México e Cuba. O próximo desafio de Bento XVI

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23 Março 2012

No México e em Cuba, o Papa Ratzinger ditará em espanhol a agenda futura. Virando páginas escuras, fora e dentro da Igreja.

A nota é de Giacomo Galeazzi, publicada no blog Oltretevere, 21-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

São quatro as cidades que Bento XVI visitará no México e em Cuba. São dez os discursos que, no bicentenário da independência, ele irá pronunciar nos seis dias de visita entre potencialidades e contradições da América Latina, "acionista majoritária" da Igreja globalizada.

O pontífice chega ao México pela primeira vez, a três meses da eleições presidenciais do dia 1º de julho. E, mesmo que a Igreja ressalte que a sua visita não tem nada a ver com a política, e o Santo Padre não previu encontros com os candidatos, alguns analistas observam que o evento terá o seu peso no segredo das urnas eleitorais. A ida do papa não tem nada a ver com a política: ela responde a um convite da Conferência Episcopal Mexicana, ao qual a Presidência da República se somou, e se realiza em Guanajuato, como uma "recompensa" à sua população que se manteve, em sua grande maioria, fiel à Igreja Católica, afirma o arcebispo de León (uma das cidades no centro da visita papal), José Guadalupe Martin Rabago, que, em sua tentativa de esclarecer quaisquer dúvidas, salienta como a responsabilidade do papa é a de "evangelização". E acrescenta: "Pensar que o papa pode dedicar o seu tempo para apoiar um partido político significa não ter presente a verdadeira dimensão das nossas possibilidades".

O núncio apostólico Christopher Pierre explica que os candidatos presidenciais foram convidados para participar de uma das missas celebradas por Bento XVI, mas o papa não terá audiências com eles, pois ele não vai ao país por causa do processo eleitoral, mas sim para "falar de temas que preocupam o país, como a violência, a pobreza, a educação, a fé".

No entanto, não faltam analistas políticos que consideram que a visita do papa terá o seu peso no momento do voto, incluindo Roberto Blancarte, pesquisador do Colegio de México (centro público de estudos acadêmicos) e autor de “Estado laico”. "É ingênuo pensar que nem a Conferência Episcopal Mexicana, nem a Nunciatura Apostólica, nem o Vaticano, nem o governo federal consideraram que as datas em que a visita ocorre caem no meio da campanha eleitoral mais importante em seis anos", defende Blancarte, convencido de que a presença de Bento XVI irá beneficiar substancialmente o partido no poder, o Pan, dado que o presidente Felipe Calderón será o único que terá agendada uma conversa com o chefe do Estado vaticano.

Narcotráfico

São ao menos cinco os cartéis do narcotráfico que disputam o território do Estado de Guanajuato, região atormentada pela violência, palco de combates entre organizações criminosas e a polícia, com um balanço de milhares de vítimas nos últimos cinco anos. Essa é uma das faces desse Estado no centro do país, considerado o núcleo duro do catolicismo no México, onde fervem os últimos preparativos à espera da visita do Papa Bento XVI, entre os dias 23 e 26 de março.

O que ressaltou a dureza da realidade que se impõe sobre esse território foi um informativo que o procurador-geral de Guanajuato, Carlos Zamarripa, divulgou aos deputados locais e aos expoentes políticos de destaque, incluindo também o ex-presidente da república federal Vicente Fox, natural dessa região.

É nesse documento que são listadas com nome e sobrenome cada uma das organizações criminosas que impedem o desenvolvimento da região: trata-se do cartel da família Michoacana, do Milenio, dos Los Zetas, dos Caballeros Templarios e do Jalisco Nueva Generación. Os mais ferozes, dentre outros, são os Los Zetas, que, segundo os últimos relatórios da polícia, aumentaram notavelmente os sequestros, a fim de recrutar para o seu próprio tráfico implacável jovens e imigrantes que tentam atravessar a fronteira com os EUA.

Basta dar uma olhada nas sangrentas páginas de alguns blogs mexicanos para encontrar a sua assinatura nas "narcomensagens" (assim são chamadas as fotos tiradas pelos próprios criminosos para dar publicidade às suas brutalidades), que retratam corpos despedaçados ou cabeças cortadas e abandonadas ao londo das estradas, ou até em frente a centros comerciais.

O papa e o "comandante"

"Por favor, que horas são?" Essa foi a insólita frase que João Paulo II dirigiu a Fidel Castro, recém-saído da escada do avião no aeroporto de Havana em janeiro de 1998, para aquela que foi seguramente uma das viagens mais significativas do Papa Wojtyla.

Na verdade, ninguém ouviu as palavras específicas, mas o gesto foi evidente: o papa olhou para o seu relógio e, depois, voltando-se para Castro, disse alguma coisa. Fidel, por sua vez, olhou para o seu próprio relógio e respondeu.

O histórico encontro face a face entre os dois ocorreria no dia seguinte, 22 de janeiro, no Palácio da Revolução: imagens fortes destinadas a permanecer impressas por muito tempo na memória de muitos, até porque o papa já então mostrava os sinais da doença. Pareciam não terminar mais aqueles degraus no átrio do Palácio, que Wojtyla quis subir com toda a pena dos seus anos e com toda a obstinação do seu espírito.

Por outro lado, parecia que, de cima, onde o protocolo o bloqueava, no seu completo terno azul usado para a ocasião, "El Comandante" tentava estimular o papa com o olhar, ajudá-lo, temendo que pudesse tropeçar justamente naqueles última degraus de um caminho histórico. "Eu temi por ele", contou Castro mais tarde. No fim da escala, as mãos de ambos, tremendo por causa da mesma doença, se uniram em um aperto de mãos que era simbólico, político, mas também um gesto de amizade entre dois homens idosos que, no declínio do seu tempo, encontraram a força para se encontrar.

Nesse encontro, houve uma solicitude, quase uma ternura recíproca, que foram comoventes: no braço que de vez em quando Castro estendia para segurar o papa no caminho cheio de dificuldades, pelos salões exagerados e enfáticos do Palácio do líder da revolução, havia um respeito que ia muito além do protocolo. João Paulo II e Fidel se confidenciavam pequenas frases, se arrastando ao longo dos tapetes vermelhos, para quebrar o constrangimento de sua fadiga. Um apoiado na bengala; outro, Fidel, que estava ao lado, diminuindo o passo das suas pernas mais longas, apontando, dizia, a sua perna direita para dizer ao hóspede, ao amigo, que ele também se sentia mal às vezes.

E, entre a parte protocolar do encontro entre o papa e Castro, e a conversa privada após a cerimônia que durou 45 minutos, os dois líderes também trocaram algumas piadas. Fidel, dirigindo-se ao hóspede e acenando aos jornalistas presentes, disse: "Santidade, eles deviam nos pagar. Exploram-nos e não nos pagam". E o papa: "Sim, não pagam".

Pouco depois, o então secretário de Estado vaticano, cardeal Angelo Sodano, dizia a Fidel: "Presidente, o senhor trabalha muito". Fidel, aludindo ao Papa: "Eu faço isso com muito prazer, mas foi ele que trabalhou mais em Santa Clara [catedral de Havana]".

Entre os dois, Fidel era muito mais loquaz, de cujo rosto transparecia uma evidente satisfação. O papa desembarcou em Havana naquele início de 1998 para uma visita de cinco dias, com a sua mensagem de esperança e o seu apoio moral à promoção do ser humano, ao desenvolvimento da sociedade e à reconciliação entre os cubanos, com o objetivo também de exigir o respeito pelos direitos humanos e a possibilidade para a Igreja em Cuba de se beneficiar de mais espaço para as suas atividades.

Três mil jornalistas credenciados de todo o mundo, milhares de turistas. A música de abertura da "grande festa" foi reproduzido pelos alto-falantes do Hotel Nacional em Havana, onde havia sido preparada a sala de impressa, em uma manhã de sol: primeiro irreconhecíveis, depois incríveis, subiram as notas da Ave Maria de Schubert. Foi assim todas as manhãs, durante duas semanas.

O momento mais significativo foi a missa celebrada pelo pontífice na grande Praça da Revolução, na presença de uma multidão imponente e comovida. Ninguém poderia ficar indiferente diante dos aplausos que várias vezes interromperam a homilia do papa sobre a liberdade, a paz, a verdade. Wojtyla ainda encontrava em si a energia para se indignar, gritar, sacudir as folhas do discurso.

"O Papa abraça com o seu coração e a sua palavra de encorajamento todos aqueles que sofrem injustiça". Fidel Castro estava sentado na primeira fila, ao lado de Gabriel García Márquez. El Comandante não assistia a uma missa há 53 anos.

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