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12 Março 2012

O economista Sergio Besserman Vianna é o encarregado, por assim dizer, na prefeitura do Rio, por organizar a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. Mas ele fala sobre o evento com o conhecimento do pesquisador que investiga questões ligadas às mudanças climáticas e aos danos que isso pode trazer às cidades; e também como militante das causas ambientais e colaborador do Ministério do Meio Ambiente e do Itamaraty.

A entrevista é de Giovana Girardi e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 11-03-2012.

Para ele, não é um erro a Rio+20 não ser uma conferência ambiental, justamente porque o problema que a humanidade enfrenta está intimamente ligado com o modelo econômico que desenvolvemos ao longo dos último séculos. "Temos hoje uma única questão: como a economia global pode voltar a crescer sem esbarrar nos limites do planeta?"

Eis a entrevista.

O que podemos esperar da Rio+20? Os temas que devem ser discutidos parecem tão vagos e tão abrangentes.

O mandato da Rio+20 é diferente da Rio 92. Não é uma cúpula de chefes de Estado, é uma conferência das Nações Unidas, está um degrau abaixo, digamos assim, que quer discutir desenvolvimento sustentável, economia verde e combate à pobreza.

Não é coisa demais?

É um jogo. À primeira vista geraria uma leitura reducionista. Que economia verde é toda inovação tecnológica ou modo de fazer que seja um pouco mais eficiente no uso dos recursos naturais. E combate à pobreza fica parecendo uma coisa do tipo: cuidado com essas coisas relacionadas ao meio ambiente para não atrapalharem o processo de inclusão social. Mas o tema é exatamente esse: que tipo de economia pode existir que não esbarre nos limites do planeta e consiga dar à civilização uma noção de avanço e progresso na sociabilidade. Que tipo de economia pode existir que não nos leve aos piores cenários de aquecimento global, à extinção de espécies, à acidificação dos oceanos e mantenha a inclusão social. Esse modelo que está aí não serve. Quem esbarra nos limites do planeta hoje são 1,5 bilhão de pessoas, mas 5,5 bilhões querem esbarrar. O modelo oferecido não é generalizável.

Mas quando os governos declararam que não é uma conferência de ambiente, mas de economia e combate à pobreza, houve reações negativas.

Na verdade, a reação de muita gente, incluindo a minha, foi pensar: "Claro! Até mesmo nem existe esse problema de meio ambiente". Temos mesmo de discutir a macroeconomia global, os preços que nela são praticados, a desigualdade. Repito: nem existe um problema de meio ambiente. Em seus bilhões de anos, ele sempre encontrará formas de se recuperar. A natureza não tem um problema no tempo dela. O problema é que estamos estragando a natureza do nosso tempo. E nós dependemos dela para ter água, solo, clima, biodiversidade. E a população continua crescendo e há necessidade de inclusão social. Nossa única questão é: como a economia global pode voltar a crescer sem esbarrar nos limites do planeta.

E o sr. acha que os governantes têm clara essa noção?

O que fica claro é esse jogo. Mas não há ainda maturidade na governança global ou no processo político. Não existe por trás dele uma massa crítica, muito mais ampla que as ações dos governos, que lhes permita enfrentar com coragem o problema dos limites do planeta. Ele nem sai de cima da mesa nem é abordado diretamente. Mas essa ambiguidade é normal em um processo político.

Qual será o produto do evento?

É restrito. É uma declaração política. Mas como se trata de um processo político, histórico, de gigantesca profundidade, se sair uma declaração dos chefes de Estado que impulsione as negociações climáticas, da biodiversidade e a agenda do desenvolvimento sustentável, vai ajudar. Agora, se for uma declaração pífia, a qual falte coragem para reconhecer a gravidade do momento de crise ecológica, vai ser ruim. Mas pode ser que o comício que vá vaiá-la ajude.

Já são 40 anos de discussões e ainda não se avançou muito. O sr. acha que em parte isso pode ter ocorrido porque até então estava se separando a questão ambiental das demais?

Hoje há uma compreensão de que a dicotomia de colocar o ambiente de um lado e o projeto econômico e social do outro é uma balela. E que não há possibilidade de alcançar o desenvolvimento econômico se não encontrarmos uma forma de lidar com os problemas que estamos vivenciando. Isso passa por modificar o atual rumo de insustentabilidade da produção e do consumo. E é muito difícil, porque pela primeira vez a humanidade estará lidando com tomar decisões de longo prazo. Estamos pedindo aos governantes que se elegem olhando para quatro, oito anos no máximo, trazerem para si custos significativos em nome dos filhos dos nossos filhos. E isso tem de ser feito por toda a humanidade. Porque o problema é global.

Mas ainda nem sequer conseguimos resolver problemas locais, de curto prazo, como o das chuvas todo ano...

Verdade. E a gente sabe que deve chover mais, o nível do mar vai subir. Os problemas locais e os globais estão totalmente interconectados. Além disso, a situação hoje é outra. Em 92, o que prevalecia era um sentimento, que se revelou falso pouco depois, de que a humanidade havia deixado para trás a época das grandes crises econômicas. Quando o conhecimento científico apresentava que tínhamos um problemão, a reação das autoridades era de que a humanidade seria capaz de enfrentá-los. Hoje sabemos que era um otimismo panglossiano. Hoje a Rio+20 se realiza em um contexto muito distinto. Por um lado, temos a crise econômica que começou em 2008, a maior desde 1929, com todos os seus desafios pela frente. Nenhum dos desequilíbrios macroeconômicos globais fundamentais que levaram à crise sequer começaram a ser enfrentados. Não é apenas o fato de que a humanidade não foi capaz de realizar nenhuma ação efetiva para enfrentar o problema do clima e da biodiversidade. Também são 20 anos de muito mais pesquisa, e o quadro que o conhecimento nos apresenta hoje é de uma gravidade muito maior do que aquela que conhecíamos em 92. Não é o apocalipse, a humanidade não vai acabar, mas é muito, muito grave.

O sr. está otimista?

Vamos guardar o pessimismo para dias melhores.