E desaparece a férula conciliar

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13 Fevereiro 2012

Um símbolo desejado por Paulo VI e detestado pelos tradicionalistas.

A análise é do historiador da Igreja italiano Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação João XXIII de Ciências Religiosas de Bolonha. O artigo foi publicado no jornal Corriere della Sera, 08-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Poucos no mundo sabem quem é Lello Scorzelli. Mas um número imenso de seres humanos viu pelo menos uma de suas obras, pequena, de apenas alguns quilos, mas de imenso significado. A esse escultor napolitano, nascido no início dos anos 1920, com um escritório no Vaticano, Paulo VI comissionou, para o encerramento do Concílio, uma nova "férula": isto é, aquele bastão encimado pela cruz, sobre a qual Scorzelli também colocou um Jesus crucificado, magro e mesmo assim capaz de curvar, com o peso do seu sofrimento concentrado, a trave do mais célebre e delicado símbolo cristão.

As fotos conclusivas do Vaticano II mostram Paulo VI portar esse sinal que pertencia, desde a Idade Média, ao vestuário pontifício, mas que, desde o século XVI, era usado apenas em circunstâncias muito raras. Ele o trazia consigo quase como uma extensão estatuária, mesmo quando celebrou a missa na morte de Moro. E o deixou aos seus sucessores. João Paulo I e depois João Paulo II, que começou a brandi-lo, a elevá-lo, a fazê-lo voar consigo para todos os cantos do mundo: com uma audácia redescoberta primeiro, depois como um eixo em torno do qual se recolhia na intensidade da oração e, por fim, como apoio em que se agarrava, fraco e exausto.

Um sinal tão universal que pareceria inevitável até para Maurizio Cattelan: na sua provocação em La nona hora (foto acima) – a escultura com Wojtyla derrubado por um meteorito que justamente o Mons. Franco Giulio Brambilla queria que fosse isolada do resto das obras na exposição dedicada ao artista em Milão há um ano – essa férula tomba com o papa. E é precisamente a falta desse sinal inconfundível que faz com que o Wojtyla de Oliviero Rainaldi (foto abaixo), posto em frente à Estação Termini, se pareça a uma guarita ou pior.

Pois bem, há algum tempo, a férula de Scorzelli desapareceu das cerimônias do pontífice. Desde o Domingo de Ramos de 2008, Bento XVI começou a usar novamente (antes no original, depois uma cópia) o bastão com a cruz de ouro doada a Pio IX em 1877 e usada pelos pontífices até o Concílio. O crucifixo de Scorzelli (contra o qual se jogaram as psicoses dos tradicionalistas que veem ao seu redor as obsessões que povoam as suas almas) continua nos rosários que o papa presenteia aos seus hóspedes, mas não percorre mais as ruas de Roma e do mundo .

Um fato sem significado? Não é verdade: como nos ensinaram os grandes estudos de Agostino Paravicini Bagliani, os gestos, as vestes, os ritos que cercam o pontífice têm um peso que não está ligado ao seu conteúdo, mas sim à elaboração que os circunda.

E isso também se refere à férula: semelhante em função ao báculo pastoral que aparece nas miniaturas dos Concílios toletanos ainda desde o século VIII e depois na arte sacra, ela se distingue daquele por não ter aquela curvatura que a tradição ocidental tinha e que os patriarcas do Mediterrâneo não usavam.

Na Roma do século XIII, que agora vê prevalecer a forma monárquica do papado que marcará todo o segundo milênio cristão, se teorizava a diferença entre férula e pastoral (báculo): depois de Inocêncio III, defende-se que o pastoral se curva para indicar a dependência dos bispos (a coarctatam potestatem, quod curvatio baculi significat, cita São Tomás), enquanto a férula é isenta disso para simbolizar a plenitude do poder do papa.

Mas a recepção formal da férula, que no rito de coroação era entregue ao novo pontífice pelo arcipreste de São Lourenço, dá lugar a outros sinais, tais como a tiara papal e, depois do século XVI, torna-se um objeto de uso raro.

Quando a férula reaparece, o escultor Lello Scorzelli introduz nela uma curvatio que enuncia a obediência do bispo de Roma ao mistério da Cruz. Paulo VI assume essa curvatio do discipulado: e entra assim na Praça de São Pedro no fim do Concílio Vaticano II, no dia 8 de dezembro de 1965, no dia seguinte à retirada das excomunhões entre Igreja Oriental e Igreja Ocidental.

Uma obra de arte, essa férula de Lello Scorzelli, que marca a nova compreensão do ministério petrino ao qual os bispos de Roma da segunda metade do século XX se aplicaram com uma dedicação superior aos resultados, por enquanto.

Que o finíssimo gosto pelo antiquariado litúrgico de quem organiza as cerimônias papais queira dispensar a férula que João Paulo II fizera se tornar a sua tiara papal teológica é evidente. Que o sentido político das Igrejas considere que os lugares públicos desta Europa de sinistros rangidos precisam do crucifixo é compreensível. Que a eloquência simples e forte desse sinal seja a única coisa de que a Igreja precisa é um fato.

O artista


Lello Scorzelli (1921-1997), escultor napolitano (foto), realizou para o Papa Paulo VI uma férula curva que terminava com um crucifixo, utilizada em seguida por um longo tempo por João Paulo II.

• A férula papal é o bastão pastoral que o pontífice usa durante as celebrações. Tradicionalmente não era curvo, como o dos outros bispos, representando o fato de que a autoridade real do papa não se curva diante de ninguém.

• Atualmente, Bento XVI utiliza uma férula diferente do do seu antecessor, que termina com uma cruz de ouro.

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