012

Por ocasião da nomeação do novo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o bispo alemão Gerhard Ludwig Müller, foi citado o seu vínculo com Gustavo Gutiérrez, um dos pais da Teologia da Libertação. Divulgou-se a ideia de que João Paulo II e o então cardeal Joseph Ratzinger, prefeito do ex-Santo Ofício, condenaram sem trégua esta teologia, razão pela qual a relação entre um bispo e um teólogo da libertação (que, além disso, nunca foi condenado por Roma) seria um elemento “suspeito”.

A reportagem é de Andrea Tornielli e está publicada no sítio Vatican Insider, 03-07-2012. A tradução é do Cepat.

Na realidade, a Instrução sobre alguns aspectos da “Teologia da Libertação”, publicada pela Congregação para a Doutrina da Fé em 06 de agosto de 1984, advertia sobre os riscos e os desvios da Teologia da Libertação que adotava a análise marxista da realidade. Eram os anos em que, no “Continente da esperança”, havia ditaduras e uma parte da Igreja se havia declarado do lado de alguns movimentos de libertação de caráter marxista, embora a viagem do Papa Wojtyla a Puebla, em 1979, para a reunião dos bispos do Celam, tivesse marcado uma mudança. Eram os anos Reagan, e os Estados Unidos estavam combatendo com todos os seus recursos contra o “império do mal” soviético: uma batalha crucial estava sendo travada justamente na América Latina. No entanto, nem toda a Teologia da Libertação (que nasceu na América Latina durante os anos pós-conciliares) estava na mira da Congregação, assim como tampouco sua “opção preferencial pelos pobres”. Era apenas a análise marxista que alguns teólogos utilizavam que se condenava.

O documento falava, efetivamente, da “tentação de reduzir o Evangelho da salvação a um evangelho terrestre”, com o risco de “esquecer o ingente trabalho desinteressado desenvolvido por cristãos, pastores, sacerdotes, religiosos ou leigos”. Rechaçava os “a priori ideológicos” que se usavam como pressupostos para a leitura da realidade social por parte de uma certa teologia, que apresentava a luta de classes como “uma lei objetiva, necessária” e fazia crer que “entrando em seu processo, ao lado dos oprimidos, se ‘faz’ a verdade, se age ‘cientificamente’. Em consequência, a concepção da verdade anda de mãos dadas com a afirmação da violência necessária, e por isso com a do amoralismo político”. A eucaristia se transformava em “celebração do povo em luta”, identificava-se “o Reino de Deus e seu devenir com o movimento da libertação humana”.

Foi justamente com a publicação desta Instrução que o cardeal Joseph Ratzinger, que havia chegado alguns anos antes ao dicastério doutrinal da Santa Sé, começa a ser identificado como o “inimigo” dos teólogos mais abertos, o “assassino” das esperanças que o Concílio havia suscitado nos países pobres. E o que vem da Igreja católica wojtyliana se faz passar como sinal de apoio aos regimes anticomunistas que governam diferentes estados da região latino-americana.

Contudo, lendo integralmente esse primeiro documento sobre a Teologia da Libertação, descobre-se passagens que demonstram o contrário. “Esta advertência não deve, de modo algum, ser interpretada como uma desaprovação de todos aqueles que querem responder generosamente e com autêntico espírito evangélico à ‘opção preferencial pelos pobres’” (p. 4).

“Hoje, mais do que nunca – continua o documento –, é necessário que a fé de numerosos cristãos seja iluminada e que estejam decididos a viver a vida cristã integralmente, comprometendo-se na luta pela justiça, pela liberdade e pela dignidade humana, por amor aos seus irmãos, por amor aos seus irmãos deserdados, oprimidos ou perseguidos. Mais do que nunca, a Igreja propõe-se condenar os abusos, as injustiças e os atentados à liberdade, onde quer que eles aconteçam e quaisquer que sejam seus autores, e lutar, com os seus próprios meios, pela defesa e promoção dos direitos do homem, especialmente na pessoa dos pobres” (p. 5).

A Instrução, além disso, defende que “o escândalo das gritantes desigualdades entre ricos e pobres já não é tolerado” (p. 7), e que “chamar a atenção para os graves desvios que algumas ‘teologias da libertação’ trazem consigo não deve, de modo algum, ser interpretado como uma aprovação, ainda que indireta, aos que contribuem para a manutenção da miséria dos povos, aos que dela se aproveitam, aos que se acomodam ou aos que ficam indiferentes perante esta miséria. A Igreja, guiada pelo Evangelho da Misericórdia e pelo amor ao homem, escuta o clamor pela justiça e deseja responder com todas as suas forças” (p. 38).

Ao final do documento, não falta inclusive uma referência ao papel dos bispos, particularmente significativo para os expoentes da hierarquia católica considerados muito “suaves” com o poder, quando não parte do mesmo. “É frequente dirigir aos defensores da ‘ortodoxia’ a acusação de passividade, de indulgência ou de cumplicidade culpáveis frente a situações intoleráveis de injustiça e de regimes políticos que mantêm estas situações. A conversão espiritual, a intensidade do amor a Deus e ao próximo, o zelo pela justiça e pela paz, o sentido evangélico dos pobres e da pobreza, são exigidos a todos, especialmente aos pastores e aos responsáveis. A preocupação pela pureza da fé não subsiste sem a preocupação da dar a resposta de um testemunho eficaz de serviço ao próximo e, em especial, ao pobre e ao oprimido” (p. 44).