O testamento de Atahualpa Yupanqui

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Por: Jonas | 26 Março 2012

Às vezes, parecia-me intuir que, como já disse Ortega, para o homem também as coisas têm suas circunstâncias. “La capataza”, este livro de Atahualpa Yupanqui, publicado em 1992, chegou-me quase ao mesmo tempo da notícia de sua morte (ocorrida em Nimes, no sul da França) e, no entanto, entre a autêntica dor por tal perda e as habituais coberturas, de rigor, que prodigalizaram os meios de comunicação – neste caso, muito bem merecidas -, surpreendi-me com a alegria de reencontrá-lo, vivo, nessas páginas. Elas eram uma íntegra reafirmação de seu lirismo, mas que, editadas apenas um mês antes de sua partida, se tornaram, sem dúvida, um testamento.

O artigo é do poeta, tradutor e ensaísta, Rodolfo Alonso, publicado no jornal Página/12, 22-03-2012. A tradução é do Cepat.

Sob a clara metáfora do título, essa “lua do céu” que nomeia, tão sugestivamente, “'capataza' / de tudo o que amo e o que deixo”, esse livro reúne textos e poemas de toda uma vida tão intimamente rica, como generosamente pródiga. Não por acaso, teve o orgulho e a honra, bem claros, de conseguir ser escutado – mesmo fora do país – sem desprezar sua hombridade de bem, sua dignidade de artista, criando, apenas com sua presença, uma aura de respeito leal e de calor humano, onde se recriou o antigo diálogo do homem com a voz e sua música, com a verdade e seu mistério.

Foi dele mesmo e soube ser de todos, sem dúvida porque soube ser o mesmo, com tudo, integralmente, por isso, pôde ser tão nosso. Suas palavras, naquele livro, separadas de seu violão afiado, indelével, disso que constitui a canção perfeita, revelam sua plena honestidade. Nele havia, também, e é compreensível, o dom da linguagem, como tinha o dom de ouvir. Essas páginas nos devolvem a nobreza pausada de seu sotaque, o poder de sua língua.

Nascido em Pergamino, na província de Bueno Aires, em 1908, aos sete anos se estabeleceu em Tucumán. Herdou de seu pai, um ferroviário, a paixão pelas viagens. Se ele andou todos os caminhos, primeiro foram os do Norte e da Argentina inteira, depois da América limpamente mestiça e, mais tarde, da Europa, do Japão e do mundo.

Para a minha infância de portenho, filho de imigrantes que buscava (instintivamente) sua identidade e que desde muito cedo procurou conhecer o país, foi fundamental o precoce contato com sua personalidade. Junto com o tango, em sua era de esplendor, por volta dos anos quarenta, a arte de Atahualpa Yupanqui e de outros, como ele (quem pode se esquecer de Manuel Castilla e Cuchi Leguizamón?), impregnaram-me, desde criança, com o mais puro e autêntico folclore desta terra. Ainda menino, buscando entender, descobri que essa música profunda e contida, que esta palavra viva, não era a voz anônima do povo, mas tinha um autor, autores, criadores.

Porém, depois, já adulto, compreendi que esses autores eram na realidade, de modo imanente, recriadores, retransmissores de uma sabedoria também profunda e encarnada, que ao mesmo tempo em que nos tornava próprios daquilo que queríamos chegar a ser, argentinos, também não deixava de ter ancestrais, muitas vezes insuspeitados. Que esses ancestrais foram os índios primigênios, os autênticos naturais destas terras, não era surpresa alguma, mas sim que, ali, se misturavam músicas e tons, e até instrumentos de outras origens, que sequer chegaram a imaginar conquistadores.

A voz e o violão de Atahualpa Yupanqui (nome de forte raiz inca, com o qual ele se rebatizou,sendo que antes se chamava Héctor Roberto Chavero) se converteram, com indubitável propriedade, na evidência de uma realidade personalíssima e no renascimento de uma ressonância antiga e geral.

Hoje, e não somente arruinado pela sua ausência, fica mais difícil alentar uma esperança tão reparadora. Eu temo que hoje as fontes de outrora, espontaneamente fecundas da criatividade popular, parecem cegas pelos miasmas deletérios da sociedade de consumo massivo. Essa sociedade em que o espetacular e o estrondoso, apresentado pelos meios de comunicação, conspiram – quando não anula – contra a recolhida comunhão com um artista legítimo, que não apela se não à sua voz e violão, cantando quase como para si mesmo. E, como pode comprovar-se exatamente nas páginas de “La capataza”, foi o mesmo carismático Ata quem o percebeu, já em 30 de maio de 1936: “E, em Buenos Aires, o folclore seguirá sendo para alguns uma missão, para outros, algo que está na moda, e para a grande maioria uma indústria”.

Como os desolados colegas que despediram o seu caixão em Paris, no dia 28 de maio de 1992, quando o devolviam à sua terra, ao seu Cerro Colorado, não podemos deixar de senti-lo presente. Ele sabia, como tantas outras coisas, que os poetas “sentem quando os ronda de perto o grande silêncio; quando vai se aproximando, cada dia, cada semana, como uma ampla sombra, amada, nunca desconhecida, o silêncio”. E, por isso, podemos dizer dele, contra o silêncio, o que ele soube dizer à morte de Félix Pérez Cardozo: “Difícil será ouvir, de agora para frente, uma harpa com a sua”. Apenas colocando em suas mãos, claro, para sempre, o violão de sempre.

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