''Há forças hostis em ação na Igreja''. Entrevista com Giovanni Lajolo

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10 Março 2012

Passou pouco mais de um mês (era o dia 25 de janeiro) desde que o programa do canal La7 Os Intocáveis tornava públicas cartas ao papa e ao cardeal Bertone de Dom Carlo Maria Viganò, ex-secretário-geral do Governatorato Vaticano e hoje núncio apostólico nos Estados Unidos. Nesses documentos confidenciais, que abriram um abismo, dando espaço para aquilo que o Pe. Lombardi definiu como "Vatileaks", o arcebispo denunciava ao papa fatos de corrupção dentro dos muros leoninos, desperdícios de dinheiro e operações financeiras pouco transparentes.

A reportagem é de Fabio Marchese Ragona, publicada no blog Stanze Vaticane, 08-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Dom Viganò partiu de suspeitas, que se revelaram infundadas, e se colocou em uma pista equivocada", explica o cardeal Giovanni Lajolo (foto), presidente emérito do Governatorato Vaticano, que liderou o órgão da Santa Sé enquanto Dom Viganò era secretário-geral. "Sinto-me amargurado ao ver como a opinião pública foi influenciada de maneira tão negativa, perturbando até muitos fiéis", acrescentou o cardeal de 77 anos que deixou o cargo em outubro passado ao neocardeal Giuseppe Bertello.

Em uma longa entrevista, que publicamos na versão na íntegra, o cardeal Lajolo quis nos contar como as coisas realmente ocorreram, começando daquele clima de tensão que se respirava dentro dos Palácios Sagrados até poucos meses atrás.

Eis a entrevista.

Eminência, houve realmente um clima "pesado" durante o período em que Dom Viganò assumiu o papel de secretário-geral?


É inegável. E também é compreensível. Dom Viganò se viu posto injustamente sob uma má luz por algumas notícias da imprensa e ficou profundamente ferido com isso. Ao procurar os responsáveis, ele partiu de suspeitas, que se revelaram infundadas, e se colocou em uma pista equivocada, que o levou a inserir o seu caso em um quadro mais amplo, com uma série de análises que um exame mais atento e imparcial revelou como errôneas. Eu não acho que se possa dizer que ele foi punido. O ofício de núncio apostólico nos Estados Unidos é um cargo de um prestígio muito grande, que lhe oferece a oportunidade de dar uma ótima prova de si.

Analisemos as acusações presentes nessas cartas. O arcebispo fala dos custos exagerados para o Presépio da Praça de São Pedro de 2008, reduzidos depois drasticamente em 2009. Como se explica?


Não há por trás disso nenhum desperdício injustificável. Acima de tudo, o custo desse presépio, indicado em 546 mil euros, incluía a instalação da Árvore de Natal e de inúmeros presépios menores distribuídos pela cidade do Vaticano. Os Serviços Técnicos do Governatorato, além disso, haviam providenciado uma nova estrutura de apoio em carpintaria metálica, um novo sistema de iluminação e a compra de novos materiais, em grande parte de poliestireno, todos elementos que foram depois utilizados nos presépios dos anos seguintes. Obviamente, estes acabaram custando menos, podendo usufruir de elementos já comprados e sendo também menos complexos como arquitetura e, além disso, consideravelmente menores.

Ainda em uma carta, Dom Viganò fala de uma operação de dezembro de 2009 em que foram perdidos 2,5 milhões de dólares. Pode nos explicar o que aconteceu?

Eu não consigo compreender sobre qual análise se baseia a afirmação de Dom Viganò à qual você se refere. Provavelmente, se baseava em uma flutuação desfavorável do câmbio de curto prazo, mas não levava em conta a evolução positiva de longo prazo e os rendimentos obtidos. Posso dizer sem medo de contradições que a APSA Seção Extraordinária, a quem eu confiei os investimentos financeiros do Governatorato em março de 2009, nesse mesmo ano de 2009 realizou uma recuperação de 24,6% das perdas de 2008, e isso graças também à consultoria da Comissão de Finanças e Gestão por mim instituída em 2008.

Na verdade, o balanço final de 2009 marcou ainda um passivo relevante, porque, por disposição da Prefeitura para os Assuntos Econômicos da Santa Sé, em conformidade com disposições adotadas na Itália, foi imputada a ele parte das perdas de 2008. Em 2010, a obra de recuperação continuou, e o balanço final do Governatorato foi amplamente positivo: isso pelo fato de que ele não estava mais sobrecarregado por perdas financeiras de 2008 e, particularmente, graças à ação da APSA Seção Extraordinária e às receitas dos Museus Vaticanos.

Nos documentos, são citados contratos confiados pelo Governatorato. Falemos do contrato da Colunata da Praça de São Pedro. Pode nos explicar como ele foi confiado e por que as obras, nos últimos tempos, desaceleraram?


O contrato da Colunata da Praça de São Pedro foi confiado por mim, em julho de 2008, à empresa Italiana Costruzioni, depois de uma concorrência entre seis grandes empresas provenientes de toda a Itália, segundo a avaliação feita por uma comissão composta por seis membros, dois dos quais externos, por mim instituída sob a presidência de Dom Giorgio Corbellini, então vice-secretário-geral do Governatorato. A desaceleração das obras no ano passado foi causada pelo fato de que a empresa que se comprometera a arrecadar os fundos dos patrocinadores encontrou-se em dificuldades, e isso por causa da situação econômica nacional e internacional tão difícil. Os trabalhos, porém, continuam, embora com ritmos mais lentos do que o previsto. Eu não tenho dúvida de que, na situação mais favorável que se espera nos próximos tempos, será possível encontrar outros patrocinadores, e a nova presidência do Governatorato saberá levar a termo os trabalhos de modo admirável.

As cartas de Dom Viganò são, no entanto, apenas a ponta do iceberg: do Vaticano saíram muitos outros documentos. Quem está por trás desse Vatileaks?

São possíveis diversas interpretações. De minha parte, não posso me isentar da impressão de que algum empregado da Cúria, frustrado em suas ambições, pensou que poderia se compensar produzindo secretamente uma ação de perturbação e encontrou algum conhecimento disso no mundo da mídia, dao qual logo se aproveitou de bom grado. Além disso, que isso aconteça neste exato momento, enquanto a Igreja está se preparando com empenho para o Ano da Fé, é particularmente desagradável. Mas a fé vencerá.

Mas por que, segundo o senhor, se chegou a esse ponto?

Parece-me que, de todas as coisas importantes que Bento XVI faz – e ele faz muitas! – a mais importante é seu compromisso com a verdade, em uma sociedade que parece não só resignada, mas convencida de que a verdade não é alcançável e que está transformando esse seu convencimento em um dogma indiscutível, que gostaria de dar crédito, ou, melhor, impor como fundamento do viver livre. A "estratégia da confusão", fazendo pensar erroneamente que o Vaticano é um barco sem timoneiro, visa a desacreditar a força da grande mensagem pontifícia e do governo da Igreja, desviando a atenção dos aspectos positivos e focalizando-a em episódios certamente desagradáveis, mas ocasionais e marginais. Mas isso não prevalecerá.

É possível que alguém está tentando obstaculizar a obra de "limpeza" que Bento XVI está implementando?


Eu não acho que esse seja o alvo de quem criminosamente divulgou documentos confidenciais, mas há outras forças em ação, hostis à Santa Sé e à Igreja Católica. Gostaria de acrescentar que a obra de limpeza pedida pelo Santo Padre é uma obra de limpeza profunda, acima de tudo interior e espiritual. Essa obra vai continuar. Não devemos nos iludir. No Colégio Apostólico, também havia Judas Iscariotes. Não devemos nos surpreender se, na Igreja, há e sempre haverá pessoas que não têm o Espírito de Cristo. Além disso, a Igreja não é feita só de santos (que existem), mas também de pecadores que ela não cansa de chamar à santidade.

Alguns falam até de "fumaça de Satanás no Vaticano", outros da maçonaria em ação...


Realmente, se bem me lembro, no dia 29 de junho de 1972, Paulo VI falou da "fumaça de Satanás que entrou na Igreja por alguma fresta". Ele não mencionou o Vaticano, embora, certamente, as suas palavras não excluíam alguns ambientes da Igreja. Não é possível esconder a malícia e a presença ativa do "pai da mentira", como Nosso Senhor definiu o diabo. Porém, para explicar certos fenômenos, bastam a malícia e a falta de inteligência humanas; não é preciso recorrer à ação do demônio.

Mas há divergências dentro dos muros vaticanos?

O fato de haver, na Igreja e no próprio âmbito da Santa Sé, avaliações diferentes ou até opostas sobre diversas questões práticas não é, em si mesmo, algo de mal, de pecaminoso. É um legítimo processo de busca do que é melhor por parte das pessoas responsáveis. Ilegítimo, ao invés, é que a tais diversidades sejam dadas uma irresponsável publicidade e uma consequente interpretação como expressões de "lutas de poder". Há relatórios que devem permanecer confidenciais, principalmente para proteger as pessoas envolvidas, para que possam expressar seu pensamento com total liberdade, mas também para não comprometer a serenidade dos próprios relatórios e para não causar perturbações desagradáveis e injustificadas na opinião pública e especialmente entre os fiéis.

Diz-se que o governo da Igreja está vacilando. Na sua opinião, a liderança do papa e do seu secretário de Estado está bem firme?


Por que se deveria pensar que o governo da Igreja está vacilando? Porque foram publicados alguns documentos confidenciais? Mas isso pode acontecer a qualquer momento em qualquer pontificado. E o que esses documentos confidenciais revelaram, depois? Eu acho que as acusações mais pesadas são aquelas contidas nas cartas de Dom Viganò, que formulam análises muito negativas. Mas, como já disse, elas eram ditadas por uma alma ferida. Com relação ao restante, basta seguir a grande quantidade de compromissos que caracterizam cada dia de Bento XVI e as suas intervenções abrangentes, e sempre muito lúcidas, para entender que ele segura o leme da Igreja com mão firme. E também com uma mão tranquila, com ânimo paterno, sem se agitar e sem polêmicas. Quanto ao secretário de Estado, o cardeal Tarcisio Bertone, ele goza com justiça da plena confiança do papa. O cardeal Bertone dirige o seu escritório, tão complexo e pesado, com grande humanidade e com pastoralidade salesiana, que alguns, infelizmente, não são capazes de compreender.

Gostaria também de lembrar – especialmente àqueles que têm memória curta – os julgamentos que alguns faziam sobre os papas anteriores, ou mesmo sobre o inesquecível cardeal Casaroli, secretário de Estado, durante as suas vidas. Eram julgamentos não muito mais benévolos do que os que são agora divulgados por certos órgãos de imprensa, mas foram invariavelmente corrigidos pela história. De minha parte, pelo que eu conheço da minha experiência curial, estou convencido de que a Cúria Romana como um todo, apesar de certas limitações inevitáveis, é um órgão de governo e de impulso do Santo Padre para a Igreja universal, que funciona de maneira excelente.

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