'O futuro que queremos' continua incerto em meio a promessas vagas

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • "O pior de tudo em Manaus é a sensação de impotência"

    LER MAIS
  • “Pelo amor de Deus, nos enviem oxigênio”, apelam os bispos do Amazonas e Roraima

    LER MAIS
  • O testamento de Dom Jacques Noyer, bispo francês - " “O celibato eclesiástico é uma falsa aventura"

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


22 Junho 2012

O ar-condicionado ligado à plena carga criava uma atmosfera ártica em diversos cantos do Riocentro - e inacreditavelmente insustentável. Este clima desconfortável e pouco estimulante marcou a Rio+20. A conferência das Nações Unidas sobre desenvolvimento sustentável caminhava para um final melancólico ontem, onde ninguém parecia satisfeito e todos pareciam conformados com o futuro incerto que "O Futuro que Queremos", o principal documento da conferência, projeta para diante.

A reportagem é de Daniela Chiaretti e publicada pelo jornal Valor, 22-06-2012.

Agora depende de o comprometimento dos países de levar em frente, por exemplo, uma nova medida econômica que considere componentes ambientais no cálculo do PIB. Até 2015, se tudo der certo, o mundo pode ter objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS) que tracem metas para energia, água, cidades, oceanos. Pode, também, dar força a um organismo ambiental competente, o Pnuma, que tem 40 anos, mas é tratado pela comunidade internacional como um órgão de segunda categoria no sistema da ONU.

Os governos se comprometeram a tornar concreto um programa de mudança nos padrões de produção e consumo que levou 8 anos para ficar pronto - mas que poderia ter sido aprovado antes da Rio+20, não fosse uma citação, no prólogo, aos Territórios Ocupados, o que fez com que fosse barrado, na Assembleia Geral das Nações Unidas, há alguns meses. Na Rio+20 ele saiu do papel.

"Esta conferência organizou muitos assuntos ambientais e de desenvolvimento que estavam orbitando", diz um diplomata brasileiro. "Ela abriu processos e é importante", continua. "Vamos voltar a conversar sobre este resultado em três anos", desafia.

Um negociador europeu diz que ficou claro, na atuação do Brasil, que "a presidente Dilma quer tirar da pobreza 50 milhões de pessoas, e nós entendemos isso." Depois, faz um mea culpa: "Não soubemos explicar que a economia verde é o melhor caminho para isso". A Europa, apoiada pelos EUA, insistiu que a conferência adotasse a ideia da economia verde - conceito controverso, visto com desconfiança pelo mundo em desenvolvimento. Poderia ser mais uma embalagem para vender, caro, produtos e tecnologias que os ricos têm e os pobres não, vocalizavam representantes da Bolívia, Venezuela, Cuba, Nicarágua.

Todos reconhecem que acomodar interesses de 193 países em temas que vão do uso dos recursos naturais à redução gradual do uso de combustíveis fósseis, da mudança nos padrões de consumo a regras para a exploração da biodiversidade em alto mar, não é tarefa fácil. Antes da conferência começar, muitos representantes de governos disseram que do Riocentro não ia sair nada - e agora jogam no colo do Brasil o desapontamento.

"Mas o Brasil atuou como um operador de consensos, não como um líder", alfinetou o negociador europeu. "Onde esteve a presidente do Brasil nos últimos três meses?" questionou outra negociadora. "Os diplomatas brasileiros são reconhecidamente competentes e vão até o limite. Mas quem define os limites, definiu por baixo", prosseguiu um observador.

A Rio+20 teve momentos de truculência e constrangimento. Em uma sessão, a negociadora da Suíça manifestou sua oposição a um determinado ponto. Os negociadores brasileiros tinham pressa em fechar o texto. Ela se opunha. "Então será a primeira vez que teremos um texto sem a participação suíça", disse o brasileiro.

Na última rodada de negociações, em Nova York, um alto executivo da ONU envolvido no processo criticou a falta de liderança do Brasil. A presidente Dilma teria ligado ao secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon e pedido a demissão do sujeito. Outro episódio nesta linha teria sido a chamada que a presidente teria dado a Ban Ki-moon, que abriu a cúpula com um discurso dizendo que faltou ambição ao texto final, e ontem se mostrou subitamente mais entusiasmado.

O governo brasileiro manifestou claramente sua insatisfação com as críticas que teve que escutar por fechar um texto sem ambição. Muitos diziam que o Brasil se escondeu atrás dos Estados Unidos na questão do Pnuma. Os países africanos queriam fazer uma alteração editorial no texto: mudar o nome do Pnuma, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, para Organização das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Seria uma modificação semântica e simbólica. Os EUA não quiseram conversa: "Se o texto for reaberto, principalmente na questão do Pnuma, abriremos outras questões", ameaçou o chefe da delegação americana, Todd Stern, na plenária que aprovou o documento.

Em muitos momentos o Brasil se viu diante da opção de a conferência ficar sem um documento final, ou com um documento aguado. Na terça-feira, o ministro das Relações Exteriores Antonio Patriota declarava qual havia sido a escolha do Brasil, ao dizer que iria se conseguir o texto "possível."

Uma piada era contada nos corredores do Riocentro nos últimos dias da conferência. "O Brasil queria ter um texto antes da chegada dos chefes de Estado. E ponto", comenta um negociador. "Foi uma sorte que tenha terminado logo, assim não perdemos mais do que foi acertado em 1992". Só em alguns anos dará para saber se a Rio+20 ficou só na promessa.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

'O futuro que queremos' continua incerto em meio a promessas vagas - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV