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08 Março 2012

Retiros zen nas praias da Califórnia, experiências de telepatia, aulas de ioga e de budismo, "baseados" e LSD. Mas também rigor e preparação. Eis o livro que narra a aventura de um grupo de estudiosos "descontentes, sem dinheiro e subempregados" que revolucionou a teoria quântica.

A reportagem é de Federico Rampini, publicada no jornal La Repubblica, 04-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em um futuro próximo, os nossos dados pessoais, da conta bancária ao cartão de crédito, talvez estarão finalmente protegidos contra os furtos dos hackers da informática. Se isso acontecer, será uma das aplicações da criptografia quântica. A mesma tecnologia, segundo o astrônomo John Gribbin, da Universidade de Sussex, permitirá o teletransporte de partículas que será a base de uma nova geração de quantum computers: o seu poder será tal que "os nossos PCs atuais vão parecer ábacos".

A teoria quântica é um ramo da física de partículas e hoje atrai milhares de pesquisadores no mundo inteiro. Recebe financiamento de bilhões de dólares das grandes universidades e fundações científicas dos EUA e fora deles. Mas, há apenas 40 anos, os estudos da física estavam em um estado de profunda crise: a guerra do Vietnã concentrava os fundos do Pentágono. O mesmo conflito do Sudeste Asiático havia levado Washington a enviar ao fronte até muitos jovens doutorandos (revogando o privilégio do adiamento do serviço militar para os universitários). Os câmpus das faculdades norte-americanas eram paralisados pela contestação pacifista. Uma grave crise econômica provocada pelo choque do petróleo e pela estagflação secava os gastos para a pesquisa pura. Aqueles que continuavam se ocupando com a física eram, em sua maioria, "integrados" ao serviço do complexo militar-industrial.

Os hippies californianos pensaram em relançar os estudos da física quântica. Para ser preciso, um grupo de jovens estudiosos "descontentes, sem dinheiro, subempregados e sempre curiosos" se reuniu na Universidade de Berkeley, na baía de San Francisco, para "se libertar do conformismo acadêmico e se aventurar na exploração do lado selvagem da ciência". Fundaram um clube esotérico, o Fundamental Fysiks Group (foto), cujos métodos de pesquisa eram, no mínimo, pouco ortodoxos. Reuniam-se como conjurados em lugares de retiro zen nas praias californianas. Passavam horas imersos nas banheiras de hidromassagem. Fumavam maconha, e alguns experimentavam o LSD. Apaixonavam-se pelas religiões orientais e pela transmissão do pensamento.

A sua história é reconstruída por outro cientista, David Kaiser, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), reconhecido expoente da mesma disciplina: foi eleito Fellow da American Physical Society. Como os hippies salvaram a física é a sua obra. Subtítulo: "Ciência, contracultura e o 'revival' quântico". Esse livro também é um gesto de gratidão. Kaiser, que era um menino quando "os hippies salvaram a física", confessa ter sofrido "uma atração e um fascínio pelas obras desse grupo de jovens cientistas": para ele, foi o nascimento de uma vocação.

Os personagens no centro dessa epopeia são pitorescas. Fred Alan Wolf, sócio-fundador do Fundamental Fysiks Group, é descrito como um "ator de vaudevilles da Nova Era", seguidor do guru das drogas psicodélicas Timothy Leary, convencido de poder alcançar poderes paranormais de comunicação extrassensorial.

O ítalo-americano Jack Sarfatti, outro membro do mesmo clube, recebia os financiadores aos quais pedia fundos para as pesquisas em uma salinha privada do Caffè Trieste, mítico ponto de encontro no bairro italiano de North Beach, de San Francisco.

Fritjof Capra tornou-se o mais célebre em 1975, graças a um best-seller que foi um clássico dessa era: O Tao da Física. Quase o mesmo sucesso teve Gary Zukav com o livro The Dancing Wu Li Masters.

Uma vez por ano, a reunião do grupo ocorria na costa do Big Sur, no Instituto Esalen, entre sessões de ioga, aulas de budismo e acontecimentos coletivos de autoconsciência. Eram, sob todos os efeitos, "filhos das flores", típicos representantes de uma época em que a Califórnia era atravessada pela corrente da Nova Era, quando os jovens se reuniam para viver no campo nas cidadelas igualitárias e ambientalistas, contestavam aos gritos de "faça amor, não faça guerra", ouviam Jimi Hendrix e Janis Joplin, os Grateful Dead e Jefferson Airplane.

O fenômeno dos cientistas hippies não passou despercebido nem mesmo naqueles anos. Entre os mais perspicazes em avistá-lo havia um certo Francis Ford Coppola, cuja carreira de diretor decolava justamente naquela época. Com o dinheiro ganho graças ao Poderoso Chefão e à produção de American Graffiti, o ítalo-californiano Coppola comprou a revista City of San Francisco. Um dos primeiros números da revista sob a sua direção foi dedicado aos "novos físicos que trabalham com a telepatia e imergem no subconsciente para experimentar a mobilidade psíquica".

Da leitura do pensamento à reencarnação, da comunicação com os extraterrestres ao misticismo hindu, a confusão dos gêneros era total. Porém, como explica Kaiser, "esse grupo de forasteiros, de marginalizados e de rejeitados conseguiu reavivar a chama da ciência". Porque, por trás das aparências hippies, havia "cientistas de verdade, com sólidas bases de preparação, métodos anticonformistas mas rigorosos".

Além disso, havia uma sutil continuidade entre eles e o grupo de pioneiros da mecânica quântica, isto é, Albert Einstein, Niels Bohr, Werner Heisenberg, Wolfgang Pauli, Erwin Schrödinger: eles também eram tudo menos cientistas "áridos", adoravam discutir filosofia, política, máximos sistemas. As implicações das suas descobertas os levavam a se expandir para campos muito diferentes do conhecimento humano. Até os "pais", como demonstra o pacifismo de Einstein, haviam percorrido estradas anticonformistas e contestatórias. Que os físicos hippies não eram despreparados é demonstrado pelo fato de que um de seus livros, Quantum Reality, de Nick Herbert, ainda é usado como manual nas faculdades de física norte-americanas.

Escavando sob a superfície totalmente de "sexo, drogas e rock'n'roll", Kaiser identifica em duas contribuições decisivas a herança revolucionária do grupo reunido em Berkeley nos anos 1960. Os rapazes do Fundamental Fysiks Group colocaram na cabeça que podiam transmitir sinais a uma velocidade superior à da luz. Um objetivo impossível, com base na teoria da relatividade de Einstein. A pesquisa sobre os "sinais superluminais" foi contestada por outros físicos, que, porém, foram obrigados a demonstrar o erro, aprofundando os conhecimentos sobre os quantum.

Dois dos físicos hippies, Herbert e John Clauser, fizeram experimentos sobre o chamado teorema de Bell, segundo o qual duas partículas subatômicas, uma vez em contato, permanecerão entrelaçadas mesmo depois de serem afastadas: um princípio a partir do qual outros chegaram à possibilidade de criptografar as mensagens para tornar impossível a sua interceptação. É nesse processo de "refutação" que, no fim, se chegou ao desenvolvimento da criptografia quântica, cujas potenciais aplicações só agora estão começando a ser compreendidas.

Kaiser traça um paralelo com o que acontecera no século XIX, quando alguns cientistas tinham colocado na cabeça que podiam preparar as máquinas de movimento perpétuo: o esforço dos seus colegas-adversários para demonstrar a sua impossibilidade fez com que fossem realizados progressos decisivos na compreensão das leis da termodinâmica.

O outro legado dos físicos hippies foi ainda mais importante no longo prazo. Graças ao sucesso de livros como Espaço-Tempo e outros de Sarfatti, além de o Tao da Física de Capra, uma geração de jovens começou a se sentir atraída pelos estudos de física nuclear. De repente, essa orientação de estudos não estava mais associada com a subserviência às estratégias militares da Guerra Fria. Nos câmpus das academias científicas, multiplicaram-se os cursos com títulos como "O Zen da Física". Foi o início de um longo boom de matrículas nessas faculdades.

Se Bill Gates e Steve Jobs tornaram sexy a informática nos anos 1980, na década anterior, os jovens cientistas devotos do LSD e da Nova Era haviam conseguido tornar cool uma das ciências mais complexas e refinadas. E essa foi uma das flores que desabrochou realmente, no clima caótico e transgressivo dos movimentos que borbulhavam na baía de San Francisco há 40 anos.

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