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27 Março 2012

Quando jovens, Jaime Ortega e José Conrado Rodríguez foram professor e aluno em um seminário católico cubano. Décadas depois, o professor, hoje cardeal, e o aluno, uma padre na zona rural, estão duelando pela alma da ilha - e pelo papel que a Igreja deve ter em sua salvação.

A reportagem é de Nicholas Casey, publicada pelo The Wall Street Journal e reproduzida pelo jornal Valor, 27-03-2012.

A discussão dos dois envolve a função da Igreja nas pressões por reformas, no momento em que os 53 anos de poder dos irmãos Castro começa a perder força. O cardeal Ortega, o principal clérigo católico de Cuba, faz críticas cautelosas ao governo, enquanto o padre Rodríguez prega, no púlpito de sua paróquia em Santiago, uma oposição mais aberta.

O papa Bento XVI chegou ontem a Cuba, na segunda visita de um papa ao país. Na sexta-feira, ele disse que "a ideologia marxista, da maneira como foi concebida, não corresponde mais à realidade", e conclamou os cubanos a "buscar novos modelos".

Depois que o papa João Paulo II pediu mais liberdade em Cuba durante a visita que fez ao país em 1998, Fidel Castro não mexeu muito em suas políticas, que incluíam restrições à Igreja.

Mas o presidente Raúl Castro, pressionado pelas dificuldades domésticas, vem se aproximando silenciosamente da Igreja para que ela assuma parte do fardo de um Estado financeiramente doente, o que inclui a concessão à Igreja de um novo papel na educação. Castro até mesmo abriu as portas para críticas de várias publicações religiosas, enquanto conduz lentamente a ilha a reformas.

O papa participará de cerimônias relacionadas a um ícone do catolicismo cubano, Nossa Senhora da Caridade, uma imagem de Maria que teria sido encontrada há 400 anos por um pescador cubano. Nos bastidores, a Igreja enfrenta seu maior dilema desde a revolução de 1959: como ela deve aproveitar o espaço conseguido e pressionar o regime comunista a mudar?

O cardeal Ortega, que prega a cautela, foi quem tornou possível a visita do papa. A chegada de Bento XVI é o mais recente de uma série aparente de sucessos para o cardeal numa ilha que, até poucos anos atrás, era uma nação ateia onde o Natal foi eliminado como feriado.

O cardeal, de 75 anos, encontra-se regularmente com Raúl Castro e já obteve concessões como a soltura de prisioneiros políticos e uma nova tolerância à participação aberta de funcionários do governo em missas. Ele obteve permissão até mesmo para ajudar a começar uma faculdade de negócios - a primeira na Cuba comunista -, para treinar empreendedores em meio aos desafios legais que permitem aos cubanos abrir pequenas empresas. Ele raramente lança críticas ao regime comunista em público, uma posição que fez dele um alvo de ataques.

O padre Rodríguez, 60, tem uma postura diferente. Ele acredita que a Igreja tem o dever moral de ajudar a libertar as pessoas do comunismo, um objetivo, diz ele, que a levou a se opor ao comunismo no Leste Europeu na década de 1980. Em uma pequena igreja no canto oposto da ilha em relação a Havana, onde fica a catedral do cardeal, o padre Rodríguez critica duramente o governo cubano, chamando-o de retrógrado, tirânico e acusando-o de governar em causa própria.

Anos atrás, o padre Rodríguez escreveu uma dura carta a Fidel Castro, que ele leu no púlpito sobre aplauso dos fiéis. Pouco depois, a Igreja o enviou para estudar em uma universidade espanhola por alguns anos. Quando retornou, continuou criticando abertamente o governo e acabou sendo transferido para uma paróquia distante.

Cada uma das posturas implica em riscos. As tentativas de diálogo de Ortega com Raúl Castro vêm rendendo dividendos, mas elas poderão dar legitimidade ao regime e permitir ao Partido Comunista resistir a reformas mais amplas. A postura linha-dura do padre Rodríguez, por outro lado, poderá fazer com que o governo recue na liberalização recente nas políticas religiosas, ou levar o povo a assimilar a mensagem de oposição de uma maneira violenta, algo que a Igreja não quer.

Raúl Castro reformou partes da economia, permitindo aos cubanos estabelecer pequenos empreendimentos e comprar e vender moradias. Mas Cuba ainda depende muito dos subsídios da Venezuela e continua longe de desenvolver uma economia sólida.

Não existem números confiáveis sobre o número de católicos em Cuba. O Vaticano diz que cerca de 60% da população da ilha é católica. Alguns clérigos envolvidos com o país estimam que cerca de 500 mil cubanos, de uma população de 11 milhões, participam das missas típicas de domingo.

O Ministério das Relações Exteriores de Cuba disse em um comunicado por escrito que os direitos religiosos vêm sendo defendidos desde a revolução e que o governo tem um longo histórico de boas relações com o Vaticano. "Em Cuba, há uma ampla liberdade religiosa", afirma o comunicado.

Através de seu porta-voz Orlando Márquez, o cardeal Ortega rejeitou o pedido para ser entrevistado para este artigo. Márquez disse que o trabalho do cardeal é "encorajar as reformas que o governo iniciou". Ele acrescentou: "É possível dizer que as mudanças têm sido lentas, insuficientes ou limitadas. Mas elas começaram".

Na hierarquia da Igreja, há quem descreva o cardeal como descontente com o sistema comunista, mas desejoso de trabalhar dentro de suas limitações para garantir mudanças. "Ele não vê seu papel como o de um Jeremias... ou seja, um profeta", afirma Thomas Wenski, o arcebispo de Miami que conhece o cardeal desde a década de 1990. "Seu papel é ser um pastor, acompanhar as pessoas."

O padre Rodríguez, às vezes chamado de "o cardeal do povo", é o preferido dos dissidentes cubanos. "É um homem com uma visão política perfeita, um cruzado e um santo", diz José Luis García, um dissidente cubano e médico que ficou preso por sete anos, depois de publicar um jornal não autorizado pelo regime.

Na manhã de domingo, após a missa na igreja do padre Rodríguez em Santiago, a paroquiana Ilena Canales referia-se a ele como "uma maravilha, um padre que fala sobre os direitos humanos. Ninguém pode calá-lo. Ele é muito sincero conosco."

A discussão sobre a relação adequada entre a Igreja e as autoridades seculares data do Evangelho, que descreve Jesus dizendo: "Deem a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". Em uma reunião realizada no ano passado, o cardeal citou a passagem, lembrando aos ouvintes que os primeiros mártires do cristianismo, enfrentando as adversidades do governo romano, "proclamaram sua fé" em vez de "atacar a estrutura do poder".

O padre Rodríguez interpreta essa passagem de outra maneira. "Ela significa que todos, inclusive o Estado, devem responder às leis divinas", disse ele recentemente em um encontro de exilados cubanos em Miami. "A Igreja precisa libertar o povo."

Os dois clérigos atingiram a maioridade depois da Revolução Cubana de 1959, que foi um desastre para a Igreja. Fidel Castro deportou centenas de padres e freiras, fechou todas as escolas católicas e nacionalizou as terras e propriedades da Igreja.

O padre Rodríguez era garoto quando os combates começaram. Sua casa foi queimada pelos revolucionários e um tio foi executado sob a acusação de ser espião, diz ele. Em 1966, o cardeal Ortega, então um jovem padre, foi enviado para um campo de trabalho junto com intelectuais, gays e outros.

Os caminhos dos dois se cruzaram na década de 1970, quando o cardeal Ortega, saindo do internamento, deu aulas de Teologia Moral ao padre Rodríguez em um seminário de Havana. "Éramos amigos, então", lembra o padre Rodríguez, que ainda carrega em sua maleta uma fotografia dos dois na época. "Posso dizer que ele é um homem com todas as virtudes de um cardeal e todos os defeitos de um cardeal."

Logo os caminhos dos dois se separaram. O cardeal Ortega começou a subir na hierarquia da Igreja em Havana; o padre Rodríguez continuou em sua paróquia distante. No começo da década de 1990, Ortega foi nomeado cardeal. Perto de Santiago, o padre Rodríguez observava o colapso da União Soviética e a entrada de seus subsídios a Cuba no "período especial", uma época de escassez crônica de alimentos. "Percebia a cada domingo que meus paroquianos ficavam cada vez mais magros", diz ele.

Em 1994, o padre Rodríguez escreveu sua carta aberta a Fidel Castro e a leu do púlpito. "Muitas pessoas comuns afirmam que você não está a par do que realmente está acontecendo, mas eu não compartilho dessa visão", disse ele. "O que é que você não sabe sobre a situação de penúria dos quase 11 milhões de cubanos desta ilha?" Uma gravação da carta foi distribuída em Miami, o que catapultou o padre Rodríguez para a fama, mas também deixou o governo cubano furioso.

Logo, ele tomou conhecimento de que Igreja o mandaria para a Espanha por vários anos para estudar em uma universidade do país. "Eu chorei", diz ele. A vida na Espanha, junto com suas visitas a países que haviam pertencido ao bloco oriental, como a Hungria e a Romênia, ensinou-lhe coisas sobre ditaduras em transição, afirma ele.

Em 206, Fidel Castro deixou o poder por motivo de doença e transferiu as rédeas do governo para seu irmão mais novo, Raúl. Este sinalizou um interesse nas reformas. Também herdou uma economia aos pedaços. Programas sociais que eram a marca registrada da revolução, do sistema de saúde ao sistema de ensino, estavam em grandes dificuldades. A Igreja era o único grupo de fora do governo em posição de ajudar.

"Foi uma pílula amarga que teve que ser engolida o governo admitir que precisava da Igreja", diz o arcebispo Wenski, o prelado de Miami. O cardeal Ortega e seus bispos viram uma oportunidade da Igreja reconquistar influência ajudando o governo.

A Igreja, embora ainda proibida oficialmente de educar os cubanos, estabeleceu "programas de treinamento" de verão para professores cubanos, uma categoria que foi duramente atingida pela fuga de talentos da ilha. Silenciosamente, ela começou a ministrar programas de cuidados com crianças nas igrejas, para suplementar os superlotados programas administrados pelo governo.

Em seu canto da ilha, o padre Rodríguez via poucos motivos para comemoração. Em 2007, diz ele, as forças de segurança cubanas invadiram sua paróquia e prenderam mais de uma dezena de dissidentes que ali estavam. Rodríguez chamou o ataque de obra de "terroristas".

Em 2009, o padre Rodríguez desafiou Raúl Castro em uma carta aberta. "Precisamos ter a enorme coragem de reconhecer que em nossa terra há violações constantes e injustificáveis dos direitos humanos, que se podem ver no grande número de prisioneiros políticos e na agressão às liberdades mais básicas: de expressão, imprensa e opinião", dizia a carta.

Com a pressão do governo contra os dissidentes seguindo adiante, o cardeal mostrou-se capaz de obter resultados. Na primavera setentrional de 2010, o grupo Mulheres de Branco, formado por viúvas de 75 prisioneiros políticos detidos em 2003, foi fisicamente atacado diante de uma igreja por uma multidão pró-governo, um incidente que foi filmado.

Em vez de se manifestar publicamente, o cardeal Ortega recorreu ao governo. A multidão parou com as agressões. O cardeal propôs conversas com Raúl Castro para libertar aqueles dos 75 que ainda estavam atrás das grades.

"O cardeal vinha se manifestando menos antes, mas isso foi a fagulha que o levou a assumir um novo papel público", afirma o padre Juan Molina, um clérigo salvadorenho-americano que vive em Washington e conhece o cardeal.

O resultado, na metade de 2010, foi um momento divisor de águas em Cuba. Raúl Castro, sentado ao lado do cardeal, explicou que os prisioneiros seriam soltos - o primeiro acordo do tipo em anos. Mas havia um porém: a maioria dos prisioneiros havia concordado em trocar Cuba pela Espanha.

Fidel Suárez, um dos últimos prisioneiros soltos, diz que gostaria de voltar para casa, em Cuba. Mas quando ele conversou com o cardeal Ortega, por telefone, da cadeia, essa opção não lhe foi dada, explica ele.

Suárez diz que pediu para se encontrar pessoalmente com o cardeal, em público, na capital antes de partir para a Espanha, para demonstrar solidariedade aos dissidentes. Mas Suárez lembra que "houve um silêncio do outro lado da linha e ele finalmente disse, 'que Deus esteja com você'. Ele não quis se encontrar com a gente".

O porta-voz do cardeal diz que Suárez escolheu voluntariamente ir para a Espanha e não solicitou um encontro pessoal. "Algumas pessoas falam de uma aliança entre a Igreja e o Estado para banir os prisioneiros [de Cuba], mas isso não é verdade", afirma o porta-voz.

As negociações do cardeal Ortega foram amplamente vistas como uma vitória dos direitos humanos. Ele voltou a se sair bem no fim do ano passado, quando Raúl Castro e o Vaticano acertaram a visita do papa Bento XVI.

Enquanto isso, o padre Rodríguez, corria o risco de ser alijado. No começo do ano passado, membros da arquidiocese do padre Rodríguez em Santiago informaram-no de que ele seria transferido de Santiago, a segunda maior cidade do país, para o vilarejo de El Cristo, onde ela havia servido como padre recém-nomeado.

Em entrevistas concedidas na época, Rodríguez protestou contra a Igreja, afirmando que ela estava tentando amordaçá-lo. Ele enviou uma carta-queixa para sua arquidiocese, com uma cópia para o Vaticano que, segundo pessoas a par da iniciativa, não passou pelo cardeal Ortega.

Márquez diz que o cardeal Ortega não teve nada a ver com a transferência. Vários clérigos afirmam que a rotatividade de padres é uma prática padrão da Igreja.

Por ora, o padre Rodríguez continua em sua igreja em Santiago, a Santa Teresita de Niño Jesús, enquanto membros da Igreja buscam um substituto. Ele agora diz que a nova paróquia poderá ser uma mudança boa para ele. "Gosto do campo, e sou um camponês de coração", afirma.

"Sei que minhas palavras e minhas opiniões causaram alguns problemas para a hierarquia. E me mandar para longe talvez torne a situação mais fácil para eles. Mas, mais uma vez, o trabalho que estou fazendo aqui é perto de meu povo, a hierarquia não pode fazer esse tipo de trabalho, porque ela é a hierarquia. É por isso que estou aqui."

O arcebispo Wenski diz que os dois clérigos não estão tão distantes um do outro quanto pode parecer. "Eles dizem que Deus dá risadas quando somos mencionados como uma religião organizada, e talvez estejamos vendo isso por aqui", diz ele. "Esses dois homens podem estar dando ênfase em notas diferentes, mas estão cantando a mesma canção."

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