Porto faz indústria do turismo entrar em alerta no sul da Bahia

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15 Maio 2012

Além de visualmente impactante, o Porto Sul da Bahia, um megacomplexo portuário em Ilhéus, com investimento estimado em R$ 3,5 bilhões e 1,8 mil hectares de área total, pode provocar o avanço do mar em 60 a 100 metros no período de até 30 anos, segundo o estudo de impacto ambiental do empreendimento. O efeito da erosão tende a se espalhar por mais de dez quilômetros ao norte do porto, afetando pousadas e condomínios de casas de veraneio, enquanto o assoreamento deverá ampliar as praias ao sul do projeto em 472 mil metros quadrados - área que equivale a 60 campos de futebol com dimensões similares às do Morumbi, em São Paulo.

A reportagem é de Daniel Rittner e publicada pelo jornal Valor, 15-05-2012.

A combinação desses fatores, junto com o aumento do tráfego na rodovia BA-001 durante a construção e o armazenamento de minério de ferro a céu aberto depois do início das operações, deixa os empresários do turismo em estado de alerta. "É simples: não é um ambiente onde o turista quer estar", diz Luigi Massa, presidente da Costa do Cacau Convention Bureau, entidade responsável pela promoção comercial da região como destino turístico. "Se nos enfiarem o porto goela abaixo, pode haver desenvolvimento, eu não nego. Mas para o turismo de lazer e principalmente para o turismo de luxo, vai ser o fim da linha", emenda o empresário, que é dono do hotel La Dolce Vita.

Sem o complexo portuário, o número de turistas na região, que alcançou cerca de 500 mil em 2007, poderá chegar a 1 milhão por ano até o fim da década, calcula Massa. "O mero anúncio de construção do porto afastou um empreendimento de R$ 500 milhões. Ele teria 1,7 mil leitos e poderia gerar 1,2 mil empregos, mas os investidores desistiram assim que souberam do projeto."

A reportagem do Valor percorreu a costa de Ilhéus e verificou que loteamentos onde serão erguidos condomínios de luxo estão à venda a menos de dez quilômetros da localização prevista para o futuro porto, sem nenhuma menção ao projeto.

O dono de uma pousada na região, que costuma ter paulistas e europeus entre seus principais clientes, conta que a perspectiva de uma instalação portuária na vizinhança começa a afetar seus negócios. "As operadoras de turismo de luxo gostam do lugar, mas acham que o porto vai descaracterizá-lo e se mostram resistentes a investir em publicidade", diz o empresário, que pede para não ter seu nome e o de sua pousada divulgados. Já para resorts como o Txai, localizado em Itacaré (a 48 quilômetros de Ilhéus), o porto quase não tem influência.

Para a Costa do Cacau Convention Bureau, o turismo gera 5 mil empregos diretos na região - em hotéis, restaurantes e barracas de praia -, com a oferta de 7 mil leitos. A Prefeitura de Ilhéus, que contabiliza 29 hotéis e 215 pousadas no município, discorda das previsões mais pessimistas. "Veja o caso da boa convivência entre Suape e o turismo em Porto de Galinhas", exemplifica o prefeito Newton Lima (PT), lembrando que a costa pernambucana preserva o potencial turístico.

Uma das preocupações apontadas pelos críticos do empreendimento é a situação da BA-001, que margeia o litoral sul, com matas preservadas em ambos os lados da rodovia e placas de advertência aos motoristas para a travessia de animais silvestres.

Ambientalistas e o Ministério Público temem o incremento do tráfego de veículos pesados para o transporte das pedras que servirão de material à construção do quebra-mar do porto. Baseada nos dados do EIA-Rima, a Universidade Estadual de Santa Cruz calcula "a necessidade de 120 caminhões realizando seis viagens por dia para realizar o transporte de rocha das pedreiras selecionadas até a área do Porto em Aritaguá, ao longo de um período contínuo de 36 meses, o que resultará em uma viagem a cada dois minutos", segundo parecer recentemente protocolado no Ibama pelo Departamento de Ciências Agrárias e Ambientais.

A previsão do governo da Bahia é usar basicamente uma pedreira dentro da área do complexo portuário para construir o quebra-mar e abrir vias internas que permitam fazer o transporte sem prejudicar o movimento na BA-101. O parecer questiona a versão e diz que a pedreira localizada dentro da área do porto equivale a somente 25% de todo o insumo que será necessário.

"Todos os verões morriam pelo menos duas ou três pessoas atropeladas por aqui. Depois de instalarem quebra-molas, tudo o que aconteceu foram pequenas batidas, sem nenhuma vítima fatal. Com tantos caminhões e gente querendo ultrapassar, seria um retrocesso gigantesco", protesta Paulo Emílio Nascimento, líder da Associação dos Moradores da Vila Juerana, uma comunidade de cerca de 700 habitantes que será vizinha à área do porto.

Nascimento, que é fortemente contrário ao projeto, defende o fortalecimento do turismo na região e vê uma sobrevalorização das expectativas com a geração de empregos pelo complexo portuário. "Só um condomínio fechado, que eu conheço, emprega 48 pessoas com carteira assinada, como porteiros, seguranças, babás e arrumadeiras", afirma.

Uma amiga dele, Telma Almeida Azevedo, é dona da barraca de praia Virou Mania e tem expectativas muito mais otimistas. "Sou a favor do porto, mesmo que a minha cabana tenha que sair daqui", diz Telma, numa terça-feira de manhã, sem nenhum cliente por perto e todos os funcionários sentados, à espera de um movimento que teima em não aparecer. Quando a maré está alta, já encosta na sua barraca. Com a perspectiva de erosão, é provável que suas instalações sejam engolidas pelo mar. "Mas penso no futuro dos meus filhos e netos."

A filha de Telma, primeira na família a ter feito curso superior, formou-se em administração de empresas há seis anos, mas nunca encontrou emprego na sua área de atuação. Por isso, ela clama por "oportunidades que durem o ano todo, e não uma temporada que vai de novembro a fevereiro". O faturamento diário da barraca, uma das mais conhecidas da região, cai de R$ 6 mil por dia no verão para menos de R$ 100 diários na baixa estação.

"Não temos emprego, médico, escola, emprego, transporte, iluminação pública. Vamos ser práticos. Quem vem de São Paulo ou de Brasília para cá quer tranquilidade mesmo, mas será que isso resolve a vida da gente?", questiona Telma, que é uma das coordenadoras do comitê de entidades sociais de Ilhéus. "A cidade está um caos. Se as pessoas não entendem isso, é porque não vivem o nosso dia a dia", sentencia.