Carroças em Porto Alegre, um símbolo

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21 Maio 2012

O carroceiro "é o profeta por excelência que não deve nunca desaparecer do centro das metrópoles, porque foi o primeiro a denunciar o consumismo e a poluição dos mananciais e também porque criou o próprio emprego ou trabalho, com investimento zero e porque se sentiu vocacionado para garantir a própria sobrevivência com absoluta criatividade de sua parte", escreve Antonio Cechin, comentando ampla reportagem do jornal Zero Hora, 19-05-2012, exultando com a breve extinção das carroças que recolhem o lixo da cidade de Porto Alegre.

Segundo o testemunho do irmão marista, "se ele começa faminto e analfabeto catando restos de comida em descartes, através de uma caminhada por todas as etapas da cadeia produtiva pelas quais devem passar os resíduos sólidos, sem sair desse tipo de serviço à sociedade e ao planeta, se alfabetiza, cursa primeiro e segundo grau, se forma na universidade e se torna especialista no assunto, apto a acompanhar missões brasileiras em reuniões internacionais, ditando como ninguém, normas para um legítimo BEM VIVER para o qual a humanidade pode, de repente, aspirar, mandando às favas o sistema capitalista opressor ao mesmo tempo da humanidade e de Gaia, nossa querida Pachamama, a Mãe Terra".

Antonio Cechin é irmão marista, miltante dos movimentos sociais, autor do livro  Empoderamento Popular. Uma pedagogia de libertação. Porto Alegre: Estef, 2010.

Eis o artigo.

Os grandes meios de comunicação estão comemorando, com quatro anos de antecedência, a saída das carroças da cidade, já desde este mês de maio do ano de 2012, inteiramente atípico para um sistema capitalista cambaleante até mesmo nos países em que mais se aperfeiçoou. A lei anti-carroças, do jeito como foi elaborada, só podia sair de uma única cabeça de vereador, e não por acaso, de ideologia capitalista.

O maior jornal de nossa urbe, saúda desde já, a despedida dos veículos de transporte das populações mais carentes, ligando o fato com a constatação visível de que o número de carroças está diminuindo. Pela lei promulgada há três anos, a data fatal será 2016 que a prefeitura pretende encurtar para o ano da Copa de 2014. Até lá, a municipalidade terá que correr atrás de trabalhos que substituam a relação profunda que, durante décadas, mantiveram com o lixo carroceiros, carrinheiros, catadores e moradores de rua em geral. Sua pátria tem sido e continuam sendo as pantanosas Ilhas do Guaíba, as periferias mais longínquas da região metropolitana e os desvãos embaixo de pontes, pontilhões e viadutos.

A maneira como a imprensa burguesa trata o assunto é simplesmente vergonhosa em relação à função simbólica que sempre as carroças desempenharam e continuam desempenhando para os sucessivos governos e para toda a sociedade porto-alegrense.

A foto em cima da ponte do Guaíba, de uma carroça , humorísticamente apelidada por gaiatos de carroça-de-papai-noel, porque abarrotada de sacos plásticos cheios de lixo a desbordar por todos os lados, a ponto de o carroceiro não ter lugar nem para sentar, aparecendo em pé, rédeas à mão, altaneiro, entre lixo e cavalo. À frente do “pária da civilização urbana” um senhor caminhão. Este, entulhado de lixo exposto in natura, sem o mínimo cuidado, sujeito a extraviar partes pela estrada, a serviço de algum grande empresário, talvez até incinerador. “Riqueza” do pobre porque fonte de vida e sobrevivência, transformada agora em fonte de fortuna para o grande industrial. Apreciemos a mentira deslavada, verdadeiro deboche, escrita por baixo da enorme foto abrangendo duas páginas no sentido da  largura: “Ao aposentar a charrete e o cavalo, parte dos recicladores passa a circular de Kombi ou caminhão. Muda a tração, mas continua a labuta no lixo” (Zero Hora, sábado, 19 de maio de 2012, pág. 4 e 5).

Mentira sobre mentira porque o poder municipal – consta na reportagem – está desenvolvendo o máximo de esforços para tirar o carroceiro do trabalho com matéria-prima acumulada para descarte, vulgarmente chamada de lixo, a fim de entregar essa matéria-prima acumulada para descarte, para fonte de riqueza de o magnatas, quando é vida e sobrevivência para gente pobre.

Em sentido contrário a essa postura atrasada do poder público municipal, a política dos resíduos sólidos do ex-presidente, operário-metalúrgico Lula, transformada em lei, prevê a transformação do carroceiro em profissional do lixo (resíduos sólidos) porque todos os elos da cadeia produtiva desses resíduos devem reverter inteiramente em favor dos catadores, privilegiando os coletivos dessas categorias, desde a coleta até a fabricação e venda de novos objetos industrializados ou como obras de artesanato.  

Para o operário Lula, por que não se valorizar ao máximo não somente a função, mas também o profissional da despoluição do planeta Terra ou Gaia? Ele é o profeta por excelência que não deve nunca desaparecer do centro das metrópoles, porque foi o primeiro a denunciar o consumismo e a poluição dos mananciais e também porque criou o próprio emprego ou trabalho, com investimento zero e porque se sentiu vocacionado para garantir a própria sobrevivência com absoluta criatividade de sua parte. Se ele começa faminto e analfabeto catando restos de comida em descartes, através de uma caminhada por todas as etapas da cadeia produtiva pelas quais devem passar os resíduos sólidos, sem sair desse tipo de serviço à sociedade e ao planeta, se alfabetiza, cursa primeiro e segundo grau, se forma na universidade e se torna especialista no assunto, apto a acompanhar missões brasileiras em reuniões internacionais, ditando como ninguém, normas para um legítimo BEM VIVER para o qual a humanidade pode, de repente, aspirar, mandando às favas o sistema capitalista opressor ao mesmo tempo da humanidade e de Gaia, nossa querida Pachamama, a Mãe Terra.

Os ecologistas e entre eles o grande filósofo e teólogo Leonardo Boff não cessam de chamar a atenção para a categoria do cuidado. Sobre isso basta lembrar a primorosa obra de Leonardo que resume todos os posteriores discursos mundo a fora sobre o tema. Desdobramento notável está atingindo sob a palavra Sustentabilidade que parece transformar-se na idéia-força do Encontro Rio+20 a celebrar-se pelas nações do mundo em junho próximo.

“O último deste mundo é o primeiro no Reino de Deus” diz Jesus Cristo. Se o pária da civilização urbana é quem sobrevive a partir dos rejeitos, o catador-carroceiro montado em seu miserável veículo está anunciando por ruas e praças da cidade, o Dia do Juízo. Sim, porque o cristão sabe que não é necessário morrer para ser julgado por Deus. Todos somos julgados já aqui e agora, neste mundo em que estamos vivendo, pois o Divino Mestre nos diz: ‘Tudo o que fizerdes ao menor dos meus irmãos, é a Mim que o estais fazendo”.

Somente quem trata com sumo carinho os “últimos da sociedade” será recebido no definitivo Reino de Deus com as palavras “Vem, bendito do meu Pai, possuir o Reino que para ti está preparado desde toda a eternidade!”

O carrinheiro-catador é ao lado do carroceiro, o mais autêntico profeta da ecologia porque denuncia a sociedade consumista e anuncia a nova era da ecologia. À semelhança do profeta da Bíblia que atravessava toda a cidade portando uma canga em redor do pescoço, nossos carrinheiros se parecem ao encangado porta-voz de Deus, ajoujados que vão àqueles varais do instrumento de trabalho a circundar-lhes o corpo. Para a burguesia são párias, mas para nós pessoas de fé são heróis e profetas da gema. Representam também os mais autênticos cuidadores da natureza, no sentido de seus melhores despoluidores, verdadeiros médicos do Planeta.

O Homem de Nazaré, da mesma forma com que apostrofou a capital de sua nação, hoje repetiria contra a nossa capital a mesma invectiva: “Ai de ti Porto Alegre porque dás um fim aos profetas que te enviei!”


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