O ''por todos'' vai se tornar ''pro multis''? Artigo de Andrea Grillo

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18 Maio 2012

Uma carta do papa indicou aos bispos alemães por que é melhor usar a tradução literal da expressão usada por Cristo na instituição da eucaristia. Como se comportarão as demais Igrejas locais?

Neste artigo, o teólogo italiano Andrea Grillo apresenta alguns aprofundamentos teológicos e litúrgicos sobre a questão. Grillo é doutor em teologia pelo Instituto de Liturgia Pastoral de Pádua, e professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, de Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua.

O artigo foi publicado na revista italiana de atualidade pastoral Settimana, 20-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A carta que Bento XVI escreveu aos bispos alemães no dia 14 de abril passado manifesta abertamente a intenção de dizer uma palavra clara e definitiva sobre a tradução da fórmula "pro multis", que aparece nas palavras proferidas sobre o cálice dentro da celebração eucarística. Gostaria aqui de apresentar brevemente o conteúdo da carta, algumas pequenas questões que permanecem abertas ao debate, além de algumas particularidades interessantes da recepção italiana da solução apresentada pelo papa para a Igreja alemã.

Bento XVI inicia o seu texto com uma premissa de caráter histórico, lembrando que a decisão posterior ao Concílio de traduzir o "pro multis" com "por todos", fundamentada pelo ponto de vista exegético e teológico, constitui, no entanto, não uma simples tradução, mas sim uma interpretação do texto original, que responde a um projeto de abertura ao mundo moderno dos textos bíblicos e litúrgicos, favorecendo uma compreensão sua mais direta e profunda.

Contudo, citando a sua própria experiência de celebração pontifical de celebração da eucaristia em diversas línguas, o papa destaca como, na adequação às diversas línguas do sentido do texto original, correu-se o risco de perder a percepção do texto comum que subjaz às traduções individuais, que, por sua vez, parecem ser, em alguns casos, até uma versão "banalizada" do original.

Por outro lado, a instrução Liturgiam authenticam (2001) introduziu o princípio do primado da "tradução literal", que deveria indicar claramente a diferença entre o traduzir e o interpretar, permitindo que se salvaguarde também a "estranheza" da língua bíblica e litúrgica. Desse modo, a palavra bíblica e litúrgica também permaneceria na sua identidade "estranha" à cultura, enquanto a interpretação teológica, a ser realizada na comunidade da igreja, seria chamada a compreendê-la e a torná-la acessível ao sujeito moderno.

Neste contexto, a Santa Sé decidiu que a expressão "pro multis" seja simplesmente traduzida, e não interpretada. Por força dessa decisão, todavia, Bento XVI está consciente de que, no corpo eclesial, poderão surgir perguntas preocupadas em torno da compreensão da salvação que tal tradução pareceria valorizar, e ele mesmo levanta algumas perguntas muito fortes: "Cristo, talvez, não morreu por todos? A Igreja mudou a sua doutrina sobre a salvação? Quer-se destruir a herança do Concílio?".

Para essa perturbação eclesial, o papa pede que à modificação do texto seja preposta uma catequese aprofundada, da qual bispos e presbíteros devem se sentir responsáveis. Nessa catequese, o papa pede que sejam ilustrados os motivos que levaram a uma tradução "interpretativa" do "pro multis" com a expressão "por todos", a serem considerados com todas as suas boas razões, a fim de oferecer imediatamente o sentido universal da salvação cristã, com relação à qual se tentaria agora explicar acuradamente as passagens que permitem aos "muitos" não se fecharem, mas sim se sentirem responsáveis por "todos".

Bento XVI quer mostrar como as palavras originais da instituição da eucaristia – que falam de "vocês" e de "muitos" – são a forma concreta – e não abstrata – do universalismo cristão. Ao esclarecer bem essa correlação – sem oposição – entre "muitos" e "todos", será demonstrada simultaneamente não só a continuidade na doutrina da salvação universal, mas também a necessária articulação interna a tal doutrina.

Com o magistral desenvolvimento de um modelo dessa catequese prévia, concluiu-se o texto da carta dirigida aos bispos alemães, os quais, respondendo ao papa, enfatizaram a grande contribuição que a carta oferece à compreensão da ação salvífica de Jesus Cristo "para que a universalidade da salvação que dele deriva seja expressa de modo inequívoco", como o próprio texto papal diz.

No entanto, algumas questões merecem um maior aprofundamento.

É preciso reconhecer acima de tudo que a superação do "teor literal" faz parte do próprio trabalho do traduzir. Não é simplesmente um acréscimo interpretativo. Por isso, uma límpida contraposição entre tradução e interpretação, tal como aparece no texto da carta, nem sempre é totalmente clara.

Por outro lado, o fato de traduzir, enquanto tal, deveria permitir que o leitor tivesse acesso ao sentido do texto. Se, depois da tradução, o texto fica quase ininteligível sem uma adequada catequese, esse fato levanta uma questão nada pequena para a vocação pastoral da Igreja. Se é verdade que uma certa "estranheza" da língua deve poder permanecer no texto litúrgico, e se é igualmente verdade que as línguas modernas introduzem uma contradição desconhecida às línguas antigas entre "muitos" e "todos" (como bem evidenciou o cardeal Vanhoye), apenas o uso litúrgico pode ter a força para subverter tal contradição? Ou todo o peso será, contudo, deslocado para o plano da catequese?

Por outro lado, as línguas não são simples instrumentos expressivos, mas sim visões abrangentes do real. A ideia de traduzir "literalmente" pressupõe que as relações entre as palavras não mudam de língua para língua, mas não é assim. Por isso, Tomás lembrava que, de muitas traduções, a tradução literal é muitas vezes a mais facilmente equivocada! Isso não significa que não se deva respeitar escrupulosamente o teor filológico original de um texto bíblico ou litúrgico. Mas o destinatário não pode estar ausente no ato da simples tradução, que sempre tem em si mesma uma dimensão necessariamente interpretativa.

O exemplo mais típico é o constituído por todas as formas de tradução de linguagens não técnicas. Os provérbios, as poesias, os elogios, as imprecações nunca podem ser traduzidas simplesmente "de modo literal", sob pena de perder todo o seu sentido. É preciso fazê-las entrar em uma cultura, na qual possam também conservar o seu aspecto de "estranheza", mas de forma relativa. Caso contrário, se a estranheza for absoluta, a passagem de um contexto linguístico para outro falha, enquanto a passagem do celebrar ao assistir corre o risco de voltar a ameaçar a própria experiência do sujeito e da comunidade reunida.

Entre os elementos retomados pela carta também é preciso notar uma tensão, perceptível desde as primeiras linhas do texto, entre os destinatários da carta (os bispos alemães) e a questão da tradução alemã do Gotteslob (Livro de Orações), que se refere "à área linguística alemã". As relações entre âmbito eclesial/nacional alemão, austríacos e suíços, que são sempre muito delicados, poderiam se ressentir do fato de que a carta tem como destinatários apenas os bispos alemães.

Uma consideração diferente diz respeito, ao invés, à previsível recepção da carta por parte da Igreja italiana. Aqui, devemos proceder com grande cautela, por causa de uma condição mais complexa da nossa tradição italiana com relação à alemã. De fato, a tradução italiana das "palavras da consagração" assumiu, no percurso da Reforma Litúrgica, a perspectiva de uma tradução das palavras da instituição segundo uma forma não literal, aplicando tal princípio não só às palavras sobre o cálice – e traduzindo, portanto, "pro multis" como "por todos" –, mas também às palavras sobre o pão – traduzindo "quod pro vobis tradetur" como "oferecido em sacrifício por vós" ["entregue por vós", na versão brasileira].

Por um princípio de coerência, que dificilmente poderá ser ignorado, qualquer intervenção no sentido de "tradução literal", no momento em que for avaliado necessário pela CEI [Conferência dos Bispos da Itália], deveria incluir uma revisão não só das palavras sobre o cálice, mas também das palavras sobre o pão, que poderiam/deveriam ser traduzidas como "que é dado (ou que é oferecido) por vós". Caso contrário, se se considerasse que ainda há boas razões para deixar a tradução "não literal" para o pão, seria difícil não se mover desse modo também para o cálice, apesar do critério diferente seguido pela Igreja alemã, mas, nesse caso, na plena coerência entre o pão e o cálice.

Aqui, no entanto, eu acredito que deveria valer o princípio geral pelo qual a universalidade da Igreja é experimentada não "apesar", mas "graças" às diversas culturas. E, por isso, assim como para o Ano da Fé a referência ao Catecismo da Igreja Católica não dá, de fato, o espaço necessário às diversas formas de adaptação da catequese em nível nacional e local, assim também as claras palavras do papa dirigidas aos coirmãos bispos de língua alemã solicitam dos bispos italianos uma avaliação necessária e responsavelmente rica e articulada.

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