Vaticano, lugar de fraqueza e de grandeza. Entrevista com Andrea Riccardi

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28 Mai 2012

"No Vaticano, houve casos de interseção entre dinheiro, espionagem e imprensa frequentemente. Nos anos do fascismo, havia até quem organizava as agências de espionagem e informativas. Hoje, precisamos entender as motivações desses 'corvos', se a duplicidade desses senhores se deve a razões econômicas, ou a uma verdadeira batalha eclesiástica, ou contra a Igreja".

A reportagem é de Marco Ansaldo, publicada no jornal La Repubblica, 27-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Andrea Riccardi não se admira perante o duro confronto em andamento nos últimos meses no Vaticano. Como historiador da Igreja de longo percurso (foi recém-lançado o seu último livro Dopo la paura la speranza, publicado pela editora San Paolo), ele faz aqui algumas reflexões sobre os úlimos acontecimentos no Vaticano.

Nota da IHU On-Line: Andrea Riccardi é fundador da Comunidade Santo Egídio e, atualmente, ministro do governo italiano.

Eis a entrevista.

Ministro Riccardi, o que acontece no Vaticano?


Todos ficaram surpresos com o episódio dos "corvos", e as pessoas ficaram naturalmente tocadas pelo vazamento de notícias. Mas o historiador sabe que, no Vaticano, em diversas temporadas, no século XX, se adensaram as atenções e as pressões mais diversas. Isso porque o Vaticano, diante dos olhares indiscretos, sempre foi uma realidade frágil pela sua natureza geográfica, embora se tenha insistido tanto sobre o seu poder. Por outro lado, no entanto, ele foi e continua sendo uma realidade muito interessante para os poderosos deste mundo.

Durante o fascismo, por exemplo, o que aconteceu?

A Ovra, a polícia secreta, espiava constantemente os Palácios Apostólicos. E nós hoje temos as cartas sobre esses informantes, que eram eclesiásticos, ou leigos católicos. Como por exemplo  Mons. Pucci, que girava o mundo vaticano e passava depois as suas informações à polícia fascista. Um outro exemplo, e estamos em meados dos anos 1930, é a do Mons. Benigni, que havia trabalhado na Segunda Seção da Secretaria de Estado (a das relações com o exterior), que organizou uma rede de informações e espionagem.

Faziam o seu jogo duplo, enfim.

Trabalhavam para a Igreja e para outros clientes. Montini, quando tinha o cargo de substituto [vice-secretário] da Secretaria de Estado, foi acusado junto ao regime por eclesiásticos de ser antifascista e de organizar a resistência entre os católicos.

E, depois, com a guerra?

O cenário era dramático. Os nazistas tinham muitos contatos e se infiltraram no Vaticano. Kappler fazia com que a Santa Sé fosse controlada por um grande número de informantes, e assim o Serviço Militar Italiano tinha o controle técnico sobre a sua comunicação.

Mas como o Vaticano reagia?

Montini e Pio XII sentiam o sofrimento de estarem sob cerco. É uma parte secreta da sua dor. Mas os Muros Vaticanos não protegiam. Essas figuras infiéis de eclesiásticos existiam naquela época e existem desde sempre.

E depois da guerra?

Perguntávamo-nos porque os bispos clandestinos na União Soviética eram sistematicamente encontrados. Descobrimos, então, que Edward Prettner Cippico, um arquivista de documentos para a Rússia, teria favorecido o vazamento de cartas para os soviéticos. Ele depois foi perdoado por João XXIII e morreu em 1983.

E com Roncalli?

Descobriu-se que os ataques na imprensa contra a sua linha eram atribuíveis aos homens do chamado partido romano.

Com a chegada de Wojtyla, então, o capítulo é muito amplo...

Digamos aqui que os primeiros 10 anos de João Paulo II foram cheios de infiltrações comunistas.

Mas o Vaticano, então, é uma realidade fácil de penetrar?

Também por causa da pressão midiática e política, a condição dessa ilha é de ser ao mesmo tempo frágil e decisiva para a unidade do mundo católico. O Vaticano é uma instituição que não tem barreiras de proteção.

Mas e a que esses vazamentos de documentos visam hoje?

Precisamos nos perguntar se eles se devem a razões econômicas, ou a uma batalha eclesiástica, ou contra a Igreja. Tudo isso, novamente, para enfraquecer o papa. Porque, no Vaticano, logo brota o estereótipo-Borgia, isto é, o lugar dos venenos. Enquanto, na realidade, ele é um lugar de fraqueza e de grandeza.

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