''O meu coetâneo poeta que queria entender o amor''. Artigo de Enzo Bianchi

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06 Março 2012

A fé de Lucio Dalla era uma fé simples e humilde, como a de uma criança, mas uma fé sólida, cheia de esperança.

O comentário é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 05-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

De uma coisa ele estava certíssimo: de que há, do outro lado, além da morte, "o segundo tempo", a vida para sempre. Até recentemente, ele tinha me repetido: "Esta vida é só a antessala, o melhor está por vir". Eu conheci Lucio uma noite em Bolonha, em 1971, jovens da mesma idade (um nascido apenas 24 horas antes do outro), e imediatamente nos tornamos amigos. Desde então, encontros, conversas, telefonemas, discursos à mesa, minhas visitas à sua casa e, ultimamente, também suas em Bose... Lucio era amável porque era humaníssimo: nas relações com as pessoas, certamente, mas também no seu pensar, no seu poetar, no seu habitar o tempo da vida para encontrar nisso o que verdadeiramente importa, o que permanece, o que é eterno: porque "é eterno até um minuto, cada beijo recebido das pessoas que amei".

Muitas vezes juntos falamos sobre o Amor, e Lucio quis que fosse eu que apresentasse em Turim, em dezembro passado, o seu último álbum Questo è amore [Isto é amor]. "O que é o amor?", ele me perguntava de um modo que parecia obsessivo. Não que eu não soubesse, mas ele sempre queria se testar, se interrogar para verificar se as suas relações, os seus amores eram Amor. "Gostaria de entender o que é o amor, onde que se pega, onde que se dá": não são versos frívolos, não são palavras levianas; ao contrário, são a expressão da sua apaixonada busca pelo amor.

Há pessoas que, por toda a vida, buscam apenas o amor, até serem vítimas do amor que perseguem, de maneiras às vezes incompreensíveis para os outros. Lucio era uma dessas pessoas: buscava o amor, mas acima de tudo acreditava no amor. Quando eu tinha alguma conferência em Bolonha, ele, se estava na cidade, nunca faltava, lia os meus livros, me mandava mensagens para comentá-los, e o coração do discurso sempre retornava a essa sua fé no amor. Ele gostava de ouvir repetir que "o amor vence a morte", que no cristianismo é precisamente este o fundamento da fé: a morte, de fato, continua sendo para todos um enigma e exige ser vencida. Mas por quem? Pelo amor.

E, ao lembrar de Lucio, também gostaria de acrescentar uma palavra sobre a sua fé: ele me contava que, quando jovem, ele tinha tido como confessor o Padre Pio e que, mais tarde, graças aos dominicanos de Bolonha tinha podido acompanhar a sua vida com a fé. Nem renegava nem algumas "devoções", porque a sua fé era uma fé simples e humilde, como a de uma criança, mas uma fé sólida, cheia de esperança.

Na minha amizade com ele, ultimamente, havia também a cara presença de Marco Alemanno, o amigo sempre ao lado que, com a sua "arte", permitia que Lucio esperasse contra toda solidão: "Boa noite, alma minha, agora apago a luz e que assim seja". Boa noite, Lucio, dorme, repousa no Amor, porque é certo que, como tu cantavas, "se Deus existe, vocês, vocês o reencontrarão lá, lá. Amor". Sim, Lucio, nos reencontraremos lá, no Amor.

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