“Um Concílio para abrir a Igreja ao mundo”. Entrevista de Philippe Chenaux

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Por: André | 02 Março 2012

Philippe Chenaux é diretor do Centro de Pesquisas e de Estudos sobre o Concílio Vaticano II na Pontifícia Universidade de Latrão, em Roma.

A entrevista é de Frédéric Mounier e está publicada no jornal francês La Croix, 24-02-2012. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Em que contexto o Concílio Vaticano II é iniciado?

No começo dos anos 1960, o Ocidente vivia um período de crescimento. O clima era de otimismo generalizado, que contrastava com um certo imobilismo da Igreja, que podia parecer afastada do mundo. Por isso havia uma grande expectativa. Joseph Ratzinger evocava uma espécie “de exaltação” ligada aos começos. Mas alguns temiam um concílio “pré-fabricado”, onde nada aconteceria.

Em 1960, o Sínodo da diocese de Roma tinha sido uma decepção. As expectativas estavam centradas, e não somente na França, nos movimentos, especialmente o litúrgico, que desejava uma melhor participação dos fiéis, a introdução das línguas vernáculas. Sem esquecer o ecumenismo, a revalorização do papel dos leigos, a redefinição do papel do bispo, e da reforma da Cúria, especialmente do Santo Ofício.

João XXIII realmente causou surpresa o anunciar o Concílio?

Sim, ninguém sabia disso, com exceção do seu secretário pessoal, Francesco Capovilla, e seu secretário de Estado, o cardeal Domenico Tardini. João XXIII notou bem o silêncio estarrecedor que se seguiu ao seu discurso, 10 dias mais tarde.

De onde lhe veio esta intuição?

Esse debate ainda está em aberto. Para alguns historiadores, o itinerário de João XXIII o preparou para esse projeto. Sua experiência, no Oriente, da tradição sinodal das Igrejas orientais, conjugado à suas experiências sinodais em Bérgamo e Veneza, e aliado aos seus conhecimentos históricos sobre o Concílio de Trento, teria preparado o terreno. Para outros, ao contrário, a ideia lhe teria sido insuflada depois de sua eleição, ou evocada durante o conclave. Ele mesmo falará de uma “inspiração divina”.

Quais eram as tendências presentes no Concílio?

Sob o risco de simplificar, constata-se a existência de duas tendências, tanto em relação à forma como em relação ao fundo. Em relação à forma: alguns queriam um Concílio breve de ratificação, que teria manifestado a unidade da Igreja em torno do Papa. Outros, ao contrário, queriam um verdadeiro Concílio, no sentido tradicional da palavra, feito de debates e de mudanças.

Em relação ao fundo, alguns queriam um Concílio dogmático, que definiria novos dogmas, especialmente no campo marial, e pronunciado anátemas contra as ideologias modernas, especialmente o comunismo. E outros queriam um Concílio de abertura à modernidade. Em 1959, a maioria do episcopado pendia mais a favor de uma linha de reafirmação dogmática. Em dois anos, constatou-se uma inversão de tendência.

Como compreendê-la?

Essa mudança é um dos grandes enigmas da história do Vaticano II. Para alguns historiadores, próximos aos tradicionalistas, trata-se de um complô: assim como nas revoluções, uma minoria teria conseguido tomar o poder. Esta tese não me parece defensável. É preciso antes falar de uma lenta evolução entre os bispos. Para muitos, o Vaticano II foi uma escola de atualização de sua formação teológica, em contato com a “nova teologia” francesa, alemã, belga.

O momento crucial foi a primeira sessão, especialmente a intervenção do cardeal Achille Liénart apoiado pelo cardeal Frings, de Colônia. Esta foi a jogada, quase um golpe de Estado: a assembleia conciliar tomou consciência de si mesma e escolheu um Concílio que não seria feito de aprovações de decisões já tomadas. O cardeal Liénart cristalizou esse movimento abrindo o caminho ao espírito da colegialidade.

Como João XXIII e Paulo VI dirigiram o Concílio?

A inspiração é a mesma: um Concílio de abertura e pastoral, para abrir a Igreja ao mundo, retornando à sua Tradição mais autêntica, com uma nova linguagem para com o homem contemporâneo. Jean Guitton, amigo de Paulo VI, e convidado por João XXIII para participar da primeira sessão, explicava que, diante dos obstáculos, esse último teve a tendência de esquivá-lo, ao passo que Paulo VI o enfrentava. Isso está certo.

João XXIII se mostrou pouco diretivo, contentando-se em indicar as grandes linhas, especialmente a reabilitação da Igreja local, a unidade com os irmãos cristãos separados. Paulo VI compreendeu rapidamente que era preciso tomar as coisas na mão, tornando-se o “timoneiro” do Concílio, preocupado em manter a unidade, temendo as divisões futuras da Igreja, atento às vozes da minoria. A maioria dos textos foi adotada com quase unanimidade da assembleia conciliar. Paulo VI tinha muita responsabilidade por esses consensos, temendo um cisma que ele fez de tudo para evitar.

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