Deus e o mundo: a doutrina trinitária da criação. Artigo de Jürgen Moltmann

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24 Mai 2012

O Criador não é apenas exterior à sua criação, mas está também interiormente ligado a ela: a criação está em Deus, e Deus está na criação. Segundo a doutrina cristã original, o ato criador é um evento trinitário.

Publicamos aqui a segunda parte da análise do teólogo alemão Jürgen Moltmann, em artigo publicado no sítio Teologi@Internet, 21-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Leia também a primeira parte aqui.

Eis o texto.

2. Deus e o mundo: Da distinção entre Deus e o mundo à doutrina trinitária da criação. De um mundo sem Deus ao mundo em Deus e a Deus no mundo


a) A teologia moderna atribuiu à fé bíblica na criação a distinção fundamental entre Deus e o mundo. O mundo não saiu do ser eterno de Deus, mas sim da sua livre vontade. Se tivesse surgido do ser eterno de Deus, ele mesmo seria de natureza divina. Seria, então, autossuficiente como Deus, fundamentado em si mesmo e perfeito.

Como criatura de Deus, ao invés, céu e terra são mundanos, celestes e terrenos, mas não divinos. A interpretação moderna sublinha que a fé israelita na criação teria privado o mundo do caráter divino, o teria desdemonizado e "secularizado" no sentido moderno. "Profana illis omnia quae apud nos sacra", afirmavam, seguindo Cícero, os romanos devotos do mundo a propósito dos judeus.

Com a sua fé na criação, Israel liquidou os cultos da fertilidade presentes em Canaã, como narra a história de Elias. Por isso, cientistas modernos como Sir Isaac Newton se referiram à Bíblia quando expulsaram da sua Weltanschauung a "alma do mundo", de matriz aristotélica, e compreenderam o mundo como um mecanismo sem alma.

Ainda em Israel caíram os tabus das religiões naturalistas do Antigo Oriente. A natureza se tornou o mundo do ser humano: "dominem a terra". Isso foi retomado pelos teólogos modernos, que entregaram a natureza à investigação científica e à exploração tecnológica dos seres humanos. Os próprios métodos científicos foram privados de valor, científico, foram empregados em sentido agnóstico ou ateu. O estreito teísmo da idade moderna expulsou Deus no chamado mistério da transcendência, para ter o mundo para o ser humano, em uma imanência isenta de transcendência.

Como última consequência na teologia da idade moderna, Deus foi pensado sem o mundo, para dominar o mundo isento de Deus e para viver nele sem Deus. Se Deus está apenas no além, então pode-se conquistar o aquém liberado de Deus e moldá-lo a gosto.

Arnold Gehlen resume assim o resultado de modo pertinente: "Ao término de uma longa história da cultura e do espírito, a Weltanschauung da entente secrète, a metafísica dos poderes vitais, concordantes e contendentes, foi destruída, e precisamento por obra do monoteísmo, de um lado, e do mecanismo científico-técnico, de outro. Em favor do qual, por sua vez, o monoteísmo, desdemonizando e desdivinizando a natureza, havia lutado por primeiro para liberar o lugar. Deus e a máquina sobreviveram ao mundo arcaico e agora se encontram sozinhos" [9].

O que é mais assustador nessa visão é o fato de que, entre o Deus transcendente e o mundo das máquinas, o ser humano, como o conhecemos, não aparece mais: ele mesmo se tornou uma máquina, e não Deus.

Como, porém, dados esses pressupostos negativos, pode-se compreender o mundo como "criação de Deus"? Poder-se-ia argumentar deste modo:

As modernas ciências da natureza têm a ver apenas com a questão do como: como funciona alguma coisa? Elas não têm a ver com questões que se referem ao fundamento e ao sentido de alguma coisa. Elas não respondem à primeira pergunta metafísica: por que existe algo ao invés de nada? A questão da contingência do mundo permanece sem resposta. A teologia responde a tal questão com a ideia da criação do mundo por obra da livre vontade de Deus. Deus podia não criar o mundo, portanto, ele não deve necessariamente existir, mas ele gosta de chamar à existência uma realidade que não é divina, mas que corresponde à sua bondade.

Com o conceito de correspondência (analogia), a distância entre Deus e o mundo é superada [10]. O mundo e os seus ordenamentos são um eco da palavra criadora de Deus; são ressonâncias do seu eterno canto; correspondem, na sua bondade, ao Sumo Bem. O mundo, porém, existe fora de Deus, e o agir de Deus com relação a ele é um agir externo.

b-1) Há, contudo, uma compreensão ecológica mais profunda da criação: o Criador não é apenas exterior à sua criação, mas está também interiormente ligado a ela: a criação está em Deus, e Deus está na criação. Segundo a doutrina cristã original, o ato criador é um evento trinitário: Deus Pai cria o mundo através da sua palavra eterna na força do Espírito Santo. O mundo não é uma realidade divina, mas sim permeada por Deus. Se todas as coisas são criadas por Deus Deus, através de Deus Filho e em Deus Espírito Santo, então elas também são de Deus, através de Deus e em Deus [11].

"Para nós existe um só Deus: o Pai.
Dele tudo procede, e para ele é que existimos.
E há um só Senhor, Jesus Cristo,
por quem tudo existe e por meio do qual também nós existimos" (1Cor 8, 6).

Na sua obra, O Espírito Santo, Basílio escreve:

"Vede na criação desses seres o Pai como fundamento que os precede, o Filho como fundamento criador, e o Espírito como o fundamento que os leva à cumprimento, de modo que os espíritos servidores têm o seu princípio na vontade do Pai, são levado ao ser mediante a realidade do Filho, e encontram cumprimento através da assistência do Espírito" [12].

Se considerarmos o ato criador como um processo trinitário desse tipo, então ele não pode ser atribuído somente a "Deus Pai Todo-Poderoso", mas, da mesma forma, também ao Filho e ao Espírito. Ele não é um ato "de fora" (ad extra), mas sim um ato na vida de toda a Trindade. Enquanto o Espírito, mediante as suas energias, opera, estimula e vive em todas as criaturas, Deus está presente na sua criação, e a sua criação tem existência nele. Se, como afirma Basílio, o Espírito é aquele que leva a cumprimento, então todas as criaturas são orientadas, através das energias do Espírito, à sua plenitude futura e a ela são solicitadas. O "cumprimento" da criação consiste, segundo as tradições bíblicas, no fato de que o Deus trinitário "in-habita" na sua criação tornada perfeita, e todas as criaturas, então, têm parte na sua vida eterna (Ap 21, 1-3).

b-2)
Dessa visão trinitária da criação, segue a ideia de um mundo no qual o Espírito está operando. Nas energias do seu Espírito, Deus está em todas as coisas, e todas as coisas estão em Deus. Pode-se imaginar o Espírito de Deus no mundo também como um campo de forças, que dá energia a todas as coisas.

No mundo medieval, Hildegard de Bingen experimentou o mundo deste modo:

"O Espírito Santo é a vida que dá vida,
motor do universo e raiz de todo ser criado,
Ele purifica o universo de impurezas,
Ele cancela a culpa e acalma as feridas,
assim ele é vida que ilumina, digna de louvor,
que desperta e faz ressurgir o universo sempre de novo" [13].

Na época da Reforma, encontramos na Institutio, de João Calvino, uma frase semelhante:

"De fato, o Espírito está presente em toda parte e conserva, nutra e vivifica a todas as coisas, no céu e sobre a terra. O fato de ele infundir a sua força em tudo e prometer ser vida e movimento a todas as coisas é algo é claramente divino" (Inst 13. 14) [14].

Na doutrina trinitária da criação, a obra do Pai transcendente está ligada com a divindade do Espírito Santo, que flui imanente, com o resultado de que o mundo criado deve ser considerado divino por ser sustentado e movido por forças divinas. Isso não é "panteísmo", porque Deus e o mundo são distintos. Isso também não é "panenteísmo", que afirma que todas as coisas estão "em Deus". O fato de que Deus está presente em todas as coisas com o seu Espírito é expressado de um modo melhor pela doutrina hebraica vetero-testamentária da Shekinah: Deus quer "habitar" no meio do povo de Israel. Deus "habitará" para sempre na nova criação, quando todas as coisas forem repletas da sua glória (Is 6,3). A forma de pensamento neotestamentária que encontramos em Paulo e em João foi chamada pela teologia da Igreja antiga de perichoresis: a habitação recíproca de Deus no mundo e do mundo em Deus.

"Quem permanece no amor permanece em Deus
e Deus permanece nele" (1Jo 4, 16).

(Continua...)


Notas:

9. A. GEHLEN, Urmensch und Spätkultur, Bonn 1956, 285.

10. K. BARTH, Kirchliche Dogmatik III, 1-4, Zürich 1947-1951.

11. Gott in der Schöpfung, 106 [tradução italiana, Dio nella creazione, Queriniana, Brescia 1986. 2007 3].

12. BASILIO DE CESAREIA, Über den Heiligen Geist, Freiburg 1967, 75 [edição italiana, Lo Spirito santo, Città nuova, Roma 1993].

13. HILDEGARD DE BINGEN, Lieder, Salzburg 1969, 229.

14. J. CALVINO, Institutio I, 13, 14 [ed. it., Istituzione della religione cristiana, UTET, Turim 1971].

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