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Tsipras em Berlim: veio, viu e... não é que venceu?

Em janeiro ano, Alexis Tsipras esteve na capital alemã e só foi ouvido por alguns aficcionados. Na visita desta terça, tudo mudou: 200 jornalistas esgrimiam tripés, câmeras e cotovelos numa sala meio apertada. E além de falar para a mídia, Tsipras sabia que estava conversando, indiretamente, com Angela Merkel. E a volta foi anunciada: se o Syriza vencer em 17 de junho e formar o novo governo, nós voltaremos, disse.

O comentário é de Flávio Aguiar em artigo publicado por Carta Maior, 23-05-2012.

Eis o artigo.

Depois de Paris, Berlim: Alexis Tsipras, o líder da coalizão de esquerda Syriza na Grécia, veio cantar de cigarra na terra da formiga Angela Merkel. Em boa parte da percepção dos que seguiram essa viagem de “boa vizinhança” – tanto à direita quanto à esquerda – essa imagem descrevia muito bem a empreitada.

Para a direita, “cigarra” é pejorativo; “formiga” é laudatório”: “cigarra” é sinônimo de demagogia; “formiga” de dedicação e realismo. Para a esquerda dá-se o vice-versa, é claro: “cigarra” lembra canto livre; “formiga”, a gente esmaga.

Mas o resultado não foi bem assim.

Tsipras veio dar alguns recados muito claros. E deu. Em Paris, num tom mais animado; afinal, lá a esquerda (digamos) venceu. Em Berlim, usou um tom mais moderado: afinal aqui é a toca do leão, ou da leoa. Mas ele deu os recados, com firmeza. E com boa ou má vontade, foi ouvido. Ou seja, sim, venceu. Pois é isso que ele viera fazer.

O jornal Frankfurt Rundschau deu o tom: em janeiro, o mesmo Tsipras esteve falando na capital alemã. Foi ouvido? Além de pelos aficcionados de carteirinha, só pelas moscas, se moscas voassem no inverno de Berlim.

Dessa vez, na terça-feira 22, 200 jornalistas esgrimiam tripés, câmeras e cotovelos numa sala meio apertada, em frente à mesa onde estava o dirigente da esquerda grega ladeado por uma intérprete, mais os dirigentes do partido Die Linke, Klaus Ernst e Gregor Gysi. E além de falar para eles e para a audiência da mídia, Tsipras sabia que ele estava conversando, indiretamente, com Angela Merkel.

Assim como no caso de Hollande, na França, ele pediu uma audiência a ela.

Assim como no caso de Hollande, o pedido foi recusado. Mas ficou registrado. E a volta foi anunciada: se o Syriza sair vencedor do novo pleito de 17 de junho e formar o novo governo, nós voltaremos, disse ele. Dessa vez como chefe de estado, e aí terão a obrigação de nos receber.

Claro: o lado conservador da mídia alemã deu-lhe um tratamento “levemente” pejorativo. Dirigiu-lhe expressões como “o messias da esquerda européia”, “o Asterix grego”, “jogador de pôquer” (sinônimo de blefador), “Che Guevara da Grécia” (isso aqui é pejorativo), “carismático” (isso aqui também é pejorativo). Mas abriu as colunas. Teve que abrir.

Tsipras está no olho do furacão – não só o grego, mas o europeu. Esse foi o segundo recado: não há um problema grego a tratar, há um problema europeu. Ele declarou em alto e bom som que não é partidário de que a Grécia saia da zona do euro. Mas então isso tem um preço. Até o momento, com a ascensão do Syriza, a Grécia vinha sendo literalmente chantageada: se o povo não votar certo no dia 17, como o bode expiatório bíblico a Grécia seria expulsa para o deserto, para ser devorada pelos demônios e pelas feras. Tsipras inverteu a equação: se sairmos, haverá danos inevitáveis para todos e não queremos isso. Mas ficar tem um preço: reverter a danosa e destrutiva “política de austeridade” em favor de uma política de desenvolvimento e recuperação.

É claro que há toda uma discussão sobre se seria melhor que a Grécia saísse da zona do euro: mas Tsipras não estava fazendo uma elaboração hipotética. Estava dando recados para uma platéia ávida deles. Em suma, o que ele disse nesse tópico foi que se a zona do euro derreter, a culpa não será dos gregos, mas da desastrosa política hegemônica na zona da moeda e de sua rigidez (cadavérica?)

Tsipras deu também um “pequeno” recado à mídia alemã. Disse saber que os gregos são tratados por parte dela como um bando de preguiçosos que só pensam em se aposentar diante dos laboriosos alemães que se esfalfam para pagar agora as dívidas alheias. Alertou que essa é uma imagem falsa, que os gregos querem na verdade é se erguer “sobre os próprios pés” e merecem solidariedade por causa disso.

Alertou também para o fato de que a “política de austeridade” defendida tão arduamente pelas autoridades alemãs está gerando o efeito negativo de transformar o sentimento grego de pertencimento em repulsa à Europa, e que isso é péssimo para todos. Apelou para a “responsabilidade histórica do povo alemão”, numa referência ao perigo de que essas políticas e o desespero conseqüente abra espaços para políticas de extrema-direita.

Concluiu conclamando os cidadãos alemães que não deixem de visitar a Grécia (o turismo é uma fonte importantíssima para a economia do país) por medo de serem mal recebidos. E sublinhou que se as coisas continuarem como estão, será inevitável que a Grécia continue a receber pacotes de ajuda – apenas para pagar seus credores – financiados, no fundo, pelos contribuintes alemães e de outros países. “Será como jogar água num poço sem fundo”.

Só faltou acrescentar que esse poço sem fundo é o sistema bancário e financeiro europeu, que reagirá a bala de o Syriza for eleito.

A bala: como diz canção de Pete Seeger, um dos grandes compositores de protest songs nos Estados Unidos, “as through this world I roam/I’ve met lots of funny men:/ some rob you with a six gun/some with a fountain pen. Talvez hoje a gente devesse, ao invés de “fountain pen” – caneta tinteiro, escrever “um teclado”, ou um “blackberry”, ou algo assim. Mas o sentido é o mesmo.

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