Hildegard de Bingen: os bastidores de uma promoção tardia

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28 Abril 2012

A transposição da imagem de Hildegard de Bingen, que viveu entre os séculos XI e XII, para a mulher de hoje não pode se limitar a algumas observações exaltantes sobre os seus dons excepcionais como abadessa, compositora, filósofa, farmacêutica, "conselheira" dos grandes do seu tempo e ecologista. Busquemos descobrir um rosto de Hildegard mais próximo da realidade histórica.

A opinião é da teóloga italiana Karin Heller, doutora em História das Religiões e Antropologia Religiosa  pela Sorbonne, Paris IV, e professora de Teologia na Whitworth University, em Spokane, Estados Unidos. O artigo foi publicado no sítio Comité de la Jupe, 19-04-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O anúncio romano da próxima canonização e proclamação como "Doutora da Igreja", de Hildegard de Bingen (1098-1179) repercutiu na mídia em torno do Natal do ano passado. Podemos nos alegrar com esse reconhecimento das autoridades romanas oito séculos depois da morte da "Sibila do Reno".

Quanto ao significado dessa promoção tardia, é preciso, acima de tudo, ir buscá-lo nas duas audiências públicas feitas por Bento XVI nos dias 1º e 8 de setembro de 2010, consagradas à pessoa e à vida de Hildegard. Nelas, o papa delineia um retrato da "santa", bem enquadrado pela Mulieris dignitatem e dedicado à exaltação do "gênio feminino", segundo o ponto de vista vaticano.

As mulheres do século XXI, cristãs e católicas favoráveis a um diálogo com o mundo do espírito das aberturas teológicas criadas pelo Vaticano II, não se deixarão enganar. A transposição da imagem de uma mulher que viveu entre os séculos XI e XII para a mulher de hoje não pode se limitar a algumas observações exaltantes sobre os dons excepcionais de Hildegard como abadessa, compositora, filósofa, farmacêutica, "conselheira" dos grandes do seu tempo e ecologista antes do tempo. À espera dos discursos oficiais dessa promoção tardia, busquemos descobrir um rosto de Hildegard mais próximo da realidade histórica.

Hildegard viveu no fim de uma era em que os "mosteiros duplos" ofereciam um acesso aos estudos superiores indistintamente aos homens e às mulheres que viviam sob a regra de São Bento. Essa igualdade de oportunidades se enraizava na profunda convicção de uma igualdade entre os sexos, praticada pelo cristianismo do primeiro milênio. Depois de Hildegard, ao contrário, abre-se uma época que exclui todas as mulheres das universidades nascentes, das quais a Universidade de Paris foi uma das mais renomadas.

A exclusão das mulheres da vida universitária se deveu essencialmente à lei do celibato eclesiástico promovida pelas reformas gregorianas (séculos XI-XIII). Era preciso, a todo custo, separar o clero das mulheres para garantir a castidade do clero, condição incontornável para celebrar a missa e tocar no corpo e no sangue consagrados de Cristo. O destino de Abelardo e de Heloísa é uma ilustração perfeita da incompatibilidade de uma vida de estudo no quadro aberto de uma escola catedral ou de uma universidade que acolhia homens e mulheres. Enquanto os mosteiros garantiam um ambiente relativamente seguro para manter uma conduta casta para os homens e para as mulheres, não era mais assim com o estabelecimento de escolas ligadas a uma catedral.

Hildegard ainda é uma testemunha do que um intercâmbio intelectual praticado entre homens e mulheres pode produzir para o progresso da vida humana à luz do Evangelho de Cristo. Pela sua decisão de excluir as mulheres do debate intelectual público, as autoridades eclesiásticas causaram uma interrupção brutal de um desenvolvimento muito promissor. Privaram a Igreja e a humanidade de um progresso nas ciências humanas, teológicas e espirituais para o milênio seguinte.

Heloísa é um exemplo perfeito dessa evolução que culminará na redução de todas as abadessas ao estado laical. Ela será testemunha e protagonista da batalha que oporia a Escola de Laon a Abelardo, apoiado por outros teólogos da sua época. Essa escola havia produzido os Glossalia ordinaria, que estipulavam a exclusão das mulheres da ordenação diaconal. Essa ordenação ainda conferida às abadessas fazia delas membros do clero. Abelardo e Heloísa perderam essa batalha.

Em seguida, todo traço escrito que fizesse referência a mulheres ordenadas no primeiro milênio foi erradicado, minimizado, degradado. Assim, prevaleceu a convicção de que uma ordenação de mulheres jamais havia ocorrido na Igreja depois de Jesus Cristo. Assim que tal constatação entrou nos documentos compilados pelas reformas gregorianas, não restava nada mais a fazer do que um "copia e cola" de um século ao outro. Ao mesmo tempo, o sacerdócio masculino estava a tal ponto exaltado que se fazia dele um estado metafísico especial, que elevava o indivíduo masculino ordenado acima de todas as outras categorias humanas, e dotado de um selo indelével.

Além disso, até o tempo de Hildegard, a clausura monástica era considerada como um espaço proibido ao que vinha de fora, e não como um lugar do qual não se devesse sair. Depois de Hildegard, ela se tornou uma prisão voluntária para mulheres, ou um refúgio proibido para os homens, onde as mulheres ainda podiam dar livre curso, de algum modo, às suas aspirações de criatividade intelectual e social.

Hildegard ainda se concebia em um mundo em que se podia falar olhos nos olhos com o papa, com o imperador da Alemanha, com o bispo de Mainz, de Colônia, de Würzburg, de Trier ou de Bamberg. Ela pregava do alto da cátedra nas suas catedrais, porque, sendo abadessa, também era diaconisa. Em suas pregações, isentas de toda unção eclesiástica e de todo temor de ser "politicamente correta", ela desenvolvia uma sólida teologia da Encarnação, frente aos erros dualistas do catarismo, e fustigava o clero ávido de riquezas e de honrarias.

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