Sertanejo tem máquina de lavar, só que falta água

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30 Abril 2012

O descompasso entre a implantação de infraestrutura hídrica no semiárido nordestino e o crescimento da renda dos seus moradores fez surgir na região vítimas da seca que não têm água encanada, mas moram em casas com antenas parabólicas, TVs de LCD e até máquinas de lavar.

A reportagem é de Fábio Guibu e Daniel Carvalho e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 29-04-2012.

Segundo a FGV (Fundação Getúlio Vargas), a renda no Nordeste cresceu 42% entre 2001 e 2009. Já o número de domicílios com água encanada na zona rural aumentou apenas 6,9% entre 2000 e 2010, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Para o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), o descompasso resulta de "anos sem política de sustentabilidade hídrica".

Numa região onde apenas 35% dos domicílios rurais são ligados à rede de distribuição, a solução no período de estiagem são ações emergenciais. Só com carros-pipa, o governo federal vai gastar neste ano R$ 164,6 milhões.

CISTERNA E GELADEIRA


"Já passei por muitas secas, andava dois quilômetros para buscar água com o pote na cabeça", disse o agricultor aposentado Serafim Raimundo da Silva, 76, morador da zona rural de Paranatama, no agreste de Pernambuco.

"Hoje ainda não tenho água de cano [encanada], mas se quiser água gelada é só tirar da cisterna e colocar na geladeira", afirma ele.

O agricultor mora na mesma casa desde criança. Era de taipa, virou de madeira e agora é de tijolo, conta.

No telhado, uma antena parabólica divide espaço com um sistema de coleta de água da chuva. Na sala, há uma TV de LCD e, no quintal, a máquina de lavar roupa funciona com água de balde.

Da estrada que liga Paranatama à divisa com o Estado de Alagoas, é possível ver o brilho de outras parabólicas. Ao lado das casas, quase sempre há uma cisterna.

"Pegar água do barreiro virou coisa do passado", diz a agricultora Terezinha Leite da Silva, 55, que mora em Bom Conselho (PE).

"Antigamente, a gente era obrigada a coar a lama para beber [a água]", lembra ela. "Agora, ainda não tem água de torneira, mas a represa é só para lavar roupa e os animais", diz Terezinha.

Ela nasceu na região e morou em um barraco de taipa, no mesmo lugar onde ergueu sua casa de tijolos. Por três anos, recebeu o Bolsa Família, período em que financiou o armário onde guarda os eletrodomésticos.

O carro-pipa visita a região a cada 15 dias. Mas, se o reservatório esvazia antes disso, ela divide os R$ 60 que paga por uma carga d'água com a vizinha, Maria Ferreira, 25.

Sertanejo sofre menos com a seca, mas ainda cobra estrutura

O comentário é de Eduardo Scolese, jornalista, publicado no jornal Folha de S. Paulo, 29-04-2012.

Os efeitos da seca de hoje não são mais como antigamente. O clima é o mesmo, mas os sertanejos agora têm algumas armas para se defender da estiagem.

O leitor mais antigo da Folha deve lembrar da emigração de flagelados, de crianças esqueléticas na TV e de famílias se alimentando apenas de farinha, calangos, preás e pombas, cenas marcantes até a seca do final dos anos 70 e o início dos 80.

De lá para cá, cessaram os saques a armazéns, os assaltos a trens e o desespero por cestas básicas, muito por conta da chegada da aposentadoria rural, dos programas de transferência de renda, da eletrificação no campo e da construção de cisternas (reservatório de água tratada -e não barrenta- nos quintais).

Todos esses benefícios, porém, não vieram acompanhados de uma rede de distribuição de água às pequenas cidades e aos vilarejos isolados no Nordeste e no norte de Minas Gerais.

Em inúmeras localidades, não há encanamento que leve a água de rios e de açudes à torneira dos sertanejos.

Sem isso, a plantação e o gado definham na estiagem, e a "indústria da seca" revive. Em ano eleitoral, por exemplo, é comum o carro-pipa da prefeitura abastecer só as cisternas de aliados.

'BOLSA ÁGUA'

A diferença é que hoje as famílias ignoradas por esse prefeito têm como usar o dinheirinho da aposentadoria, do Bolsa Família e desse novo "Bolsa Estiagem" para comprar uma "carrada" de água - o dono do carro-pipa enche meia cisterna e estipula o preço pela distância entre a casa e o açude.

"Com a estiagem no auge, o preço [para alugar um carro-pipa] fica entre R$ 50 e R$ 300. Mas já tem gente cobrando até R$ 700 aqui na Bahia", diz Roberto Malvezzi, espécie de consultor da Comissão Pastoral da Terra para assuntos hídricos.

Essa estiagem de hoje, que atinge 90% do semiárido, deve acabar em outubro deste ano. Mas outra com certeza virá.

Espera-se que até lá o país que um dia conviveu com casos de antropofagia nas grandes secas e até importou dromedários africanos para matar a sede da população já tenha concluído a massificação das cisternas, a transposição e a revitalização do rio São Francisco e, principalmente, a implantação de uma rede de adutoras que leve água ao mais isolado dos nordestinos.

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