O apelo do papa aos cardeais: ''Não busquem poder e glória''

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21 Fevereiro 2012

Mesmo na Igreja, no fundo, é uma tentação de dois mil anos de idade. Como nada é aleatório na liturgia, antes que Bento XVI se disponha a "criar" solenemente os 22 novos cardeais, no Evangelho, na Basílica de São Pedro, se faz a leitura em latim do capítulo 10 de Marcos, com João e Tiago que dizem a Jesus: "Deixa-nos sentar um à tua direita e outro à tua esquerda". Tentação humana, muito humana. E Bento XVI, diante dos novos purpurados e de todo o Colégio Cardinalício, comenta: "Não é fácil entrar na lógica do Evangelho e deixar a do poder e da glória".

A reportagem é de Gian Guido Vecchi, publicada no jornal Corriere della Sera, 19-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

É uma reflexão de grande importância, a do pontífice, em um momento de tensões, vazamento de documentos e venenos dentro e fora do Vaticano que chegaram a "divagar" sobre "complôs homicidas" contra ele, sobre profecias funestas sobre os "12 meses de vida", de renúncia à qual ele teria pensado em vista do seu 85º aniversário, no dia 19 de abril, o que foi desmentido a tempo pela Santa Sé ("a questão não está posta") e pelo próprio calendário de compromissos do papa.

Na quarta-feira passada, meditando sobre a Cruz diante dos seminaristas de Roma, Bento XVI havia explicado como Jesus convida "ao difícil gesto de rezar até por aqueles que nos fazem mal, que nos prejudicaram". O padre Federico Lombardi falou de "Vatileaks", que "tende a desacreditar o Vaticano e a Igreja" para frear a linha de "purificação e renovação" desejada pelo Papa.

Assim, agora é importante que, no fim da sua "alocução", Bento XVI eleve o olhar e pronuncie: "Rezem também por mim, para que eu possa sempre oferecer ao povo de Deus o testemunho da doutrina segura e conduzir com humilde firmeza o leme da Santa Igreja". O papa quer prosseguir com "humilde firmeza" na sua obra de reforma. A mesma firmeza humilde com a qual ele lembra a "fulgurante resposta" de Jesus aos dois filhos de Zebedeu: "Vocês não sabem o que estão pedindo. Por acaso vocês podem beber o cálice que eu vou beber?".

O cálice é o da Paixão, lembra o papa aos cardeais: "O serviço a Deus e aos irmãos, o dom de si: essa é a lógica que a fé autêntica imprime e desenvolve na nossa vivência cotidiana e que não é, ao contrário, o estilo mundano do poder e da glória". Ele cita um padre da Igreja, São Cirilo de Alexandria: "Os discípulos haviam caído na fraqueza humana e estavam discutindo um com o outro sobre quem era o líder e superior aos outros. O que aconteceu com os santos Apóstolos pode se revelar, para nós, um incentivo à humildade".

O anel. E o barrete vermelho púrpura. O próprio Jesus "se apresenta como servo, oferecendo-se como modelo". Os cardeais se ajoelham um por um diante do papa recebendo os sinais de uma "dignidade cardinalícia", que tem a cor do sangue: "Aos novos cardeais, é confiado o serviço do amor: amor por Deus, amor pela sua Igreja, amor pelos irmãos com uma dedicação absoluta e incondicional: até a efusão do sangue, se necessário". Ele enumera oito características para "servir" a Igreja: "Amor, vigor, limpidez, sabedoria, energia, fortaleza, fidelidade e coragem".

Tarefa exigente, mesmo que hoje seja um dia de festa, e milhares de fiéis, de tarde, vão fazer fila entre o Palácio Apostólico e a Sala Nervi para saudar os novos cardeais.

Timothy Dolan, arcebispo de Nova York, foi impressionante, a quem o pontífice havia confiado, na sexta-feira, a honra de abrir o Consistório com uma palestra ("entusiasmante, alegre e profunda", disse Ratzinger) sobre a nova evangelização "que se realiza com um sorriso, não com o rosto carrancudo". Aos jornalistas norte-americanos que lhe perguntavam se ele poderia ser o primeiro papa norte-americano, o cardeal respondeu com uma risada em italiano: "Desculpem, eu não falo inglês", na hilaridade costumeira. Depois, mostrou o barrete vermelho: "É um grande dia para Nova York: quero colocar este barrete em cima do Empire State Building, em cima da casa base do Yankee Stadium, em cima da Estátua da Liberdade".

Abraços, sorrisos. O cardeal chinês John Tong Hon posa para as fotos com os fiéis. O arcebispo de Berlim, Rainer Maria Woelki, o mais jovem purpurado do mundo, sorri: "Parece-me um pouco estranho ouvir me chamarem de jovem aos 55 anos". As nuvens parecem distantes.

Tensões? O prefeito dos bispos, Marc Ouellet, levanta os braços: "No comments!". O neocardeal Giuseppe Betori observa que, depois do consistório, o papa canonizou oito novos santos, e suspira: "O que você quer, na vida da Igreja os impulsos do Evangelho, de caridade e autenticidade, são sempre acompanhados pelos pecados e pelas pobrezas dos homens".

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