O retorno de Roosevelt?

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17 Maio 2012

"Como sonâmbulos, caminhamos rumo à catástrofe". Essa frase de Edgar Morin abre, com outras igualmente inquietantes, o último livro-manifesto que o economista Pierre Larrouturou dedica à crise econômica em que estamos imersos desde 2008. Com o seu coletivo "Roosevelt 2012", ele promove diversas respostas para a crise, diferentes da austeridade.

A reportagem é de Jérôme Anciberro, publicada no sítio da revista Témoignage Chrétien, 05-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"É mais grave do que se diz... mas podemos sair!": o título do livro parece razoavelmente otimista. O autor, Pierre Larrouturou, apresenta, além de um diagnóstico (sem complacências) da situação, 15 procedimentos urgentes para superar a crise. Trata-se de 15 procedimentos defendidos pelo coletivo "Roosevelt 2012", que reúne cerca de 60 personalidades muito diversas, como o imprescindível Stéphane Hessel, a filósofa Dominique Meda, o ex-primeiro-ministro Michel Rocard, os economistas Jean Gadrey, Gaël Giraud e Claude Alphandéry, e até o ex-jogador de futebol internacional Lilian Thuram.

Mais de 27 mil pessoas já assinaram o manifesto do coletivo. A figura tutelar de Franklin Roosevelt (1882-1945), 32° presidente dos Estados Unidos, lembra que a vontade política pode dar bons frutos. Em 1933, recém-chegado ao poder, Roosevelt fez com que fossem adotadas em três meses mais reformas do que o seu antecessor, Herbert Hoover, em quatro anos.

Como lembra Pierre Larrouturou, o objetivo do novo presidente americano não era, na época, "tranquilizar os mercados financeiros", mas, ao contrário, controlá-los. Desde então, já passou muita água por debaixo da ponte, muitas situações mudaram. Mas a lição geral – superar os medos, dizer a verdade aos cidadãos e agir – permanece.

Outra crise?

"Depois de 40 anos de crise, a própria palavra 'crise' perdeu o seu significado", aflige-se Pierre Larrouturou. Algumas pessoas continuam acreditando que o que estamos vivenciando desde 2007 é apenas um parêntese que logo se fechará, e que a vida continuará como antes. Ao controlá-la, depois de todo esse tempo, uma parte da nossa elite acabou acreditando que podemos viver indefinidamente em estado de crise, sem nunca sofrer uma ruptura, uma fissura, um colapso.

"Esqueceram que uma casa cujas vigas estão arruinadas há 40 anos por tempestades pode desmoronar em poucos minutos". No entanto, o governador do Banco da Inglaterra, Mervyn King, explicou no ano passado que "a próxima crise corre o risco de ser mais grave do que a de 1930". Jean-Pierre Jouyet, presidente da Autoridade dos Mercados Financeiros, ao invés, evocou o "risco de um colapso de todo o sistema econômico mundial".

O mito do crescimento

O que acontece? Constata-se que o crescimento econômico está estagnado, e que um número cada vez maior de pessoas, senão já Estados inteiros, encontram-se diante de situações inextrincáveis que combinam diminuição da renda, endividamento, precariedade... "Há 30 anos nos dizem que o crescimento irá voltar a existir", explica Pierre Larrouturou. "Todos os primeiros-ministros, de direita e de esquerda, repetem isso. Ainda alguns meses difíceis e, puft!, o crescimento irá voltar. É o puro pensamento mágico".

"Na realidade, o crescimento não volta, ou de forma muito esporádica. E não pode voltar no estado atual do sistema econômico mundial. Sejamos claros: as previsões de crescimento sobre as quais se baseiam os partidos franceses, como o PS ou o UMP, são absolutamente ilusórias. Todos sabe disso. Mas continuamos fingindo que acreditamos".

Por que o crescimento é tão fraco?

Porque estamos presos em uma armadilha dupla, a do desemprego e a da precariedade. O que mata o crescimento, assegura Pierre Larrouturou – que aqui se abstrai da questão ecológica, fundamental, mas que levanta outros problemas –, são as diferenças de renda. Trinta anos atrás, nos países ocidentais, a parte dos salários, no valor acrescentado das empresas, era de cerca de 67%. Hoje, é de 57%. Na zona do euro, para retomar os dados de Patrick Artus, diretor de estudos da Natixis, as empresas pegam, todos os anos, o equivalente a 1% do PIB a mais do bolso dos seus empregados em comparação com o que fizeram no ano anterior.

Assiste-se a uma colossal transferência de parte dos salários para o capital (os acionistas). As somas assim captadas não servem nem para o consumo das famílias, nem para o Estado através do IVA [imposto sobre o valor acrescentado], nem para os fundos de pensões, nem para a previdência social em geral: elas vão alimentar os mercados financeiros e são, no fim, apropriadas por um pequeníssimo número de indivíduos. Muitos estudos mostram que essas somas não vão nem para os investimentos nem para a pesquisa. A Europa está se esvaindo para encontrar algumas centenas de bilhões para salvar a Grécia, enquanto o patrimônio acumulado do 0,2% dos mais ricos equivale a 32 bilhões...

O problema não é só ético, é também simplesmente econômico. A partir de um certo nível de renda, gasta-se apenas uma parte mínimo do próprio patrimônio. Se se ganha 1.500 euros por mês, é muito provável que toda essa soma seja gasta com a casa, a alimentação, o vestuário, eventualmente algumas atividades de lazer. Em outras palavras: esse dinheiro alimenta a máquina econômica e, portanto, o crescimento. Isso não acontece quando se ganha muito mais, mesmo com um padrão de vida muito alto.

Para continuar fazendo a máquina econômica funcionar nessas condições de desigualdade, a única solução é o endividamento, tanto das famílias, quanto dos Estados. E foi o que aconteceu. O que não foi fornecido com os salários ou os impostos, foi dado com a dívida. Os principais beneficiários do sistema conseguiram desfrutar, assim, por muito tempo (ao menos três décadas), somente porque, enquanto isso, encorajavam as famílias e os Estados a se endividar, em uma fuga absolutamente irresponsável.

Há uma boa notícia, no entanto, nesse quadro assustador: o funcionamento perverso desse sistema não deriva da fatalidade ou da "lei natural" da economia. É o fruto de decisões políticas, das tomadas no início dos anos 1980, particularmente nos Estados Unidos, sob a presidência de Ronald Reagan. Até aquele momento, lembra Pierre Larrouturou, "a economia não precisava da dívida para crescer regularmente, porque havia regras coletivas que garantiam uma progressão regular dos salários e uma subdivisão igual entre empregados e acionistas. Esse 'compromisso fordista' permitiu que os Estados Unidos conhecessem 30 anos de prosperidade. Sem dívida, nem privada, nem pública".

Com a chegada de Reagan, os neoliberais diminuíram os impostos dos ricos e das empresas, o que aumentou a dívida pública. A dívida (pública e privada) também aumentou para as políticas de desregulação da economia e em particular do mercado de trabalho, que levaram a uma maior precariedade e à diminuição da parte destinada aos salários. "A partir desse momento, milhões de norte-americanos começariam a se endividar para manter seu padrão de vida".

Foram as decisões políticas tomadas no fim da Segunda Guerra Mundial que permitiram a implementação de um sistema bastante virtuoso: o dos "30 anos gloriosos" (1). E foram outras decisões políticas que instauraram o sistema neoliberal que hoje está em crise. Portanto, tudo parece indicar que serão ainda outras decisões políticas que poderão nos fazer sair do impasse. A fórmula geral na base dessas decisões é simples: a justiça social não é um luxo, em tempos de crise; ao invés, é a condição sine qua non para sair da crise.

A urgência

O diagnóstico está feito. Mas, antes de começar a "terapia", é oportuno avaliar a urgência. De fato, há duas bombas que ameaçam explodir: a norte-americana e a chinesa.

O peso da dívida norte-americana

Nos Estados Unidos, a dívida total (pública e privada) supera os 350% do PIB. Mas, embora o país continue se endividando cada vez mais para injetar dinheiro no circuito econômico, a taxa de crescimento estagna. "A primeira economia mundial é como um carro que precisaria de um litro de gasolina para cada 300 metros". Em janeiro deste ano, Barack Obama conseguiu aumentar para 1.2 trilhão a dívida autorizada.

O que vai acontecer em 2013? A fuga não é mais possível. Nesse ritmo, chegará necessariamente um momento em que o país não estará na incapacidade de reembolsar a própria dívida. As consequências? Os funcionários públicos (incluindo policiais, militares...) não poderão mais ser pagos, a economia do país cairá em uma recessão grave, o valor dos títulos do Tesouro norte-americano entrará em colapso, e, por contágio, as finanças dos países que os possuem, isto é, quase todos, e particularmente a China... A China que, nos assegura Pierre Larrouturou, é "o país mais instável do planeta"...

A instabilidade chinesa

"O que melhor assegura a força da economia de um país é o que se chama de consumo das famílias", explica. Ele representa cerca de 60% do PIB na Europa ou na Índia, 70% nos EUA, mas apenas 28% na China. Muito simplesmente porque as desigualdades de renda são enormes nesse país. Ficamos extasiados diante dos jovens milionários chineses que dão uma imagem dinâmica e próspera do país, mas nos esquecemos de que uma parte muito importante da população chinesa vive com menos de um dólar por dia.

É por isto que a China é tão dependente das suas exportações: porque uma grande parte da sua população não pode consumir.

Em 2009, por causa da recessão no Ocidente, as exportações chinesas entraram em colapso. O governo chinês impulsionou os bancos a aceitar todos os pedidos de crédito para relançar os investimentos e manter o crescimento. Investiu-se em todas as partes, por exemplo no setor imobiliário: construiu-se, construiu-se... até que os preços dos imóveis começaram a cair. As vendas de habitação caíram 25% na China em janeiro e fevereiro... A bolha imobiliária chinesa está prestes a explodir.

Vimos quais foram as consequências na Espanha, onde a taxa de desemprego é hoje de 24,4% e onde a insatisfação social é ouvida em voz alta. Embora nesse país haja algumas redes de segurança social (indenização de desemprego, previdência social...). Mas não é assim na China. Como bom democrático, Zapatero deixou o poder e passou a bola. Os dirigentes chineses talvez ainda não chegaram a tanto. Em compensação, há a certeza de que os gastos militares chineses aumentaram 189% entre 2000 e 2010. O orçamento da defesa era de 119 bilhões de dólares em 2011 e prevê-se que poderia chegar aos 238 bilhões em 2015.

Agora, todo historiador sabe que a guerra é uma solução relativamente clássica em caso de incapacidade para resolver uma crise social de grande amplitude. Então, encontra-se uma válvula de segurança das tensões internas e se reforça a unidade nacional diante de um inimigo comum. A agitação nacionalista diante de Taiwan é talvez mais séria do que se pensa...

Guerra de influência

Em 2007-2008, quando estourou a crise dos subprimes, quase todos estão de acordo em definir esse momento como a "crise do capitalismo". A palavra-chave, da esquerda e da direita, é "regulamentação". São tomadas medidas de pouca importância que se limitam – segundo as palavras do economista Joseph Stiglitz – a "mover as poltronas para o convés do Titanic", mas que encontram a unanimidade dos dirigentes desse mundo, defensores da "causa regulamentadora". Mas, há um ano, com a crise grega, onde se viram as deficiências do Estado helênico, os neoliberais, que há quatro anos tinham mantido um perfil baixo, voltaram ao ataque. Explica-se novamente que todos os problemas provêm do Estado gastador... Publicam-se artigos para explicar isso. Os bancos privados pressionam e tentam impor as suas "soluções". Uma inversão importante, que é oportuno ficar de olho.

  • C'est plus grave que ce qu'on vous dit... mais on peut s'en sortir !, de Pierre Larrouturou, Éd. Nova, 112 páginas.

Nota:

1 – Na França, são definidos como "Trente glorieuses" os anos do período de forte crescimento econômico entre 1945 e 1973 da maioria dos países desenvolvidos.

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