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06 Março 2012

A Grande Assembleia Kiaowá Guarani realizada na Terra Indígena Jaguapiré, fronteira com o Paraguai, divulga a seguinte carta-documento.

Grande Assembleia Guarani Kaiowá: Celebrando a luta

Aos poucos vão chegando as lideranças Kaiowá Guarani, de mais de 30 tekohá, terras indígenas do cone sul do Mato Grosso do Sul, até o local da AtyGuasu, em Jaguapiré, municipio de Tacuru. Ali estarão realizando mais uma decisiva Aty Guasu. Momento de celebrar a luta pela terra e pela vida, fazer a memória da caminhada, com especial reconhecimento de todos os que tombaram e deram sua vida para que hoje os mais de 40 mil Kaiowá Guarani possam continuar essa caminhada.

Em sua bagagem estão trazendo  o pouco que necessitam para viver com alegria e indignação, esperança, movidos pela utopia da terra sem males e certeza da conquista de seus direitos.

A chuva  e o barro vermelho foram encarados com muita tranqüilidade, pois representaram a benção do grande encontro. Também  as pequenas falhas que trouxeram alguns atrapalhos em nada tiraram o ânimo dos participantes. Até mesmo as diferenças  e  tensões foram encarados e tratados com muita maturidade e habilidade.

A Aty Guasu foi marcada pelo tom enérgico das denúncias e da firme cobrança de respostas urgentes por parte dos governantes.  O não cumprimento das datas para a conclusão e publicação dos relatórios de identificação das terras foi o alvo de maiores cobranças.  Não mais agüentam serem enganados com promessas e mais promessas. E diante desse quadro a única atitude que lhes resta é a do movimento em direção a seus tekohá, ou seja, as retomadas. A terra do Mato Grosso do Sul continua sendo manchado com sangue indígena. Grande parte da produção do  Estado está marcada com o sangue dos povos nativos, especialmente o Kaiowá Guarani

Presenças importantes

Estiveram nesta Aty Guasu várias pessoas de relevada importância dentro dos poderes da nação, dentre as quais a desembargadora Kenarik. “O Judiciário brasileiro precisa saber dos reflexos do descumprimento da sua obrigação, que é fazer justiça. Nesse caso, acaba criando mais injustiça e isso é gravíssimo. É preciso ter consciência de que a falta de decisão está fomentando situações muito tristes que estamos vendo agora, especialmente em Mato Grosso do Sul”, disse Kenarik Baujikian à Agência Brasil.

Também estiveram na Aty Guasu Paulo Maldos, pela Secretaria Especial da Presidencia da República e uma delegação da Funai e outros ministérios.

Solidariedade e justiça


Depois da  ultima Aty Guasu, realizada no Passo Piraju, em outubro do ano passado houve duas retomadas – o tekohá  Mbarakaí – Pielito Kue e Guaivyiri. Ambas sofreram fortes violências por parte dos pistoleiros e fazendeiros – despejos, queima dos barracos, tiros e violência. Nisio Gomes, líder religioso do acampamento de Guaivyri foi assassinado e seu corpo  levado pelos fazendeiros-pistoleiros e ate hoje não encontrado. No inicio desta Aty Guasu foi lembrado com muito respeito e dor mais esse assassinado, com um minuto de silêncio em memória do guerreiro que tombou na luta pela terra de  seu povo.

Houve grande repercussão nacional e internacional dessas violências. A Anistia Internacional promoveu uma campanha  na qual pediam ao governo brasileiro a investigação independente e  exaustiva desse assassinato, proteção às comunidades e lideranças ameaçadas e a imediata demarcação das terras Kaiowá Guarani, conforme compromisso assumido pelo governo brasileiro através de leis internacionais e a Constituição brasileira. Na carta enviada  às autoridades brasileiras diz Cristina Fernandes, da  Espanha “Sirva minha carta para expressar-lhes, como cidadã do mundo, minha grande tristeza diante do assassinato, a pobreza, a desnutrição e alto índice de suicídio entre os 60 mil indígenas da região e recordar-lhe que a diversidade e as minorias devem ser cuidadas e protegidas frente à força das grandes companhias e homens armados, como a mais importante riqueza de seu país”.

A delegação de Guaviri  presente na Assembleia lembrou com emoção e lágrima todo o drama por que passaram e a morte de seu líder Nisio. Ao mesmo tempo puderam sentir a solidariedade e carinho de seus parentes Kaiowá Guarani  e da solidariedade nacional e internacional.

Igual campanha também foi feita em favor  da comunidade de Larranjeira Nhanderu, que está com ordem de despejo. Zezinho falou de forma enfática sobre a importância dessas centenas de cartas de 17 paises que pedem a imediata suspensão da ordem de despejo e a imediata demarcação dessas e de todas as terras indígenas Kaiowá Guarani.  A Aty Guasu decidiu enviar carta ao desembargador Antonio, solicitando, em nome de todo povo Guarani Kaiowá, que a comunidade de Laranjeira Nhanderu possa  não seja jogada na beira da estrada, mas possa permanecer onde está enquanto se concluem os estudos de identificação dessa terra indígena.

Exigências

Os participantes da Atay Guasu fazem  as seguintes exigências

“Reafirmamos nossas principais exigências e compromissos

1. Continuaremos retomando nossos tekohá, nossas terras tradicionais, como único jeito de contribuir com o Estado brasileiro, para que ele pague sua dívida histórica, de muito sangue e sofrimento,  reconhecendo e demarcando nossas terras.

2. Vamos dar mais 60 dias para que todos os relatórios de identificação de nossos territórios sejam publicados.  Não vamos esperar quietos, vamos esperar agindo, fazendo movimento, nos unindo e organizando cada vez mais.

3. Que o governo federal inicie o mais rapidamente possível a indenização dos títulos que ele deu nas colônias agrícolas de Iguatemi, Sete Quedas e Dourados, e que  estão em terras indígenas já reconhecidos, como gesto concreto de vontade polícia de resolver a questão da  regularização de nossas terras.

4. Que o governo não conceda mais empréstimos às propriedades e empresas que tem produção dentro das terras indígenas já reconhecidas.

5. Pedimos que nas terras já reconhecidas como indígenas, os ocupantes não índios sejam retirados e nós possamos ocupá-las, enquanto os processos tramitarem na justiça. Que o Ministério Público batalhe por isso junto à justiça.

6. Que a polícia federal e Guarda Nacional deem segurança a nossas lideranças, ameaçadas, e a nossas comunidades, especialmente as que estão em situação de conflito, nas retomadas.

7. Que os inquéritos sobre os assassinatos de nossas lideranças sejam concluídos com rapidez, os responsáveis  punidos, como único jeito  de acabar com a situação de impunidade existente.

8. Exigimos dos órgãos competentes pelas políticas publica de saúde e educação, que  atendam e sejam mais sensíveis e responsáveis  com as demandas emergenciais que atingem os Guarani kaiowa.

9. Que o governo, suas representações e instituições responsáveis pelas políticas para com os povos indígenas, se mantenham atentos às suas demandas especificas numa relação de construção conjunta onde os Guarani kaiowa sejam ouvidos e reconhecidos em sua autonomia e diversidade cultural.

10. Exigimos das autoridades governamentais e não governamentais que reconheçam  nossos direitos garantidos na lei (Constituição Federal). Queremos ser tratadas de igual para igual. Que todos os direitos escritos no papel  sejam cumpridos, na educação, saúde e em termos da sociedade e da terra. Porque, cansamos  de ser enrolados, enganados e iludidos pelo governo federal.

Pedem também especial atenção e urgência para as situações dos acampamentos e as situações de conflitos e tensões nas retomadas.

Com muita celebração, compromisso e fortalecimento na luta, realizou-se mais um marco difícil e desigual luta pelos direitos, especialmente pelo reconhecimento e garantia da terra.

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