Entre os sobreviventes de Fukushima

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09 Março 2012

"Nós, o povo dos radioativos": dois em cada dez pessoas evacuadas têm graves problemas mentais ou nervosos. Cerca de 5% estão em risco de suicídio. "Disseram-nos que um acidente era impossível. Não sabíamos, não imaginávamos...".

A reportagem é de Giampaolo Visetti, publicada no jornal La Repubblica, 07-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A vida apagada é o que resta da explosão atômica na central de Daiichi. O coração do desastre do Japão, um ano depois, é um músculo que não bate mais. A usina de Fukushima emerge de uma extensão de campos abandonados, cobertos por estruturas quebradas, tambores de líquido contaminado, cedros caídos, esqueletos de vacas e de cães. É uma gigantesca carcaça dilacerada, enegrecida e torcida. Aflora de um deserto que deve ter assistido a uma guerra e olha para o oceano.

Desde o dia 11 de março de 2011, tudo aqui está morto. Todas as coisas ficaram imóveis, como se o tsunami as tivesse embalsamado. Diante dos reatores descobertos, o fundo do Pacífico está agora revestido de cimento. Só sacos dividem a água do combustível nuclear. Ao redor, telas brancas cobrem a terra assassinada. Não se pode desenhar, não se pode cultivar, não se pode respirar, não se pode caminhar. Em 20 quilômetros, não se pode viver. Além disso, a 50 quilômetros, "não é aconselhado".

As radiações, no entanto, são invisíveis. Não têm uma forma, não fazem barulho, não emanam odor. Não matam instantaneamente, como uma lâmina. Parecem não existir. Por isso, milhares de pessoas voltaram e sonham em voltar ao epicentro da catástrofe. Os condenados de Fukushima nasceram aqui: sete em cada dez têm mais de 65 anos. As raízes são mais fortes do que o medo. Quem é velho ou foi agricultor, ou pescador, não teme a morte. Hoje, tem terror da vida, se não pode mais ser a sua, e se transforma em um limbo sem fim.

Na região da central, os vilarejos e as cidades evacuadas são 11. Esse mundo amputado da terra explodiu em centenas de acampamentos temporários ordenados e limpos, semelhantes a satélites colocados na fronteira do espaço considerado inadaptado para formas de vida. Dezenas de milhares de sobreviventes moram em pré-fabricados de poucos metros.

Um ano atrás, foram forçados a fugir de Namie, Tomioka, Naraha, Okuma, Iidate e de outros locais evacuados. Eles não têm mais uma casa e um trabalho. Perderam os parentes e os amigos. Cerca de 30% ficaram sozinhos. Um estudo da Universidade de Fukushima revela que dois em cada dez evacuados têm graves problemas mentais ou nervosos. Cerca de 5% estão em risco de suicídio. Oito em cada dez são atormentados pela insônia e pela depressão. Uma pesquisa da agência Kyodo fixou em 1.331 as vítimas correlacionadas ao desastre nos meses posteriores à crise. Mortes por suicídio, pneumonia, ou depois de exaustões contraídas durante as três ou quatro transferências obrigatórias entre uma recuperação e outra.

Na central de Daiichi, 3.000 trabalham hoje. Operários e técnicos estão empenhados em evitar novas explosões. São necessários ao menos dez anos. Dentro da usina, a radioatividade permanece em 1.500 microsievert por hora: o limite de segurança é de 0,114. Quem entra, protegido com macacões de alienígena, pode ficar alguns minutos por vez. Algumas áreas críticas da usina, depois de um ano, ainda não foram exploradas.

Dentro dos 20 quilômetros interditados, os detetores Geiger marcam entre 7 e 12 microsievert, com oscilações inexplicáveis. Aqui vive um único homem. Naoto Matsumura, 52 anos, se recusou a abandonar Matsumoka. Criava animais, não possuía nada mais: e não os abandonou. Agora, cuida de centenas de animais selvagens, incluindo um avestruz, que voltou ao "Ground Zero" do Japão. "Eu pedi – diz – que as autoridades limpem mais rapidamente. Senão, antes de poder reabrir os vilarejos, todos estaremos mortos".

Logo do outro lado da fronteira marcada pelo governo, no entanto, os habitantes já se amontoam. Durante meses, registraram-se entre dois e três microsievert por hora, uma concentração que a ciência considerada letal. Hoje, o contador está em 0,8: oito vezes o nível de Tóquio, limite da chamada normalidade. Os japoneses das outras localidades chamam-lhes de "os condenados de Fukushima".

Centenas de cidades estão divididas em duas. Parte dos residentes recebem uma indenização de mil euros por pessoa ao mês. A outra parte, nada. Famílias, ou vizinhos, discriminados por uma diferença de centímetros, estabelecida teoricamente. O vilarejo de Onami é o símbolo dessa dramática seleção: 237 famílias, só 57 indenizadas. As casas limpas, depois de um ano, são 26. Era a fazenda xintoísta da capital: arroz, chá e peixes. Cultivos, estábulos e áreas de pesca ainda ficarão contaminados por décadas. "Quem não recebe o subsídio – diz Chimi Sato, agricultor de 77 anos – corre o risco de morrer de fome. E os arrozais, não cultivados, estão perdidos".

Nos lugares suspensos entre a vida e a morte, não se encontram muitos vizinhos, mas não muito longe reatores de Daiichi, para sobreviver, alimentam-se com o que cresce debaixo da terra: batatas, cenouras, nabos e rabanetes. Esses vegetais não superam os 500 becquerel, limite além do qual os produtos são apreendidos. "Os agricultores, no entanto – diz Yoshitaka Sato, chefe do distrito –, também comem os outros, incluindo o arroz do ano passado. Não temos escolha".

Em Fukushima, ninguém sabe onde acabam as toneladas de arroz e de chá requisitados por excesso de radioatividade. Ninguém sabe onde acabam as escórias nucleares da central, nem os milhões de metros cúbicos de terra e de água contaminados. Só quatro cidades de toda a nação se declararam dispostas a tratar detritos de Fukushima. Na faixa de "evacuação aconselhada", milhares de pessoas desempregadas são, assim, condenadas a se esconder dentro de casas infectadas, sem poder comer o que cultivam e sem poder usar a água. "Eu bebo chá", diz Yasuko Yamada, refugiado de Namie. "As folhas e a água não são minhas, veem de Osaka".

As crianças são obrigadas a mudar de escola frequentemente. Os colegas não os aceitam na sala de aula e os chamam de "radioativos". Desde o dia 11 de março de 2011, estão trancados em uma sala. Perderam os amigos, não brincam e não deram mais um passeio de bicicleta. Muitas famílias se dividiram em uma vida dupla. Os adultos homens permanecem nos lugares com alta radioatividade. Mulheres e crianças passam parte do dia do lado de fora. Todos esperam um anúncio de que o tempo mudou de uma hora para a outra. O governo deverá dizer se e quando poderão ser novamente habitadas as cidades-fantasma, as terras tóxicas cultivadas. Para a maioria dos idosos, a frase "nunca mais" equivale a uma sentença de morte. Tóquio posterga esse momento há meses. As famílias jovens esperam saber onde poderão tentar reconstruir a vida.

"Por 40 anos – diz Saori Kanesaki, ex-guia turístico de Daiichi –, políticos, cientistas e gestores da usina asseguraram que um acidente era impossível. Aos visitantes, eu explicava que o risco nuclear era zero. Nós não sabíamos, não imaginávamos. Ao contrário, isso aconteceu, e nós entendemos". A violência da destruição, em que tudo permanece aparentemente intacto, mas está tudo aos pedaços, explica porque a maioria dos japoneses implora hoje que as autoridades renunciem à energia nuclear e não reacendam as 54 centrais.

Mas negócio é negócio, o dinheiro precede a vida, economia e política se calam. Demiko Numauchi, professora em Minamisoma, decidiu, assim, se sacrificar por todos. Ficou onde não deveria. Em poucas semanas, perdeu seus cabelos, depois os dentes, por fim as unhas dos pés. Seus olhos são bolas vermelhas, e a pele se arranca em véus, como a casca de uma bétula. "Depois de morta – diz – quero que me façam uma autópsia no exterior. Deve restar uma prova, ao menos uma, para que um dia não digam que em Fukushima, no fundo, não aconteceu nada". Aos domingos, aqui, honram-se os falecidos e se chora pelos sobreviventes. Um metro mais adiante, não, porque a vida está apagada.

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