Em busca do justo equilíbrio entre economia e natureza. Entrevista com Paulo Adario

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Por: Cesar Sanson | 12 Março 2012

“A economia e a questão ambiental são interdependentes. Encontrar o justo equilíbrio entre a economia e o meio ambiente é a questão”. A afirmação é do ambientalista Paulo Adario, que acaba de ganhar o prêmio de Herói da Floresta na América Latina e Caribe da Organização das Nações Unidas (ONU).

Adario é o diretor da Campanha Amazônia do Greenpeace no Brasil, além de ter sido um dos fundadores da ONG no país. Em entrevista à Gazeta do Povo, 11-03-2012, Adario falou sobre a relação entre a preservação e a agricultura e questões como a certificação florestal e a construção de grandes hidrelétricas.

Foto: Flavio Cannalonga/Greenpeace

Eis a entrevista.

A ONU premiar pessoas por serem defensoras da floresta mostra que há uma preocupação mundial crescente em mantê-la viva?


A leitura é exatamente essa. A preocupação com as florestas em geral, especialmente as tropicais, não é nova. Mas a crise climática aumentou essa preocupação. A relação homem e floresta existe há milhares de anos e sempre foi conturbada. O homem sempre utilizou os produtos florestais para construir abrigos ou para energia. E, quando ele vira agricultor, também começa a derrubar a floresta para a agricultura. As florestas da América do Sul, em especial a Mata Atlântica e a Floresta Amazônica, são as que estão desaparecendo pela primeira vez na frente dos nossos olhos. A preocupação do mundo com o desaparecimento das matas aumenta com a preocupação ambiental dos habitantes e com a noção de que a mudança climática ameaça nosso futuro. O prêmio da ONU nasce de uma certeza de que as florestas precisam de defensores. Quando me dá um prêmio como esse, a ONU confessa que as florestas continuam em risco, precisam de defensores e coletivamente estamos falhando na defesa delas.

O que pode ser feito para conter o avanço do desmatamento na Amazônia?

É preciso diminuir o desmatamento não só na Amazônia, mas no mundo todo. Mas uma questão central que marca o desmatamento das florestas tropicais é o padrão global de consumo. No Brasil, você tem um fenômeno importante, que é componente fundamental do desmatamento da Amazônia brasileira: o avanço das fronteiras agrícolas, tanto da agricultura em geral quanto da pecuária. O desmatamento diminuiu recentemente, de 27,5 mil km² em 2005 para 6,4 mil km² no ano passado. O que é uma queda bastante espetacular, mas ao mesmo tempo ainda é muita floresta. Essa queda não só contribui para emissões e tem peso grande no Brasil. Um motivo é que as riquezas da agricultura são regadas pelas chuvas da Amazônia. Então preservar não é só uma questão ética importante, mas também essencial economicamente.

A construção de grandes hidrelétricas também tem sido discutida, especialmente pelo caso de Belo Monte. O que isso impacta nas florestas?

A economia e a questão ambiental são interdependentes. O grande potencial para hidrelétricas está no Norte do Brasil. O uso desse potencial hidráulico pode ter impacto sério no crescimento do desmatamento. Encontrar o justo equilíbrio entre a economia e o meio ambiente é a questão. A gente não é contra as hidrelétricas, mas acredita que a escala delas é que é o problema. Hidrelétricas de baixa queda são as melhores alternativas para um país como o Brasil, junto com o investimento em fontes de energia renovável. É preciso também a redução de consumo e desperdício e melhoria da capacidade de geração de energia das hidrelétricas de hoje. Muitas estão ultrapassadas do ponto de vista tecnológico. Só com a mudança de equipamento aumenta o potencial de produção de energia e diminui o desperdício, sem precisar barrar novos rios.

Há também dúvidas sobre o sistema de certificação florestal. Ele realmente ajuda a diminuir o desmatamento? Há fraudes?

Como ideia, ela é ótima. Você tem um sistema em que entidades independentes e neutras atestam a origem e a qualidade ambiental, social e econômica de um produto. Os selos funcionam como garantia para o consumidor de que a produção não envolveu trabalho escravo ou desmatamento. A questão central é confiar no selo. Se ele deixar dúvidas, o consumidor vai deixar de comprar. O selo precisa ter grande credibilidade e precisa envolver diferentes atores que se neutralizem. Quanto mais a população tiver consciência da importância da sua opção de compra incluir a questão ambiental, mais as empresas vão se mover na direção correta. Mas, ao mesmo tempo, não adianta o consumidor chegar com a intenção de comprar com o selo e não encontrar nenhuma opção.

Você defende a possibilidade do desmatamento zero. Ele é possível em um Brasil tão dependente da agricultura?

É possível sim. Se você pensar na área da pecuária, são 220 milhões de hectares ocupados por ela e a média é de uma cabeça de boi por hectare. Na Europa, se tem de cinco a oito cabeças. E, desses, 70 milhões de hectares são de alto potencial agrícola e que hoje têm essa pequena quantidade de gado. Basta você investir na transformação desses solos para produção de grão e mais do que dobra a produção brasileira de alimentos sem diminuir a produção de carne. Essa é uma maneira de resolver e não precisar mais derrubar nenhuma árvore para aumentar exportações e manter a saúde do agronegócio. O próprio setor diz que com o Código Florestal não pretende mais desmatar que não é necessário. Aí eles dizem duas mentiras, mas uma verdade. Não é preciso mais desmatar, mas eles querem, sim, continuar o desmatamento e o Código possibilita isso pela anistia concedida a quem desmatou.

O que você espera da Rio +20?

Eu participei da Rio 92 e já naquela época eu vi que o governo sabia o que precisa ser feito, mas não o faz por falta de vontade política e pragmatismo geopolítico. Todo mundo está na mesma canoa e acaba discutindo quem fez o buraco antes. É um jogo de empurra-empurra. Várias outras conversas como essa falharam nos últimos anos e a Rio +20, do jeito que está, não dá esperança de ter um bom resultado.

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