Cansados, europeus reagem à austeridade

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24 Abril 2012

Os cidadãos de Praga, Paris e Amsterdã deixaram absolutamente claro nos últimos dias que estão cansados das medidas de austeridade econômica que lhes são impostas pela crise da zona do euro.

A reportagem é de Jack Ewing e Liz Alderman, publicada pelo New York Times e reproduzida pelo jornal O Estado de S. Paulo, 24-04-2012.

Mas enquanto o sofrimento provocado pelos cortes do orçamento e pela redução dos benefícios e dos serviços sociais proporcionados pelo governo leva as pessoas a protestar nas ruas, e aumenta o apoio aos partidos nacionalistas ou de extrema esquerda, não se sabe ao certo quais poderão ser as alternativas. Rejeitar os orçamentos recomendados em nome da austeridade em favor do aumento dos gastos públicos não é uma medida que garanta automaticamente o crescimento econômico, afirmam muitos economistas.

"A última coisa de que estas economias precisam é um programa de estímulo financiado pela dívida", diz Jörg Krämer, principal economista do Commerzbank de Frankfurt.

O governo de países como a Espanha, tem problemas para financiar sua dívida atual, e portanto menos ainda para usar com estímulos econômicos. A Alemanha, o único grande país da zona do euro com capacidade suficiente no seu orçamento para aumentar o déficit gastando mais, não pretende fazê-lo. (E nem a Holanda, pelo menos até a queda do seu governo ontem, por causa do impasse ao qual chegou o debate sobre austeridade versus expansão.)

Enquanto outros países europeus vacilam na beira da recessão ou já despencaram nela - a Espanha ontem, foi a última a cair - até a elite dos estrategistas começou a questionar se a Alemanha e o Banco Central Europeu (BCE) acaso não teriam ido longe demais em insistir que a disciplina fiscal é a condição sine qua non do crescimento.

A unidade da zona do euro está sob pressão enquanto outros países europeus olham com ressentimento o que consideram uma atitude hipócrita da Alemanha em insistir que todos os países da união monetária europeia mantenham a promessa de reduzir os déficits do governo em 3% do Produto Interno Bruto (PIB), ou mesmo menos que isto. O déficit do governo da Alemanha foi de um modesto 1% do PIB no fim de 2011.

"Uma corrida global e indiferenciada para a austeridade acabará se revelando autodestrutiva", disse Christine Lagarde, a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), no sábado, na reunião de primavera do fundo em Washington.

Mas Lagarde também admitiu o dilema com que se deparam os líderes europeus. A maioria deles simplesmente não dispõe dos recursos necessários para financiar os projetos de obras públicas ou os programas sociais que abrandariam a dor do aumento do desemprego e do declínio dos salários.

Na reunião do FMI, o secretário do Tesouro dos EUA, Timothy F. Geithner, continuou pedindo à Europa que pelo menos temporariamente pare de cortar o orçamento e procure tratar dos estímulos aos gastos públicos que o governo Obama prescreveu para a economia americana em 2009.

(Os EUA, que ainda podem continuar escapando impunemente de seu enorme déficit orçamentário, dependem entretanto do apetite mundial aparentemente insaciável pelos títulos do Tesouro que financiam a dívida e o déficit americanos.) A questão fundamental com que se defronta a zona do euro é como escapar de um círculo vicioso. Os cortes do orçamento prejudicam o crescimento e elevam o desemprego. Consequentemente, receita cai porque há menos gente pagando impostos - obrigando a uma austeridade maior ainda. O crescimento econômico aparentemente está ausente da equação.

Ontem, surgiram novas evidências da situação ruim da economia da zona do euro. Dados oficiais confirmaram que a Espanha está em recessão, depois que a atividade econômica caiu 0,4% nos três primeiros meses do ano. A Espanha vai fazer companhia aos outros países europeus atualmente em recessão, Itália, Bélgica, Holanda e, fora da zona do euro, a República Checa. Até a Alemanha pode ter caído na recessão nos três primeiros meses de 2012, afirmam os economistas, embora os dados oficiais ainda não tenham sido divulgados.

Sem confiança

Ao mesmo tempo, uma pesquisa realizada entre os gerentes de vendas europeus e divulgada pela empresa de pesquisa Markt mostrou ontem um declínio inesperado da confiança no mês de abril.

Os sinais de frustração da população se multiplicam. Na França, os eleitores deram ao candidato socialista a maioria dos votos no primeiro turno das eleições, depois que ele prometeu adiar o equilíbrio do orçamento e, ao contrário, contratar mais professores e policiais e elevar os subsídios à indústria.

As medidas de aperto orçamentário do presidente Nicolas Sarkozy em resposta à crise da zona do euro são uma das razões pelas quais corre o risco de perder o cargo.

Em Praga, calcula-se que cerca de 90 mil checos foram às ruas no domingo para expressar sua falta de confiança em um governo que cortou o orçamento, elevou os impostos e também enfrenta acusações de corrupção.

Até os prudentes holandeses enfrentam uma crise política ao buscar o acordo a respeito do austero orçamento do governo.

Esses sinais de agitação social, porém, não parecem estar aplacando a insistência da Alemanha numa estrita austeridade. Jens Weidmann, presidente do Bundesbank, o banco central alemão, defendeu ontem que o problema central na zona do euro é uma falta de fé na solidez da saúde fiscal de governos.

A única solução, disse Weidmann, no Economic Club de Nova York, é colocar em ordem as finanças públicas.

"Há pouca alternativa", disse Weidmann, que é uma voz influente no conselho gestor do BCE. "No fim das contas, não se pode sair da dívida tomando emprestado; a única abordagem promissora é sair cortando despesas." As opiniões de Weidmann são amplamente compartilhadas na Alemanha. Mas a Alemanha está ficando isolada na Europa na medida que um número crescente de economistas e formuladores políticos argumenta que os países do euro poderiam mais do que se contrapor aos efeitos sociais da austeridade sobre os europeus comuns.

Consumo

Marie Diron, uma economista que aconselha a firma de consultoria Ernst & Young, disse que a Alemanha poderia desacelerar seu próprio ímpeto para equilibrar o orçamento e fazer mais para encorajar o consumo doméstico. As demais nações europeias se beneficiariam se a Alemanha comprasse mais de suas exportações. "A austeridade precisa se encaixar num contexto de política mais amplo", disse Diron.

Na semana passada, o FMI pediu para a Europa começar a emitir bônus lastreados por todos os membros, os chamados bônus do euro, uma medida que tiraria a pressão dos países mais pesadamente endividados cujos custos altos de captação estão contribuindo para suas mazelas econômicas. Na Alemanha, há pouco respaldo a medidas como essas.

Até dirigentes de alguns países em dificuldade dizem que o estímulo fiscal com aumento dos gastos públicos pode dar errado, tirando a pressão sobre os líderes políticos para estes fazerem as mudanças necessárias.

Vítor Gaspar, o ministro das Finanças de Portugal, disse que seu país - durante o governo anterior - cometeu um erro quando respondeu à retração de 2008 injetando dinheiro na economia. O resultado, disse ele, foi um problema de dívida mais profundo sem a criação de um crescimento duradouro.

"Meu país decididamente oferece uma história educativa que mostra que, em alguns casos, políticas expansionistas de curto prazo podem ser contraproducentes", disse Gaspar.

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