Religião, ópio do povo? Entrevista com Khaled Fouad Allam

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12 Março 2012

"A religião é o ópio do povo". Assim são definidas as religiões desde sempre, independentemente da sua orientação. Mas qual importância elas têm na sociedade de hoje, em que o estudo delas abriu um diálogo sobre as diversas interpretações e sobre as ligações fundamentais que as unem?

A reportagem é de Sabrina Conti, publicada no sítio Vatican Insider, 06-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Que ajuda elas podem dar a uma sociedade que parece não ter mais nenhum ponto de referência? Poderão finalmente se tornar uma luz que indica, ao invés de um ópio que ofusca?

Introduzimos essa nossa viagem conversando com o professor Khaled Fouad Allam, professor universitário, escritor, colunista e grande especialista das temáticas do mundo muçulmano.

Um início não casual, dada a incidência que o povo muçulmano já tem em nível mundial, tanto em termos de números, quanto de impacto, às vezes explosivo e muitas vezes assustador, sobre as outras confissões religiosas.

Esperamos que essa abordagem possa ser uma forma para nos aproximarmos, entendermos e, como sempre deveria acontecer, usufruirmos do melhor de todos os pontos de vista, de todas as civilizações, de todos os "vizinhos de casa", deixando que a história "ensine".

Eis a entrevista.

Professor, o mundo islâmico tem visto nestes últimos anos uma diminuição do interesse do seu povo pela religiosidade?


Na realidade, em uma perspectiva histórica, há alguns anos, pensava-se que a juventude do mundo muçulmano teria se afastado, em certo sentido, da esfera religiosa, seguindo um prolongamento do que aconteceu no mundo europeu e ocidental. Há 20 anos, um grande estudioso do Islã político – Gilles Kepel – escreveu um ensaio interessante, quase profético, "A vingança de Deus", no qual já antecipava o que aconteceria dos anos 1990 em diante: a extensão do fenômeno religioso, através de um vetor muito mais político e menos espiritual.

Hoje, a 10 anos do início desse século, um fenômeno como as revoltas ou revoluções árabes tende a demonstrar que, na realidade, o aspecto religioso do Islã não desapareceu. Certamente, ele sofreu uma importante modificação e se assiste a uma reformulação da identidade religiosa sob dois aspectos. Um aspecto de tipo pietista: muitas vezes, os jovens tendem a se conectar com uma identidade religiosa porque ela faz parte da sua personalidade, individual ou coletiva.

O segundo é um aspecto político, embora não mais político no sentido de uma ideologia excludente. Esses fenômenos fizeram com que se assista, dentro dos movimentos religiosos mais ortodoxos, a uma divisão (como demonstram as últimas eleições na Tunísia, na Argélia, mas seria o mesmo no Iêmen ou em outros países árabes/islâmicos) entre um Islã que tende a construir, inventar seu próprio segmento democrático e um outro que tende, em certo sentido, a radicalizar a identidade religiosa, fazendo dela, essencialmente, um vetor político. Refiro-me, obviamente, aos salafistas.

O que isso significa? Diante da enorme mudança dos últimos 25 anos, ou mesmo menos, tomando como referência a queda do Muro de Berlim, mudaram totalmente as estruturas do mundo. Isto é, teve início um andamento rápido do fenômeno da globalização e da modernização. Fenômeno que uniu, em certo sentido, por meio das redes sociais, redes de computadores etc., a juventude do mundo. Por um pouco de tempo, essa juventude se encontrou diante dessa globalização sem um canal relacionado aos valores. As revoltas árabes, no entanto, demonstram que é fundamentalmente necessário definir, diante de uma democracia global, um sistema de valores que delineie uma identidade.

Essa identidade é a identidade do Islã. É algo que muda, que se reformula no tempo, mas, ao mesmo tempo, é o ponto de partida do que foi a civilização islâmica. Isso quer dizer que o Islã tem um efeito estruturante na sociedade: a sociedade se estrutura através do papel do Islã. Esse papel muda em função dos contextos históricos, das tensões que o mundo atravessa, mas sempre está presente. Pode parecer que ele se afasta, desaparece, mas, na realidade, ele está presente. O que está acontecendo no nosso mundo é exatamente isso, ou seja, a reformulação de uma identidade religiosa islâmica que se posiciona, que se confronta diante do que hoje são as grandes questões da vida.

Que esferas essas questões envolvem?

Elas são inerentes ao que significa viver no mundo global. Ao que é a relação entre economia e valor: a economia pode ser definida somente por um valor monetário ou existe um valor ético?

A religião, no caso do Islã, está se confrontando com tudo isso, mas, creio eu, essa situação não está mais limitada ao Islã, mas envolve o mundo inteiro. O que caracteriza o Islã dessas últimas décadas é a saída do Islã do seu território tradicional, clássico, para se confrontar, na modernização, mediante processos migratórios, de um lado, com povos e culturas que se movem no espaço-mundo e, de outro, com o próprio fenômeno da Internet que tende a tornar a cultura global. Essa cultura global, obviamente, se define em função de identidades que são tradicionais, mas que se reformulam em função de um mundo que é novo e que pede, em certo sentido, para que se encontra um vetor basilar cultural que só pode ser ativado através da espiritualidade e de valores de sólidos.

Uma vez, aprendiam-se as Suras de memória, sem compreender o seu sentido. Há hoje uma abordagem diferente? Há a vontade de entender como nasceu, qual é o verdadeiro significado e por que certas coisas eram ditas? Enfim, há a vontade de limpar os textos sagrados do dogmatismo? Os jovens se aproximam do estudo do Alcorão de um modo diferente com relação aos seus pais?

A leitura crítica do Alcorão é um grande problema para o Islã e para o mundo muçulmano. Há movimentos que tendem a fazer com que o texto permaneça tal e qual. Em certo sentido, para congelá-lo diante da história. Refiro-me aos salafistas que leem o texto corânico assim como está escrito com as referências ao Islã do século VII.

Alguns tendem a se confrontar com as problemáticas atuais e a fazer com que os elementos de ontem saiam do Alcorão, que, no entanto, são válidos ainda hoje. Mas um jovem não pode fazer isso hoje: essa é a dificuldade dos nossos tempos. Dificuldades não apenas presentes no Islã, mas presentes agora também no Ocidente há mais de um quarto de século: falta, em um certo sentido, o papel fundamental de livres-pensadores, que nos ajudam, que traçam um caminho, que dizem algo através de uma palavra. Palavra, depois, que pode se difundir para uma juventude inteira. Não me refiro ao fato de seguir mediocremente, mas sim de ter pontos de referência. Nós não temos mais esses pontos de referência.

A história deste século é diferente da história do século XIX, no qual o papel do intelectual era fundamental, independentemente do pertencimento. Ela traçava, em certo sentido, um canal, no qual se podia hipotetizar uma posição e uma experiência tanto de vida quanto política. Refiro-me, por exemplo, ao personalismo cristão, atuado através de pessoas como Jacques Maritain, Emmanuel Mounier, que inspiraram justamente personalistas cristãos dos anos 1930, ou do segmento corânico trágico até a Segunda Guerra Mundial.

Mas hoje tudo desapareceu, ficaram só as migalhas.

O erro da juventude, e essa é a crítica que eu faço, é o de superestimar a Internet. A Internet é apenas um meio, não produz pensamento crítico, leva a confundir o instrumento com a produção do pensamento. Esse é um erro fundamental que tende um pouco a desarticular o pensamento que cada um de nós tem da realidade. Segue-se disso que, quando um indivíduo se encontra diante da realidade, ele fica completamente assustado, órfão de meios que o ajudem a atravessar o tempo histórico.

O que o senhor pensa das pessoas que se convertem a outras religiões? E que perspectivas essa transformação pode dar?

Sempre fiquei perplexo diante do fenômeno das conversões, embora eu possa entendê-las a partir de um ponto de vista sociológico. Em todas as religiões, há uma grande quantidade de mistério que uma vida não é suficiente para entendê-la e para ser autêntico diante desse mistério. Entendo mais alguém que se fascina pelo budismo, pelo judaísmo ou por outras religiões após uma busca de tipo intelectual, histórico. Mas cada um de nós é livre para escolher e estar em paz consigo mesmo.

Se a paz e a serenidade são encontradas mediante a adesão a uma outra mensagem religiosa, para mim não há problema algum. Não é uma escolha que eu faria. Eu vivi a minha identidade islâmica principalmente nos anos passados, às vezes entre milhares de dificuldades, diante de guerras e terrorismo, diante do que estava acontecendo, e, obviamente, eu me perguntei se essa era realmente a minha identidade religiosa. Mas permaneci porque provavelmente é preciso saber distinguir o que é a mensagem divina daquilo que os seres humanos fazem dela. Alguém dizia: "A mensagem que Deus pode acender uma luz ou cegar o homem", e isso é verdade em qualquer entidade religiosa. Muitas vezes, nas religiões, matou-se em nome de Deus

Todas as religiões fizeram isso...

Sim, todas as religiões, do hinduísmo ao Islã.

No Ocidente, abunda um fenômeno que pode ser banalizado pelo termo New Age, que nos aproxima das culturas orientais, que transmitem através de uma rígida ritualidade um misticismo maior que, como você dizia, leva a uma tranquilidade, induzida ou real, interior e mais tangível. Entre vocês, onde a doutrina oficial já tem uma caracterização bem definida, existe esse fenômeno de busca do Eu, quer seja dentro da própria religião ou de outras doutrinas?

O fenômeno da Nova Era está muito ligado à história do Ocidente, à crise da sociedade de consumo e às revoltas juvenis que iniciaram nos anos 1960 em San Francisco e depois chegaram ao Ocidente no fim de 1968 e atravessaram todo o arco dos anos 1970. O fenômeno também está ligado um pouco ao desenvolvimento da sociedade cosmopolita, ao multiculturalismo etc.

É uma fase, uma passagem. Nas sociedades orientais, do budismo ao Islã e também no hinduísmo, existem níveis de posicionamento diante da busca interior que têm canais muito bem definidos. No hinduísmo, há, por exemplo, o fenômeno da mão direita ou esquerda ou dos Bhakti. No Islã, há o sufismo: mística que pessoas, indivíduos ou comunidades inteiras tenham um canal bem específico de interiorização da identidade religiosa através da mística. Mas essa mística não é apenas uma filosofia de tipo contemplativo, onde se recitam mantras e só. Existem ritos, danças iniciáticas bem específicas que todo grupo místico segue. Assim como, por exemplo, no xiismo, outra corrente do Islã, existem doutrinas que são o produto de contaminações de diversas filosofias orientais. No alevismo, há a influência do xiismo com as doutrinas da luz solar, uma doutrina complexa, mas que constitui um nível, uma porta dentro do próprio Islã que se abre, que ajuda o indivíduo a penetrar ainda mais no mistério.

E isso é aceito pelos canais "oficiais"?

Na realidade, o poder religioso/político sempre se comportou de um modo muito ambíguo no sentido de que se cala, não diz, mas há uma aceitação de fato, porque faz parte da identidade de uma sociedade, de uma civilização. Não pode ser apagado!

Em sua opinião, as trocas entre os vários altos cargo religiosos, que há anos são mantidas, podem criar um núcleo duro que sirva para unir pela proteção da união entre os povos?

É preciso distinguir entre o diálogo existente na cúpula e a tradução social desse diálogo. Com relação a isso, estamos muito carentes. Vejamos o que está acontecendo no Egito ou na caça às minorias religiosas, particularmente no mundo árabe e cristão. Com relação a isso, há muito a fazer e é preciso inventar uma educação que ainda não existe! Para isso, ainda será preciso muito tempo. Como diz um grande filósofo árabe, "é um problema para o Homem".

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