Lucio Dalla em diálogo com Deus

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06 Março 2012

No funeral em San Petronio, as leituras e a oração dos fiéis são confiadas àqueles que o cantor e compositor definia como os seus "teólogos preferidos": Vito Mancuso, o amigo Benedetto Zacchiroli e o escritor religioso e prior de Bose, Enzo Bianchi.

A reportagem é de Giacomo Galeazzi, publicada em seu blog, Oltretevere, 04-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Nota da IHU On-Line: Chico Buarque de Holanda adaptou e cantou a canção Gesù Bambino, de Lucio Dalla, sob o título Minha História.

Lucio Dalla "revestia Bolonha com uma sutil ironia, com profundidade e também com aquela clowneria", todas expressões da sua "criatividade". E de onde vinha essa criatividade? De um "colóquio com Deus incrível". É assim que o padre Bernardo Boschi, confessor do cantor e compositor, recordou o seu "amigo" durante a homilia dos funerais em San Petronio.

O prior da Comunidade de Bose, Enzo Bianchi, que escreveu e leu algumas orações dos fiéis para a ocasião, lembrou o dom da "beleza" a se buscar "no canto, na arte, na música e na poesia".

"Feliz aniversário, Lucio", disse Boschi no início da homilia, enquanto as outras seis mil pessoas em San Petronio aplaudiam. "Quando recebi a mensagem 'dalla morreu', eu logo pensei que fosse uma piada. Esse acidente deixou-nos muito sozinhos e tristes. Talvez você não gostava das grandes manifestações, mas este povo entende você" e "Bolonha perdeu um filho verdadeiro".

"Perdemos um grande amigo de todos", continuou o Pe. Boschi. "A sua fé passava através do ser humano, de toda a humanidade. Lucio, com a palavra e a música, deixava esculpida a nossa alma. Lucio tocava a profundidade porque talvez muitos não o saibam, mas ele tinha uma profunda sede de Deus e do Absoluto".

"Deus de misericórdia – disse Enzo Bianchi –, ensinai-nos a esperar na transfiguração da criação, em um novo céu e uma nova terra, aonde Lucio já chegou".

A leitura de Le Rondini depois da comunhão e a comovente mensagem de Marco Alemanno, o amigo de infância de Dalla, ao microfone, romperam o cerimonial. O que quebrou uma certa hipocrisia dos últimos dias foi o próprio confessor de Dalla durante a pregação: "Certamente, ele nos deixou de um modo impensado, inédito, e isso é Lucio. Certamente, esse acidente diria quase cruel – não é verdade, Marco? – nos deixou a todos mais sozinhos, mais tristes". E Marco respondeu: "Eu tinha apenas 10 anos. Todas as manhãs antes de ir para escola, eu também sonhava em poder entrar nos fios de um rádio e voar sobre os telhados da cidade e com a poeira dos sonhos, voar, voar ao frescor das estrelas, como cantava aquele senhor no disco que papai havia comprado. E quem sabia que, depois de alguns anos, eu me encontraria por acaso com o mesmo senhor que inconscientemente havia se insinuado no meu imaginário ainda infantil, mas já adulterado pela força educativa dos seus versos?".

Quando o caixão foi descido pela gradinata de San Petronio, para se dirigir ao cemitério de Certosa, as pessoas da sua Bolonha, amontoadas em todos os cantos da Piazza Maggiore, se despediu dele com aplausos e milhares de braços se levantaram com celulares e máquinas fotográficas para capturar a última imagem de Lucio, que deixa a sua praça.

Durante a cerimônia fúnebre, nas primeiras fileiras, estavam, dentre outros, Pier Ferdinando Casini, Luciano Ligabue, Renzo Arbore e Renato Zero. Muitos representantes do mundo do espetáculo e das instituições locais. Um aplauso fragoroso acolheu na Piazza Maggiore o féretro de Lucio Dalla quando ele saiu da prefeitura, onde foi realizado o velório, transportado a braço para a Basílica de San Petronio. Os sinos de Arengo tocaram em sua homenagem. O Crescentone, a parte central elevada da praça, estava cheia de pessoas, assim como a escadaria da igreja.

Uma volta pelos Colli [colinas] bolonheses. Essa última vontade de Lucio Dalla, depois dos funerais em San Petronio e antes do sepultamento em Certosa, foi cumprida. O carro fúnebre que carregava o caixão de Lucio Dalla, depois de sair com dificuldade da conglomeração na Piazza Maggiore depois da missa fúnebre, antes de chegar ao cemitério local desviou em direção às colinas. Era uma vontade do cantor e compositor que morreu devido a um enfarte na última quinta-feira, quase um "rito" celebrado também por ocasião da morte de sua mãe, Iole.

Estavam no carro Ron, o artista Stefano Cantaroni, autor da Última Ceia utilizada como pano de fundo para o velório, e o companheiro Marco Alemanno. Havia cerca de 400 pessoas esperando os restos mortais de Dalla em Certosa, incluindo diversos torcedores do Bologna Calcio. Lucio foi enterrado em um túmulo diante do qual foi colocada a coroa de flores do presidente da Itália, Giorgio Napolitano.

No velório, mais de 50 mil pessoas, entre sábado e domingo, prestaram homenagem a Lucio Dalla, no pátio de honra do Palazzo d'Accursio. Uma fila interminável, que foi interrompida apenas poucas horas durante a noite e que continuou até as 13h30 do domingo. O segundo dia do adeus ao artista e do luto civil começou às 7 horas, quando o velório recomeçou, com a chegada de inúmeras homenagens florais. Acima de todas, a do amigo Vasco Rossi, uma coroa de girassóis atravessada pela mensagem "Ciao Lucio!", depositada ao lado do caixão diante do qual as pessoas comuns e as celebridades se comoviam.

Depois da saudação à noite de Renato Zero e Jovanotti, de madrugada foi a vez de Paola Turci, de Roberto Baggio e do Novara Calcio, que jogou à tarde contra o Bologna, liderado pelo treinador Emiliano Mondonico: "Quando morreram Battisti e John Lennon – disse Mondonico, que também é um grande apaixonado pela música –, eu lamentei por não poder ir ao funeral. Hoje, eu não podia não vir saudar Lucio Dalla. Ele tem mais ou menos a minha idade, me lembra a minha vida".

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